quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Estadão – o fim das impressões

Sim, eu saí do Estadão. A história é longa, mas divertida. Diria estressante também, mas com um bom enredo. Com vilões, mocinhos e bruxas.
Para quem não leu os meus primeiros posts sobre os primeiros trinta dias ou sobre o primeiro ano pode aproveitar e ler antes de continuar, mas se não interessar, continue lendo sem clicar em nada.
Não dava mais – esse é meu jargão quando alguém me pergunta o motivo da minha saída de uma empresa de comunicação como o Big Estate. Antes de começar a explicar a mesma história sobre minha saída, inicio com “Não dava mais”. O ciclo se fechou antecipadamente, na verdade por algumas situações que eu julgo que poderiam (e não poderiam) serem remediadas.
Mudou muita coisa lá. Foram muitas demissões, mudanças de cargo, hierarquias atualizadas e gente ganhando menos e trabalhando bem mais. Saíram gestores grandes, editores velhos-de-casa e até novatos que não tiveram tempo de feder por lá.
Eu vi toda essa mudança de gestão, todo esse circo de números humanos que eram despejados para fora daquela imensa redação. Meu (ex)chefe foi junto e deixou a TV que ele criou para outros criarem. Outra no caso. E assim tudo foi sendo deixado.
Para quem não sabe, eu não era efetivado, era apenas “colaborador”, palavra essa que eu passei a detestar desde quando comecei a trabalhar como um. Em nada me diferenciava dos outros funcionários, só na contratação. Horários loucos e madrugadas acordado era o que me aproximava dos repórteres uni-duni-tê. Outra coisa que existia lá eram essas denominações jornalísticas. Hierarquia de ‘repórter um, dois, três, quatro, sub-editor, editor, editor-chefe...’ e por aí vai. Na TV, seriamos sempre técnicos, nada de ideias mirabolantes.
Creio que esse fator técnico foi o que mais me motivou a sair. Não poder criar, palpitar. Era engolido pelo mar de jornalistas que visavam conteúdo de impresso no vídeo. E para explicar que vídeo não é papel? Isso rende outro post.
Na parte que me cabia, as coisas foram ficando insustentáveis. Muito trabalho para uma equipe que se reduzia e era mais e mais pressionada a produzir conteúdo sem conteúdo. Vídeos bem elaborados, enquadramentos pensados, foco, primeiro e segundo planos, tudo isso era regalia desnecessária.
Matérias pedidas, encomendadas, notícias quentes apenas naquele momento. Tudo era vídeo. Vídeo bunda, que não passava de dez ou doze cliques. Nessas horas me lembrava dos vídeos de carro que eu fazia e que viravam comentário na redação, além dos cinqüenta e tantos mil cliques que o vídeo tinha no portal do msn. Ora ou outra eu tentava respirar produzindo um vídeo mais elaborado, com planos diferentes, tentando desafogar essa imensidão de notícias populares. Até produzi com alguns amigos, um especial sobre São Paulo Assombrada. Não foi publicado.
Falavam em HD, HD e tudo foi indo abaixo em alta definição. Eu comecei estranhar muito a gestão atual e esse foi o motivo mor para minha saída.
Indo direto ao clímax, numa quinta cinzenta, cheguei à redação decidido ir embora. E fui mesmo. Passei no RH, na Sônia secretária e anunciei que “Não dava mais”. Fiz toda a burocracia na salinha de recursos humanos mas aaanteess: pedi cinco minutos com a chefona da última sala. A sala dela ficava em frente de toda aquela enorme redação. Uma sala rebaixada, com um degrau na porta e uma parede de vidro, com uma aura de: sou foda. E devia ser mesmo, pois meus cinco minutos viraram quarenta. Lá eu vomitei toda minha insatisfação com a gestão da TV, com a falta de compromisso com o funcionário em não registrar e blá blá blá. Sei que ela me ouviu e com feição de piedade pegou na minha mão e disse: “Fica, vai ter bolo” “Fica vai melhorar, eu quero que você fique” E isso me animou e me emocionou. Não, eu não chorei, mas senti que ela me ouviu, pela primeira vez ali dentro.
Pediu que eu tirasse uma espécie de férias. Alegou que todoprofissional precisa disso, ela inclusive. Pediu para eu ficar em casa e descansar. Duas semanas. Eu não queria descansar. Queria conversar e ir embora, mas dei um voto de confiança. Resumindo: Voltei depois de uma semana e meia. Uma semana e meia de angústia imaginando o momento da volta: Eu poderia ser humilhado no meio da redação, poderia voltar vestido de mulher, ou nu ou mesmo dançar Beyoncé na mesa do editor. Eles poderiam me armar uma emboscada ou nem falar nada. Podiam me matar com uma espada de esgrima, ou me exaltar com uma estátua, por eu ter tido coragem de representar a classe ou sei lá o quê. Isso me rendeu noites acordado, discussões sozinho e muita tristeza, de verdade.
Voltei. Com poucas palavras, mas voltei. O editor me chamou na salinha usada para reuniões do iPad e disse que não precisaria mais de mim. Minha alma riu e viu como é importante ter o gostinho de mandar o caboclo embora. Eu havia pedido e me demitido uma semana antes, mas não deixaram. Quiseram que eu voltasse para pegar um pedaço do bolo. Quando voltei, saí.
Fiquei nervosotristefelizaliviadosementendercabrerolevelivre e dei um passo em falso quando sai da sala do tablet, tamanha era minha confusão. Antes de sair fiquei uns dois segundos olhando para o chão e logo quando levantei a cabeça vi as pessoas trabalhando maquinalmente e normalmente em seus computadores. Talvez correndo para fechar suas matérias e ir para casa. E para mim, aquele mundo já não fazia mais barulho.
Fui então ao cortejo fúnebre da despedida. Perguntas do bio ‘para onde você vai?’ ou ‘você pediu ou te mandaram?’ eram comuns. Além de alguns mais solícitos que anotavam meus contatos em um papel qualquer, para me indicar sei lá onde e depois me davam um abraço desejando sorte. E foi assim amigos.
Chega de carros com logotipo, quartas madrugadas e cafés com fichinha. Porém, estou aliviado, ‘não dava mais’ mesmo! Eu acho que até demorei para sair de lá. Preciso de algo melhor e portfólio/capacidade tenho para isso. Sem demagogias.
Às vezes, acho que não deveria ter voltado. Podia ter sumido, dito que não queria mais e simplesmente fazer da minha imagem um vulto que foi embora. Mas voltei e não me arrependo disso, nem que tenha sido para apenas dar meia volta, sentir o cheiro daquele papel amontoado e ir embora de vez.

domingo, 7 de agosto de 2011

Cardiologista

Fui ao cardiologista. Novo, com duas décadas e mais alguns momentos de alegria, fui ao médico do coração. Fui para ele me examinar, para sentir que meu coração esteja em estado perfeito, fora da concentração de velhas doenças de ancestrais familiares. Fora a pressão alta ou a alta identidade que ando perdendo cada dia um pouco.
Ele era um velho ancião, de cabelos grisalhos, mas nitidamente lúcido. Não era desses velhos sem humor ou de lucidez pálida. Era um médico do coração.
- Tem alguma coisa errada com meu coração, eu disse
E ele olhou e viu que minha pele não era de quarenta e sim da metade. Soltou um sorrisinho de canto de boca e perguntou meu nome. Eu disse.
- Nome bíblico, sabia?
Sim, sempre soube, desde quando minha mãe me contou. Ficou surpreso comigo ali, sentado em sua frente, me preocupando com o coração.
Imaginou que eu tivesse um histórico familiar de cardíacos, daqueles que morrem de sopetão. Até que não, eu não tinha. Apesar de uma tia distante que morreu em frente ao fogão de lenha, de infarto ligeiro. Além de cair sobre as panelas que por sorte estavam frias, morreu sozinha em casa, mas sem tanto teatro. O coração parou por uma veia grossa que resolveu estourar no intervalo da novela, que tinha título com coração. Nem sequer mencionei essa tia. Ele colocou o aparelho no meu peito, sentiu as batidas e apertou minha nuca.
- Fuma?
- Não
- Bebe?
- Smirnoff
Riu.
As demais perguntas foram também de respostas rápidas. O exame não durou tanto tempo. O máximo que fiquei foi sem camisa. Alegou que meu coração estava bem e perguntou das dores. Respirei fundo antes de responder e falar sobre elas, eu disse que as dores eram o motivo de eu estar ali. Ficou sério enquanto tirava o estetoscópio das orelhas.
- Dores? Que tipo?
- De todo tipo. Sempre vêm à noite.
Pediu para que eu explicasse melhor e de que lado era essa dor. Exemplifiquei colocando a mão direita sobre o peito e disse que não tinha momentos para senti-las, mas elas sempre vinham quando o céu escurecia e principalmente quando eu via os postes de luz se acender. Contei que as ruas ficavam vazias aos poucos e o céu bonito de estrelas e as dores vinham a partir daí. Silenciosa, quieta e quando eu percebia, todo meu peito estava cheio de dores fortes.
Perguntou se essas dores eram constantes, ao mesmo tempo em que estranhava tais dores virem sempre à noite e pelos motivos que expliquei. Postes e lua no céu não são motivos para dores no coração.
Eu insisti que são. E reais.
Puxou uma prescrição médica, uma folha branca a ser preenchida e disse que tudo isso podem ser neuroses da mente. Problemas da psique não explicados, pelo menos por ele. Nada físico ou necessariamente no miocárdio. Não pude, nem consegui contestar.
Disse meu nome bíblico e destacou a folha devidamente preenchida. Nela não continha tantas letras e nem menos carimbo de assinaturas. Havia apenas uma palavra, que era facilmente traduzida como dores e sofrimento que um dia passam.
‘Amor’ era o que estava escrito, em uma língua que eu ainda não consegui entender.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Adeus

Enquanto um deles dobrava as roupas que estavam sobre a cama, o outro, sentado na beira do sofá perguntou:

- E agora? Por que está zelando por essas roupas que você não usa faz tempo?
- Vou usá-las de novo. E vou para casa
- Aqui é a sua casa
- Não mais...

Um breve silêncio ecoou na sala, foi quebrado por um ‘hum’ do outro que se mexeu no sofá.

- Você me ama?
- Sim, e o silêncio voltou e foi quebrado novamente, sempre vou te amar... pra sempre mesmo.

Os olhares se cruzaram

- E você? Me ama?
- Sim! soou seco, mas verdadeiro.
- Por isso vou embora.
- Entendo. E já sabe para onde vai?

Deu de ombros e virou para pegar os chinelos.

- Pra casa da minha mãe

O olhar do outro estava na mesma beira onde estava sentado.

- Sua mãe? Ela está um pouco velha!
- Vou cuidar dela. Você vai me visitar?
- Sim, às quartas e sextas. Caso queira podemos marcar para sair aos sábados.
- Claro!
- Você vai me esperar?
- Sim, com bolo!

O olhar baixou enquanto a mala era fechada.

- Adeus Eduardo!
- Gosto de bolo de laranja
- Eu sei

E um beijo curto antes de sair fez com que continuassem a se amar. Com gosto de laranja.

domingo, 17 de julho de 2011

Tristeza de supermercado


Sempre achei supermercado um lugar triste. Não sei. Ou é culpa das altas prateleiras, ou das tampas de maionese amontoadas ou simplesmente a minha vida amorosa que anda tropeçando em ilusórias coincidências e enxerga tristeza até no supermercado.
É um sentimento guardado, escondido, que não fala e não age. Sentimento de solidão que desabrocha automático quando vou ao supermercado, acompanhar a mãe ou um amigo que quer comprar pão. Pão de forma.
Assim como não se deve ir ao shopping quando está solteiro, não se deve ir ao supermercado.
As filas da carne, as geladeiras frias e até as gôndolas de chocolate são tristes. Creio que deva haver uma explicação nisso tudo, por trás dessa melancolia escondida nessa ilha das flores. Mercadinhos são mais aconchegantes que os grandes magazines, mas carregam sua tristeza pertinente comumente. São tristes, solitários e quem está ali, não está.
As pessoas vão ao mercadinho de chinelos, bermuda e blusa de alça e lá passa a ser uma enorme dispensa de casa, vazia. Creio que o espírito de família ronda esses lugares e quase sempre me imagino velho, maduro, comprando pão para levar para casa e comer numa mesa forrada. Acho supermercado triste. Deve ser por isso.
Observo o teto, a cobertura metálica e tudo ali é vazio, ao contrário dos corredores de sorvete e cebolas. Ainda mais se for domingo. O mercado passa a ser um lugar quase que depressivo.
Sugeriria aos casais iniciantes que marcassem um encontro no supermercado, não sempre, mas de ora ou outra para passear entre os corredores horti-fruti e de congelados. Seria um passeio agradável e decisivo, um tanto estranho, mas que um dia, no casamento formatado, teriam que ‘passear’ obrigados por esses lugares. Um teste de futurologia amorosa, sem compromisso.
Já fui ao supermercado com mãe, amigos e amores. E sempre achei triste.

domingo, 19 de junho de 2011

O amor e a parede

Parte 1 de 1000 – e com capítulos possivelmente consequentes

Entre as regras para se encontrar o amor, há uma parede.
Conversando com alguns amigos atuais e depois de emprestar o ombro para outros em ocasiões mais antigas, tenho alguns parágrafos a perder, para falar do amor, mas não do amor efetivamente, mas de uma distância de alguns metros que separa o início ao tortuoso, e delicioso, caminho até um relacionamento a dois. Viés caricato para o amor, um itinerário afável e longínquo.
Relacionamento que se chama o outro de bebê, fala com voz enfeitada e se presenteia com ursinhos pode ser considerado uma paixonite aguda, frio na barriga que se não souber levar, estraga. Amor mesmo é mais maduro, mas os ursos fazem parte.
Ontem, um dos amigos chorou no meu ombro, disse que a tampa da sua panela estava tapando outras bocas por aí, uma boca morena. Outra flor das minhas, anteontem, reclamava dos emails encaminhados a ela pelo sujeito que foi embora e não deixou rastros de voltar, embora tenha voltado conseguinte. Hoje, teve a história das mãos que se entrelaçaram e nem sequer houve beijos para a situação se tornar mais perfumada. Mesmo que fossem beijos vagabundos, mas que houvesse beijos, pô. Não houve. Têm também as minhas lembranças, as mais doloridas dos dias de músicas dedilhadas no violão, quando eu chorei, reergui e depois caí feio de novo e ainda assim, depois me levantei cheio de ranços e ascos contra o amor. Nessas horas eu via a parede concreta, cinza, levantada em minha frente.
Tem muito a contar, não só de mim, mas de outros além, que andam com uma parede dura em sua frente, sem notar o aroma do amor atrás dela. Mas o que adianta? Mesmo com todas as provas concretas contra ou a favor do amor, ele nunca será o culpado. O culpado seremos sempre todos nós que engatilhamos regras ao que se aplica na vida, daquele tipo de ‘ligo ou não ligo?’. Uma frase sábia que certa vez ouvi durante o expediente: Tem vontade de ligar? Liga cacete!
Parece simples, mas não é. Na verdade é, mas preferimos complicar. Tem ego, medo, frio e regrinhas nesse meio. De relacionamentos antigos conturbados até àquelas que novamente retornaram às bexigas esvoaçantes desse tal sentimento. Se a uns ele se aplica em forma de fogo, outros ele nem sequer aquece. Esse é o amor.
Tem vezes que eu me canso do trabalho, dos dias e de horas perdidas em porta de balada. E tem horas que tudo o que me irrita, passa a me agradar. Estranho isso, um sentimento bipolar, que anda junto. Porém, remoendo um pouco mais percebo que quando há um alguém que se ouve a voz além da parede, parece que podemos ver e sentir esse alguém, sem que haja parede alguma separando um e outro.E os problemas... que problemas?
Ai nota-se que, apesar de, a parede continuar ali, não conseguimos notá-la.
Não posso afirmar que há benefícios em não se ver uma parede, pois podemos – literalmente – quebrar a cara. Parece clichê, mas quebro a cara constantemente nessa tal parede entre eu e o outro. Desde as provas de amor até o amor provado no momento de escassez dele mesmo, o tom da voz que há por trás da parede vai dizer se é viável ou não enfiar o nariz no tijolo.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Estadão – (agora) um ano de impressões


Nem parece, mas passou um ano. Um ano que trabalho no jornal O Estado de S. Paulo. Não posso dizer que passou rápido, foi um tempo de aprendizado e diversas impressões. Estas, variadas, assim como os dias e os ânimos de trabalhar em um dos maiores jornais do país.
É engraçado. Lembro-me que quando entrei na empresa, exatamente no dia três de maio de 2010, sentia um cheiro no corredor de acesso à redação principal. Não sei explicar. Era um cheiro de papel, ou de muito papel amontoado, ou minha mente que traduzia ser papel, o cheiro.
Era um aroma. Com o tempo esse cheiro foi passando, esvaindo-se entre as tarefas do dia-a-dia, mas impressionantemente, às vezes, durante a correria, eu sinto esse cheiro novamente e esse aroma antigo, me leva àqueles dias atrás, dias de insegurança, de medo de ir ao banheiro e querendo mostrar muito serviço. Dias também de extrema felicidade por trabalhar em uma mega-empresa, na Globo dos jornais impressos. Digo isso com uma modéstia verdadeira.
Hoje já me acostumei a trabalhar em um grande veículo, mas confesso que muita coisa ainda me assusta, quando percebo a repercussão que meu trabalho toma quando o nome Estadão vem junto com o resultado. Para minha área, (que não é o jornalismo) trabalhar aqui pode não significar grande coisa, já que o vídeo não é prioridade. Embora com a convergência de mídias, o vídeo está tomando grandes proporções, tem jornalista velho de casa que não se importa com a imagem, mas com as palavras. Cada um com sua importância.
Minha auto-estima profissional deu um salto, positivo. Vi repórteres consagrados elogiando minhas produções, mesmo eles não sabendo quem eu sou e quem fez determinado vídeo. Outra confissão é achar que todo mundo que vai trabalhar com você, numa empresa de nome, é super profissional. E não. Como em qualquer outro lugar, tem gente que eu não sei como conseguiu fazer uma faculdade.
Passei por boas experiências nesse tempo. Viajei pela primeira vez de avião, para Salvador. Vou para casa de motorista, e vou trabalhar de táxi também, às vezes. Andei de helicóptero sobre o Tietê, conheci o Maluf, Arnaldo Antunes, fui à casa do Dinho Ouro Preto, abracei o Cauby Peixoto, andei na tucson da Globo, fui ao show da Corinne Bailey Rae, da Norah Jones, Lauryn Hill, tudo de graça e na área para convidados. Fui ao SPFW, vi a Christina Aguilera bem de perto, Paris Hilton, fui ao Salão do Automóvel, andei de Porsche, Audi, dirigi vários carros caríssimos, inclusive um Camaro vermelho na Lapa. Vi muita gente entrar e sair da empresa. Até pessoas com anos de casa, gente grande, como meu chefe, que foi mandado embora. Ele, que me entrevistou, despediu-se rapidamente numa quarta-feira e foi embora. Gravei muitas horas de vídeo, tive muita dor de cabeça, me estressei demais com algumas pessoas. Discuti feio. Fiz ótimas amizades, fiquei sabendo de muita fofoca de corredor, me assustei com o tamanho do refeitório e já quis ir para outro emprego. Trabalhei vinte e duas horas ininterruptas e me acostumei a trabalhar aos domingos. Tenho uma mesa só minha.
Você deve estar se perguntando, o motivo de se escrever sobre um ano numa empresa. Só um workaholic faria tal proeza. Porém, meus motivos são simples: orgulho e isso de mim mesmo. Acho saudável e necessário, para entender melhor os caminhos que permeiam nossos dias. Não sei quanto tempo ainda estarei no Estadão, mas espero que esse cheiro que eu sinto pelo corredor, esse aroma de novidade, ande comigo em qualquer outro corredor que a vida escolher e querer tornar velho e cheio de monotonias.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Uma lua que passa

Pode ser também chamada de fase; para os mais crentes, provação, seja divina, ou uma tentação, se for demonizada. Embora toda tentação do Diabo venha a ser uma provação de Deus, de maneira a provar se o ouro é num todo reluzente. E se realmente é ouro, visto pelo ditado que o desmitifica.
Nota-se que Deus trabalha em conjunto com o Diabo (sim, já tenho uma outra crônica sobre isso) e também utilizam de outros astros para completar o sentido místico da vida. Mesmo aos céticos, que não botam confiança nessas questões de aura, há de convir que em determinados momentos a lua que passa varre nossas expectativas para longe e nos faz buscá-las em outros campos. Situações, por vez, brandas como falta de dinheiro, tempo no namoro ou afastamento de um amigo, ou até situações mais medonhas e, por assim dizer, mais graves, como uma doença, a morte de alguém querido ou uma notícia triste de fim de jornada no trabalho.
O motivo dessa escrita é levar a uma reflexão que, de uma maneira ou de outra, em algumas fases da vida, alguns tempos dela, levam a confirmar que os ares trabalham para que pessoas em comum tenham problemas semelhantes e então passem a provocar mudanças em suas vidas. Por esse lado, pode ser benéfico.
No trabalho, é grande a quantidade de pessoas estafadas, querendo ir embora, abandonar, chutar o pau. Casais em crise e viagens canceladas pela falta de dinheiro. Reclamações, desânimo para procurar um amor, o salário que não paga a boêmia. Contas para pagar, demora do ônibus, falta de carro, sexo precário e até os filmes de comédia perdem a graça.
‘É uma lua que passa’ ouvi certa vez. E entendi que essa lua vem sem nomeações e condutas, e se aloja. Estaciona por um tempo e as menores espinhas se tornam grandes furúnculos. Inferno astral, raiva dos deuses, tentação, provação, avareza, dia-do-diogo. É uma lua que passa.