terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Dia 5

Foi o dia do meu aniversário. Quer dizer, é ainda, sempre será. Pode ser que um dia quando todos os meus amigos e antepassados estiverem ultrapassados, essa data possa ser esquecida quando configurada à mim. Porém, pelo que consta, são minhas bodas anuais individuais enquanto eu exista ou até que alguém, depois de eu ter virado pó, se lembre de mim.
No caso, ontem, vinte e seis largas primaveras; passei um dia corrido, mas com pequenos presentes ocultos. Não teve parabéns, mas teve bolo, de abacaxi. Fui trabalhar e consegui evitar que mil dólares fossem descontados da minha folha de pagamento. Estive fora de casa, por motivos maiores, porém comemorei o dia com pessoas no trem, táxi e numa sala técnica de produtos eletrônicos.
Muita gente me parabenizou, ganhei abraços de gente nova, amigos recentes e pessoas importantes em sentimento. Mensagens escritas pelo celular, telefonemas, presença e colegas que sabem do seu aniversário pela rede social, bombou.
Agrego meu aniversário ao Natal, uma data que eu considero deveras bonita, enfeitada e cheia de reciprocidades gratuitas. É engraçado pois, sempre nessa data, no comecinho de dezembro as ruas estão ainda sendo iluminadas pelas luzinhas pisca e meu aniversário me traz um pouco desse clima que se aloja nas ruas, começando a se iluminar. Eu não me imagino fazendo aniversário no meio do ano, sem ver essas luzes que de alguma maneira anseiam por melhoras. Já me acostumei com aniversário pré-natal.
Quando eu tinha nove, dez, catorze anos, essa já era a data das férias. Sempre aplicado e nerd cdf, saía em férias antes dos outros da sala e viajava para o interior da cidade. Lá ficava até fevereiro e sempre chorava quando tinha que voltar. Na ida eu também chorava, mas depois não queria ver os prédios daqui novamente. Nessa data, de dia meu, sempre me coloco à refletir, me empolgar com novos planos, correr nu nas ruas, ter um novo amor; em contraponto, problemas familiares, conflitos existenciais, retórica não convincente me trazem lembranças nem tão docinhas. Faço uma análise pessoal e vejo que estou perto dos trinta e nem um livro publiquei ainda. Antecipadamente me desespero, mas logo percebo que há tempo para muita coisa ainda. Inclusive para isso.
Sempre olho no espelho. Sempre. Não é um ritual, mas guardo um pouco da minha imagem, de como estou com certa idade. Coisas de homem. No ano passado, tive um aniversário de rei. Participei de um evento que reuniu centenas de jovens e no fim do evento, TODOS cantaram parabéns e gritaram por eu fazer vinte e cinco anos. Porém, o que mais me tocou, foi chegar em casa e ter amigos de anos, de cuecas e banhos me esperando com um bolinho e uma vela micha sobre ele. Chorei.
Nasci às 10h40 da manhã e nesse horário sempre me volto para o sol. Eu gosto de ficar quieto, de bruços sobre essa data minha, só percebendo quem vai lembrar; quem vai dizer que a saga de Sagitário está aberta e lembrar 'Pô o Dani faz aniversário esse mês'. É lindo e gratificante isso. Tenho marcado várias datas de aniversário na minha cabeça. De amigos, família e curiosamente de pessoas que pouco tenho contato, mas que por algum motivo fixou-me a data desse nascimento alheio. Curioso também são as pessoas que fazem aniversário no mesmo dia que eu. Elas sempre lembram e, me lembram, do meu aniversário.
Não sou muito ligado em astrologia, embora eu identifique em outros sagitarianos, pontos de personalidade idênticos aos meus. É comum chover no dia 5 de dezembro. Minha mãe me contou que quando nasci, choveu e posso afirmar que tenho grande sensibilidade com a chuva. Serena, torrencial, firme ou garoa, ela me encanta.
Confesso que essa etapa no dia do aniversário, de atender telefonemas, ler milhares de mensagens de paz, saúde e mimimi me cansam um pouco, porém resgatam que há pessoas, há quem olha, te vê, lembra e tira um pouco do seu tempo para ligar, enviar mensagem e... lembrar de você apenas.

domingo, 4 de dezembro de 2011

A sala de Deus e o Diabo


Deus e o Diabo moram em uma mesma sala. Estreita, pequena, mas que os comporta inteiramente em suas necessidades.
Deus e o Diabo moram em uma mesma sala, compartilhando suas vidas numa convivência fraterna, mesmo distante em imaginários e pragmatismos universais. Gostam dos mesmos livros, com pequenas divergências entre autores; Usam dos mesmos talheres e opinam diariamente sobre a cor da parede da sala, com um tom amarelado fosco, com mesclas azuis bem claras que vão do chão até parte do teto, coberto de escamas. É assim a parede da sala onde mora Deus e o Diabo.
Tudo se tem na sala e tudo se encontra lá; e aí que se dão suas virtudes em serem, ambos, cultuados por toda a humanidade de fé.
De lá, da sala estreita, eles notam os humanos, manipulam os seus dias e ora ou outra, trocam gracejos sobre as peripécias de alguns pouco experientes.
Da janela frontal, próximo ao candelabro de cera, se vê um jardim florido, com crisântemos e margaridas, onde as estações revezam entre os meses. Deus escolhe o inverno e o Diabo anuncia o verão. Na primavera, o Diabo prepara as flores para que Deus possa murchá-las e derrubá-las pelo gramado dando-as outro destino. Vida.
Ambos moram na sala, dormem na sala e comem na sala. Preferem alimentos ricos em fibras e que não ataque o intestino. Evitam gorduras e condimentos.
Diariamente, ajudam um ao outro no trabalho diário e sempre que possível, lavam o chão com água e sabão.
As telas coloridas da sala reportam ao cotidiano dos homens os seus atributos diários. Deus prefere os sinais, os passos e a fala. O Diabo, o sorriso, o olhar e o pensamento. Ambos se completam, trocam repentinamente de nome e gostam de enganar os que se julgam inteligentes. Respeitam os sábios, mas não os ignoram em suas artimanhas.
Deus e o Diabo moram em uma mesma sala. Ambos não têm sobrenome e há de usarem muitos nomes quando se fadigam de seus arautos pessoais. Cada um tem seus amigos e ora ou outra, numa tarde de domingo ou terça, aparecem na sala quase sempre sem muitas expectativas. Tomam uma cerveja, falam de Sócrates, ciência e sexo. Acabam por haver amigos em comum, muito dispersos, de longa data.
Moram no atraso, na janela entreaberta e nos parênteses familiares. Trabalham duro nas intrigas de família, no nascimento da criança e nas salas de aula do ensino médio.
Um não vive sem o outro. Inventaram o amor, o ódio e a saudade. Alguns desses foram tidos como conseqüências rudimentares de ausência, mas vivem a experimentar outros diversos atos intrínsecos da alma.
Deus e o Diabo moram em uma mesma sala. Assistem seriados, invejam os autores e quase nunca saem para se divertir.
Fazem com que os homens que buscam de seus santos refúgios, imaginem entender um pouco da vida de ambos, que moram em um mesmo lugar e se alargam de dar atenção aos que nele se refugiam. Não é de costume misturar trabalho e vida particular.
Seus vizinhos teimam em taxá-los. Em dizer que um é mau e outro bom. Ambos, Deus e o Diabo são amigos e só dão-se a existir quando é lhes dado permissão. Não deixam vir às margens da virtude quem é quem nessa relação.
Por ora aparecem calúnias a respeito de Deus e o Diabo. Assuntos absurdos, de ordem categórica e audaz. Eles não respondem às essas miudezas ignorantes e continuam pagando suas contas.
A casa tem mais cômodos, mas os dois dividem suas diferentes manias numa mesma sala. Uns dizem que Deus mora em cima e o Diabo em baixo. A sala é o lugar onde moram e ainda não há interesse em mudar.

domingo, 20 de novembro de 2011

Todos querem ser Britney Spears

Era no quintal de casa, na sala, com fitas VHS. A minha adolescência foi forrada de pop americano, de N’Sync, Aguilera, BSB e Britney Spears, mas com essa última tive um caso de amor.
Apesar dos pesares, sempre gostei das lôras: Xuxa, Eliana, Britney. Era difícil assumir que gostava dela. Na escola sofria o que hoje tacham de bullying, mas gostava mesmo dela e não era por modinha. Era mais forte do que eu. O primeiro videoclipe, eu vi em pedaços num programa da Xuxa e depois comecei uma verdadeira saga para encontrá-lo na MTV. Ficava acordado até tarde, gravava programas inteiros e nada de passarem o maldito “Baby... one more time”. Passavam o novo clipe, da praia, mas esse eu não queria, embora essa foi a primeira coreografia que eu me meti a aprender, sozinho. Era estranho, pois até então eu gostava de artistas nacionais (como “É o tchan!”) e dançava nas festinhas de família. E o sinal de estranhamento apitava, nos outros.
Eu tinha quinze anos, não tinha internet, mas tinha a MTV, que era o santo canal que pegava no 32 sintonizado pelo vídeo cassete. Lembro-me de ter aprendido isso na escola que até então eu imaginava que a emetevê era só para quem tinha o luxo das TV’s por assinatura. Ah, tinha um amigo, o Galvano, que compartilhava comigo das aparições de Britney na tevê e no bulliyng supranatural da escola. (Quem mandou gostar de pop!?)
Consegui o clipe, mas metade dele, que eu gravei quando passou no TOP 10 E.U.A, e passava aos finais de semana. Quando vi a apresentadora anunciar o primeiro lugar, tive tempo de pular do sofá, procurar o VHS na pilha de fitas, enfiar no vídeo cassete, encontrar um lugar para gravar, pois tinha outros clipes lá e eu não podia gravar por cima, apertar o REC, que demorava uns infindáveis três segundos para obedecer. O vídeo cassete fazia um barulho, fazia outro da fita rodando e aí aparecia a bolinha vermelha piscando no visor. Gravei da parte que ela sai do corredor da escola e depois dali via essa metade clipe todo dia. Por telefone, já contava para Galvano que consegui o clipe. Trocávamos longos telefonemas quando ela aparecia ou quando anunciavam que a princesinha iria cortar o cabelo ou gravar um novo clipe. Novo clipe? Meu Deus! Quando o anúncio era esse, tudo tinha um novo sentido na vida. Lembro quando estreou “(You drive me) Crazy” e nós comentávamos coreografia, música remixada para o clipe e cabelo. Compramos o CD, que tinha uma rosa estampada nele. Tudo parecia ser para o público feminino e/ou para os afeminados. Ou para os dois.
O fato era: Britney já tinha entrado em casa e dançado comigo na sala de casa. Era minha melhor amiga, aquela que eu achava perfeita e ai de quem falasse algo contra. Os shows que ela apresentava, remixados e com coreografias puta-foda. Os tempos mudaram.
Eu JAMAIS poderia dizer na escola que gostava de Britney. Tinha gente que me olhava com repulsa quando eu dizia que ela era linda, que eu adorava as músicas e que queria dançar igual. O povo ria. Ri até hoje na verdade.
Além do Galvano, tinha o Lopes, que foi outro dos meus amigos que eu conheci quando toquei “Oops!... I did it again” numa festa de quinze anos e o vi correr pro meio do quintal-pista e perguntar: “Nossa, você gosta?” e nasceu uma amizade que durou anos. Um dia subindo a rua de casa, ele me disse que conheceu um pessoal de São Paulo que dançava Britney. Um grupo de Guarulhos, longe pácaralho. E todo sábado a gente ia para lá, quando passamos a dançar no grupo oficial de Sampão. Puta meu! Era uma realização dançar Britney. A gente dançava oops, dançava crazy e fomos sabe onde? Na MTV, dançar num programa que chamava “Em busca da fama”, que tinha o Max Fivelinha e o Levy como apresentandores. Quanta gente, quanta coreografia, quanta bichona. Dançamos num palco móvel, um grupo de oito pessoas num espaço crítico. Esse programa foi visto por T-O-D-A a escola onde eu estudava. E agora eu tive que enfrentar radicalmente xingamentos verbais entre outros insultos. Eu (tentava) me convencer que aquilo não me atingia e tinha que fazer pose para dizer que estava tudo bem. Não estava. Eu gostava mesmo dela e das músicas dela, mas o povo queria era xingar, tirar sarro, bichinhas enrustidas.
Saí do cover antigo e entrei num grupo de dança profissional, que dançavam todo tipo de pop americano e eu ensinei Britney, ‘Me against the music’. O grupo era mais maduro que o passado, porém fiquei pouco tempo nele. Deu para dançar em eventos, em cima de caminhões, em showmícios, no Porteira dos Pampas, mas percebi que era eu quem realmente tinha mudado. Meio Sandy sabe?
Os tempos mudaram, novamente. Britney começou uma série de escândalos raspando a cabeça, tendo filhos e sendo vista sem calcinha. Confesso que isso não me afetou, porém eu já com meus vinte e poucos comecei me interessar por Norah, Yael, Corinne, sem forçar. Aos poucos fui esquecendo Britney. Hoje, suas músicas não têm o mesmo impacto no meu set-list, embora eu ainda ouça as nostálgicas no meu quarto.
Britney também mudou. Hoje não dança mais como antes e como sempre aceitei seus playbacks, dançando era o que importava. Percebo que hoje ela é uma artista cansada, do tipo ‘não quero mais ser famosa’ porém para os Galvanos, Pires e Lopes de hoje ela ta linda, canta muito e ahazza no palco. Esses dias comentando com Galvano na rede social, que faz séculos que não o vejo, ele me disse que ia ao show em São Paulo, pois eu ‘tava ligado’ o quanto ela fez parte de sua adolescência. E eu sei mesmo. Isso é o que importa.
Na época do Rock In Rio, eu ouvi a transmissão ao vivo pela Jovem Pan e gravei em fita cassete. Me dava um frio na barriga saber que eu não estava lá. Minha mãe não deixou. Eu conheço um menino do bairro, que ADORA a Britney e tem seus dezesseis anos. Os amigos dizem que ele sou eu, uma espécie de cria, meu filho. Quando olho para ele, com todo o brilho no olhar por uma artista já meio cansada, percebo que para ele não, ela é a mesma Britney de antes. Ela ta em forma, no auge, linda como sempre. São outros olhos que vêem isso e aí ta o segredo todo.
Fui ao show em São Paulo, claro, mas vi uma loira meio insatisfeita com tudo. Fiz até uma matéria sobre e alguns fãs criticaram e defenderam-a com unhas e purpurina. Lá, no show, vi atrás de mim um menino magrinho, com uma câmera na mão. Chorava e cantava todas, inclusive as de dez anos atrás e meu senso crítico nem ousou condená-lo, pois toda magia que me cercava, o cerca hoje além de outros milhares por aí.
Todos temos que ter um ídolo. Falando hoje, do jeito que falo sobre Britney Spears, parece que nunca gostei, mas antes de muito fã de quinze hoje, eu fui um fã com mais de vinte e cinco.
É engraçado, falar de Britney, adolescência e de hoje. Tudo muda bastante.

sábado, 22 de outubro de 2011

Dois Filhos

Bem de madrugada, um deles resolveu ir embora. Não de uma hora para outra, pois já tinha antecipado que queria viver de bens um pouco longe dali, onde crescera.
Essa história já foi contada um dia, em forma de parábola e justamente por se encaixar no perfil de um mais novo e conhecer a história, o garoto pediu um pouco de dinheiro ao pai e juntando com o que tinha guardado, partiu.
Foi embora.
Como último zelo, o pai acordou de madrugada e preparou um café para o moço e o deu um beijo na testa.
O moço garantiu que já tinha um emprego na cidade e o pai confiou. Deixou. Aceitou aquela partida como um fardo que a vida iria, um dia, colocar sobre seus ombros. Pensou agüentar conseqüentemente, balbuciou contrariedades em alguns momentos, mas confiou nos dezenove anos daquele moço queimado de sol, vendo que o semblante já tinha sumido na colina.
Aquela colina era caminho de trabalho e as pegadas do filho na areia ficariam ali por apenas alguns segundos.
O filho foi e o pai, ficou.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O Hospital 2 - História

Dê Play, deixe rolar enquanto lê o post abaixo
Cientistas estrangeiros produziram em laboratório uma droga que seria capaz de curar algumas doenças crônicas. Essa substância foi testada previamente em animais de pequeno porte e o resultado foi positivo. Alguns com lesões na coluna voltaram a andar, outros com infecções generalizadas no cérebro, apresentaram melhoras. A equipe científica americana negou que a droga pudesse curar doenças como o câncer ou até mesmo linfomas menores, porém em contraponto, o governo europeu anunciou que a droga era altamente eficaz e também permitiu que testes fossem realizados nos países. Até então essa droga não fora testada em humanos, apenas em animais como cães, gatos e em convencionais ratos de laboratório. A droga chegou ao Brasil no fim dos anos 90 e foi levada à testes em um hospital no interior do estado de São Paulo. Lá, ela seria estudada com mais afinco e possivelmente testada em animais maiores. A droga, até então benéfica em animais, foi cotada para ser aplicada em humanos, porém o governo não podia admitir que isso fosse feito, para zelar pela integridade da população local. Conta-se que um paciente em estado terminal, ofereceu-se como cobaia. A família quis intervir, mas como o homem sabia que ia morrer, ainda em sã consciência, deu o veredito e autorizou a aplicação da droga em seu corpo. Testes foram realizados e o homem que sofria com um câncer no cérebro, teve acesso a uma dose mínima da droga. A droga aplicada nele, foi aplicada com teste, porém nenhum resultado poderia ser previsto nesse caso em específico. Na noite do primeiro dia de experiência, o homem cobaia entrou em coma profundo, o que preocupou os médicos. Foi colhido sangue, saliva e vários exames foram realizados no homem, que não apresentava mais sinais vitais. No dia seguinte, foi constatado que o tumor aumentara e as chances de sobrevivência do homem seriam mínimas. Ao final do segundo, pela manhã, o homem faleceu e os testes com as drogas foram suspensos. Durante sua autópsia, o médico legista, percebeu vibrações anormais no corpo do homem. O corpo começou a tremer, sacudir os pés e os ombros. O mais estranho de tudo isso, foi que o homem, estava totalmente aberto e sem alguns órgãos. Até que, para surpresa do médico, o homem, deitado na mesa obituária, abriu os olhos. O governo da cidade resolveu interditar o Hospital Central, por denúncias que envolveriam canibalismo e mortes violentas. Conta-se na pequena cidade, que unidades secretas do governo americano pediram que O Hospital fosse lacrado de fora a fora e que todos que estivessem dentro da unidade fossem mortos lá mesmo, para não espalhar os estranhos sintomas da droga em teste. Foi organizada então a "Operação Branca", autorizada pelo governo para 'limpar' o local do incidente. Estima-se que no dia da operação, mais de cinquenta pessoas estavam no local e até hoje não se sabe onde nem o que aconteceu com essas pessoas, que jamais saíram do hospital. Nem mesmo os agentes que realizavam a operação conseguiram sair. O governo não se pronunciou sobre o caso e abandonou o edifício. O Hospital foi aberto novamente quase dez anos depois, exatamente no dia 26 de fevereiro de 2011, para vistoria de autoridades no local. Alguns moradores da cidadezinha foram até O Hospital interditado e relataram cenas horríveis e até fantasiosas sobre o local. O Hospital será reaberto no dia 24 de setembro de 2001 e o governo promete que vai esclarecer fatos como o desaparecimento de médicos, pacientes e agentes federais.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Estadão – o fim das impressões

Sim, eu saí do Estadão. A história é longa, mas divertida. Diria estressante também, mas com um bom enredo. Com vilões, mocinhos e bruxas.
Para quem não leu os meus primeiros posts sobre os primeiros trinta dias ou sobre o primeiro ano pode aproveitar e ler antes de continuar, mas se não interessar, continue lendo sem clicar em nada.
Não dava mais – esse é meu jargão quando alguém me pergunta o motivo da minha saída de uma empresa de comunicação como o Big Estate. Antes de começar a explicar a mesma história sobre minha saída, inicio com “Não dava mais”. O ciclo se fechou antecipadamente, na verdade por algumas situações que eu julgo que poderiam (e não poderiam) serem remediadas.
Mudou muita coisa lá. Foram muitas demissões, mudanças de cargo, hierarquias atualizadas e gente ganhando menos e trabalhando bem mais. Saíram gestores grandes, editores velhos-de-casa e até novatos que não tiveram tempo de feder por lá.
Eu vi toda essa mudança de gestão, todo esse circo de números humanos que eram despejados para fora daquela imensa redação. Meu (ex)chefe foi junto e deixou a TV que ele criou para outros criarem. Outra no caso. E assim tudo foi sendo deixado.
Para quem não sabe, eu não era efetivado, era apenas “colaborador”, palavra essa que eu passei a detestar desde quando comecei a trabalhar como um. Em nada me diferenciava dos outros funcionários, só na contratação. Horários loucos e madrugadas acordado era o que me aproximava dos repórteres uni-duni-tê. Outra coisa que existia lá eram essas denominações jornalísticas. Hierarquia de ‘repórter um, dois, três, quatro, sub-editor, editor, editor-chefe...’ e por aí vai. Na TV, seriamos sempre técnicos, nada de ideias mirabolantes.
Creio que esse fator técnico foi o que mais me motivou a sair. Não poder criar, palpitar. Era engolido pelo mar de jornalistas que visavam conteúdo de impresso no vídeo. E para explicar que vídeo não é papel? Isso rende outro post.
Na parte que me cabia, as coisas foram ficando insustentáveis. Muito trabalho para uma equipe que se reduzia e era mais e mais pressionada a produzir conteúdo sem conteúdo. Vídeos bem elaborados, enquadramentos pensados, foco, primeiro e segundo planos, tudo isso era regalia desnecessária.
Matérias pedidas, encomendadas, notícias quentes apenas naquele momento. Tudo era vídeo. Vídeo bunda, que não passava de dez ou doze cliques. Nessas horas me lembrava dos vídeos de carro que eu fazia e que viravam comentário na redação, além dos cinqüenta e tantos mil cliques que o vídeo tinha no portal do msn. Ora ou outra eu tentava respirar produzindo um vídeo mais elaborado, com planos diferentes, tentando desafogar essa imensidão de notícias populares. Até produzi com alguns amigos, um especial sobre São Paulo Assombrada. Não foi publicado.
Falavam em HD, HD e tudo foi indo abaixo em alta definição. Eu comecei estranhar muito a gestão atual e esse foi o motivo mor para minha saída.
Indo direto ao clímax, numa quinta cinzenta, cheguei à redação decidido ir embora. E fui mesmo. Passei no RH, na Sônia secretária e anunciei que “Não dava mais”. Fiz toda a burocracia na salinha de recursos humanos mas aaanteess: pedi cinco minutos com a chefona da última sala. A sala dela ficava em frente de toda aquela enorme redação. Uma sala rebaixada, com um degrau na porta e uma parede de vidro, com uma aura de: sou foda. E devia ser mesmo, pois meus cinco minutos viraram quarenta. Lá eu vomitei toda minha insatisfação com a gestão da TV, com a falta de compromisso com o funcionário em não registrar e blá blá blá. Sei que ela me ouviu e com feição de piedade pegou na minha mão e disse: “Fica, vai ter bolo” “Fica vai melhorar, eu quero que você fique” E isso me animou e me emocionou. Não, eu não chorei, mas senti que ela me ouviu, pela primeira vez ali dentro.
Pediu que eu tirasse uma espécie de férias. Alegou que todoprofissional precisa disso, ela inclusive. Pediu para eu ficar em casa e descansar. Duas semanas. Eu não queria descansar. Queria conversar e ir embora, mas dei um voto de confiança. Resumindo: Voltei depois de uma semana e meia. Uma semana e meia de angústia imaginando o momento da volta: Eu poderia ser humilhado no meio da redação, poderia voltar vestido de mulher, ou nu ou mesmo dançar Beyoncé na mesa do editor. Eles poderiam me armar uma emboscada ou nem falar nada. Podiam me matar com uma espada de esgrima, ou me exaltar com uma estátua, por eu ter tido coragem de representar a classe ou sei lá o quê. Isso me rendeu noites acordado, discussões sozinho e muita tristeza, de verdade.
Voltei. Com poucas palavras, mas voltei. O editor me chamou na salinha usada para reuniões do iPad e disse que não precisaria mais de mim. Minha alma riu e viu como é importante ter o gostinho de mandar o caboclo embora. Eu havia pedido e me demitido uma semana antes, mas não deixaram. Quiseram que eu voltasse para pegar um pedaço do bolo. Quando voltei, saí.
Fiquei nervosotristefelizaliviadosementendercabrerolevelivre e dei um passo em falso quando sai da sala do tablet, tamanha era minha confusão. Antes de sair fiquei uns dois segundos olhando para o chão e logo quando levantei a cabeça vi as pessoas trabalhando maquinalmente e normalmente em seus computadores. Talvez correndo para fechar suas matérias e ir para casa. E para mim, aquele mundo já não fazia mais barulho.
Fui então ao cortejo fúnebre da despedida. Perguntas do bio ‘para onde você vai?’ ou ‘você pediu ou te mandaram?’ eram comuns. Além de alguns mais solícitos que anotavam meus contatos em um papel qualquer, para me indicar sei lá onde e depois me davam um abraço desejando sorte. E foi assim amigos.
Chega de carros com logotipo, quartas madrugadas e cafés com fichinha. Porém, estou aliviado, ‘não dava mais’ mesmo! Eu acho que até demorei para sair de lá. Preciso de algo melhor e portfólio/capacidade tenho para isso. Sem demagogias.
Às vezes, acho que não deveria ter voltado. Podia ter sumido, dito que não queria mais e simplesmente fazer da minha imagem um vulto que foi embora. Mas voltei e não me arrependo disso, nem que tenha sido para apenas dar meia volta, sentir o cheiro daquele papel amontoado e ir embora de vez.

domingo, 7 de agosto de 2011

Cardiologista

Fui ao cardiologista. Novo, com duas décadas e mais alguns momentos de alegria, fui ao médico do coração. Fui para ele me examinar, para sentir que meu coração esteja em estado perfeito, fora da concentração de velhas doenças de ancestrais familiares. Fora a pressão alta ou a alta identidade que ando perdendo cada dia um pouco.
Ele era um velho ancião, de cabelos grisalhos, mas nitidamente lúcido. Não era desses velhos sem humor ou de lucidez pálida. Era um médico do coração.
- Tem alguma coisa errada com meu coração, eu disse
E ele olhou e viu que minha pele não era de quarenta e sim da metade. Soltou um sorrisinho de canto de boca e perguntou meu nome. Eu disse.
- Nome bíblico, sabia?
Sim, sempre soube, desde quando minha mãe me contou. Ficou surpreso comigo ali, sentado em sua frente, me preocupando com o coração.
Imaginou que eu tivesse um histórico familiar de cardíacos, daqueles que morrem de sopetão. Até que não, eu não tinha. Apesar de uma tia distante que morreu em frente ao fogão de lenha, de infarto ligeiro. Além de cair sobre as panelas que por sorte estavam frias, morreu sozinha em casa, mas sem tanto teatro. O coração parou por uma veia grossa que resolveu estourar no intervalo da novela, que tinha título com coração. Nem sequer mencionei essa tia. Ele colocou o aparelho no meu peito, sentiu as batidas e apertou minha nuca.
- Fuma?
- Não
- Bebe?
- Smirnoff
Riu.
As demais perguntas foram também de respostas rápidas. O exame não durou tanto tempo. O máximo que fiquei foi sem camisa. Alegou que meu coração estava bem e perguntou das dores. Respirei fundo antes de responder e falar sobre elas, eu disse que as dores eram o motivo de eu estar ali. Ficou sério enquanto tirava o estetoscópio das orelhas.
- Dores? Que tipo?
- De todo tipo. Sempre vêm à noite.
Pediu para que eu explicasse melhor e de que lado era essa dor. Exemplifiquei colocando a mão direita sobre o peito e disse que não tinha momentos para senti-las, mas elas sempre vinham quando o céu escurecia e principalmente quando eu via os postes de luz se acender. Contei que as ruas ficavam vazias aos poucos e o céu bonito de estrelas e as dores vinham a partir daí. Silenciosa, quieta e quando eu percebia, todo meu peito estava cheio de dores fortes.
Perguntou se essas dores eram constantes, ao mesmo tempo em que estranhava tais dores virem sempre à noite e pelos motivos que expliquei. Postes e lua no céu não são motivos para dores no coração.
Eu insisti que são. E reais.
Puxou uma prescrição médica, uma folha branca a ser preenchida e disse que tudo isso podem ser neuroses da mente. Problemas da psique não explicados, pelo menos por ele. Nada físico ou necessariamente no miocárdio. Não pude, nem consegui contestar.
Disse meu nome bíblico e destacou a folha devidamente preenchida. Nela não continha tantas letras e nem menos carimbo de assinaturas. Havia apenas uma palavra, que era facilmente traduzida como dores e sofrimento que um dia passam.
‘Amor’ era o que estava escrito, em uma língua que eu ainda não consegui entender.