domingo, 30 de janeiro de 2011

'Causos'


Para quem quiser ler (e para, quem quiser, acreditar)

Quem me conhece sabe que sou totalmente ligado às questões sobrenaturais, ainda mais quando essas se dizem verdadeiras. Apesar do clichê do “Baseado em fatos reais”, essa propaganda para atrair turistas, ainda me atrai em determinada escala, até porque, algumas situações já aconteceram comigo.
Antes de entrar em meus relatos pessoais – e medonhos – venho destacar o que ainda me bota medo. O escuro não digo ser a base dos meus calafrios, embora nele possam acontecer muitas coisas que jamais poderão ser explicadas. Embora, quase todos os fatos que se seguem aconteceram no escuro.
Tenho muito medo de zumbis, esses seres cambaleantes, vagarosos e em estado de decomposição. Meu medo está neles, no fato de já terem morrido e voltarem para nos devorar. Não tenho tanto medo de sua mordida ou no real perigo que oferecem, mas em todo o processo que envolve um zumbi. É um cadáver, uma pessoa que já morreu, que podia estar dentro de um caixão ou embaixo de uma sepultura. Todo símbolo fúnebre acompanha este ser faminto por cérebro (ou carne humana). O meu grande medo é ver, um dia, alguém levantar do caixão ou mesmo abrir os olhos no velório, no seu velório. Por mais que haja alegria alheia pelo dito estar vivo, acho que eu correria gritando e chorando cemitério a fora. Falando neste lugar, o cemitério é um lugar mais misterioso do que medonho para mim. Gosto dele, claro que, não para passear num domingo de folga, mas não creio que lá moram meus maiores medos.
Os fantasmas são os maiores causadores de insônia. Ao contrário dos zumbis, eles podem existir. Não que zumbi não exista, eu não disse isso, mas são mais raros, visto pelos casos no Haiti, envolvendo toda a questão religiosa do vodu, seita proveniente do lugar. Porém, os ‘gasparzinhos’ podem ser uma realidade, pois já vi gente descrente ter medo, (como minha mãe, por exemplo, depois de assistir "Atividade Paranormal). É o desconhecido, envolve a morte e a alma que saiu do corpo, que vaga, que pede ajuda ou que aparece atrás das coisas. Outro quesito questionável é o porquê esses espectros adoram aparecer atrás das coisas? É atrás de armário, cortina, reflexo no espelho e principalmente atrás da porta do quarto, do nosso quarto, do seu quarto. Filmes com essa temática fazem sucesso, pois apresentam casos do desconhecido, daquilo que não possa ser realmente explicado.
Dúvida: um zumbi é um corpo sem espírito. Um fantasma, um espírito sem corpo. Então, enquanto o corpo cambaleia, o espírito desse mesmo corpo pode atormentar os vivos? Uma espécie de ‘conjunto sobrenatural’ onde espírito e corpo assombram em diferentes escalas?
Os extraterrestres também fazem muito marmanjo ter insônia. Outro fator desconhecido, de seres que possam viver em outros planetas – além da Terra – e com inteligência superior aos humanos. Naves e OVNI’s são vistos em todo o canto do mundo. Tem gente que não liga para fantasmas e zumbis, mas se borram quando o assunto é ET. Teve o caso do Et de Varginha, os “causos” inexplicáveis no triângulo das bermudas e outros Bilús que aparecem por aí. O cinema aproveita para criar situações diversas para nossos amigos Etevaldos.
Outras plataformas do medo tentam molhar as calças do povo, como bolhas assassinas, aranhas gigantes (embora eu mooorraa de medo de aranha de qualquer tamanho) seres do mar gigantescos, enfim.
Alguns casos aconteceram com este que vos escreve. Isso sem contar os amigos que me relataram outras situações de medo. Segue uma delas, que aconteceu comigo, justo comigo:

O causo do Raimundinho

“Esse é o caso que pode parecer engraçado hoje, mas quase me fez chorar de medo na época que aconteceu”

Em uma cidade do interior, chamada Avaré, onde costumo passar minhas férias e feriados, mora minha avó materna e outras tias. Meus pais tem casa lá também.
O cemitério da cidade é bem comportado, digamos. Bem cuidado pela prefeitura, com algumas esculturas e ficou mais visitado pela minha família desde quando meu avô passou a morar lá. Sepultado. Confesso que, este cemitério, me atrai mais pelas histórias e lendas que o rodeia do que pelas esculturas tumulares.
Raimundo é um menino que morreu antes mesmo de eu nascer. Ficou doente, faleceu e foi enterrado neste cemitério em um jazigo pequeno, reformado posteriormente com azulejos azuis e uma foto sua com roupa de criança do século 19. Aquelas roupas que incluem chapéu e bordados ondulados.
Sempre acompanhei as lendas e contos da cidade que incluem o túmulo dessa criança morta. Algumas mães aflitas com o comportamento de seus filhos pequenos, rogam à esse menino, pedindo ajuda, para que seus filhos deixem a mamadeira, ou o hábito da chupeta e até as fraldas. Ao alcançar essas ‘graças’, as mães deixavam no túmulo alguns doces e até as respectivas chupetas de seus filhos, como forma de gratidão. Claro que, para os mais materialistas, isso só daria mais trabalho aos zeladores do cemitério, que tinham de limpar toda essa oferenda. Para os mais espiritualistas, isso refletia uma forma material de gratidão e oferta ao menino morto.
Nos dias de finados, o cemitério ficava lotado, com missas e celebrações em oferecimento aos mortos. Lembro-me que, nessas datas, o túmulo do Raimundinho ficava repleto de doces, inclusive balas rosas de Yorgut que eu adorava, mas jamais tive coragem de pegar uma delas e comer. Chupetas coloridas também ficavam durante dias ao lado de velas, sobre o túmulo do menino. Com o passar do tempo, construíram uma mini capela in front ao túmulo do pequeno, que se hoje estivesse vivo, seria mais velho que eu. Essas explicações se deram para você entender essa lenda de cidade pequena.
Nunca fui atrás de mais relatos sobre o menino, embora meu irmão mais novo disse que ele morreu de uma doença contagiosa. (Talvez eu siga mais adiante nesse assunto na próxima vez que for para lá, eu disse Talvez!)
Eu e minha alma de cineasta, num belo dia, levei minha Handycam ao cemitério para gravar esse túmulo. Gravei as balas, as velas e inclusive a foto do Raimundo, sem diminutivos dessa vez. Acompanhado dos meus irmãos e alguns primos, me divertia fazendo imagens dessa lenda morta-viva dali. Dei até zoom na fotinho. Meu irmão brincou:

- Você não trouxe balas para o Raimundinho. Ele vai cobrar pela filmagem.

Tentei me desvencilhar dessa afirmação:

- Imagina, Raimundinho não faria isso.

Visto que certo calafrio me correu as pernas, fui me entreter com outro túmulo ou outro assunto. Não queria ser cobrado posteriormente.
Sei que nesse dia, consegui com exclusividade, imagens dum coveiro em uma desossada. Perguntei se ele não tinha medo da profissão e aquela famosa frase veio à tona: “Tem que ter medo é dos vivos, né fio” Não concordo muito com isso.
Naquele mesmo dia, após sairmos do cemitério, tomei banho (por higiene, não por superstição) e junto com minha mãe, fui visitar uma prima. Cristina, a prima, tem seis filhos e seis pais diferentes para cada um deles.
Um deles, o mais novinho me pediu para comprar doces. Comprei uma boa quantia de balas e distribuí entre eles. Ficamos um tempo lá e depois seguimos para minha casa. Neste dia, especificamente dormiram em casa apenas mamãe e eu. Ela no quarto dela e eu num quarto nos fundos, colchão no chão.
Dormi, acordei depois de algum tempo. Meia noite e quarenta e dois. Quase uma da madrugada. Ouvia algumas poucas pessoas conversando na rua e me virei para re-dormir. Dormi novamente, acordei. Duas da manhã agora. Olhei no celular e este iluminou todo o quarto. Uma pequena luz na escuridão, ilumina um quarto inteiro.
Fechei os olhos para retornar ao sono, mas todo sono se foi quando ouvia alguns barulhos ocos na parede, como se alguém batesse, parasse e depois batesse mais. Parecia correr, parecia caminhar na parede. Era um ruído contínuo, alternava na velocidade mas sempre voltava. Não parecia um gato no estuque, mas eu queria que fosse um gato no estuque. Era como alguém batendo na parede com as mãos fechadas. E com as mãos de lado.
Fiquei amedrontado e nenhum cachorro latia lá fora. De vez, acendia o celular para iluminar o quarto e corria com o neon sobre as paredes. (e o medo de ver alguém agachado aos pés do colchão) Fechava os olhos e o barulho tornava-se quase inaudível, mas no silêncio da noite, era audível, penosamente audível.
Levantei e fui ao quarto de mamãe, que dormia pesadamente. Chamei uma, duas e na terceira vez ela, assustada, perguntou o que eu queria. Perguntei quem morava nas casas do lado. Do lado do barulho, disse, morava um casal e no outro, baldio.
Até brinquei, tentando amenizar o momento, que o filho desse casal escolheu um horário péssimo para brincar. Mamãe em seu sono, disse que o casal não tinha filhos e mesmo que tivesse era impossível ele brincar, pois estavam viajando.
Meu medo aumentou, mas não até o momento que, em seu quase sono mamãe soltou: “Você fica filmando cemitério, as coisas vieram junto com a filmagem” Nessa hora Raimundinho e a foto dele, brilharam nitidamente em minha mente. O pavor me dominou.

- Dorme que passa, ela disse.

Dormir? Oi? Era o que eu mais queria naquele momento e enquanto eu ainda falava com ela, os murros na parede continuavam. Murros, passos, tapas, sei lá eu. Até incentivei-a a ouvir mas o que eu ouvi foi seu ronco fundo. Dormia.
Voltei para o colchão no chão, voltei para o neon do celular que agora acendia de minuto a minuto, menos que isso. Rezei, na esperança de afastar aquele medo. Tava com muito medo, tudo estava estranho e tive real vontade de chorar. Rezava e entre uma palavra do Pai-Nosso e Ave-Maria, balbuciei:

- Raimundinho, se for você: não levei bala ao seu túmulo, mas comprei aos filhos da Cristina.

Não sei se foi a oração, as balas ou a promessa íntima de apagar a gravação, mas logo após uns minutos, os sons pararam. Tudo cessou e o silêncio me trouxe mais medo, mas ao mesmo tempo um alívio. Senti que estava seguro e adormeci. Só lembrei-me disso quando acordei no outro dia e apaguei, sem dó, toda a gravação.

Conto mais votado:
"O porco na janela"

Essa situação se deu na mesma cidade do caso acima: Avaré. Eu e minha tia, Laís, antes de dormir, conversávamos no quarto. Ela numa cama de solteiro e eu em um colchão, no chão, ao lado. Era quase meia-noite.
Atrás da casa, havia uma outra casa, que fazia parte do mesmo terreno. Era uma casa alugada, de três cômodos.
Enquanto conversávamos, ouvimos o portão abrir e fechar. Passos avançaram no corredor. Passos lentos, de quem não estava com pressa e ousaria dizer, cambaleando.

- A mulher deve estar bêbada, sugeriu Laís.

Imaginamos quase que unânimes que era uma mulher, pois o barulho dos passos mais pareciam com o barulho de sapatos de salto. Passos lentos e descompromissados, naquela hora da noite.
Não demos tanta trela aos passos de salto e voltamos a conversar sobre outras coisas. Não me lembro como, mas acabamos caindo em assuntos que envolvem cemitério e pessoas já falecidas de nossa família. Passava da meia noite.
Inesperadamente, ouvimos bem próximo da janela do quarto, um grunhido alto, rápido e gradativamente grave. Paramos o assunto, paramos de imaginar e ficamos sem ação durante longos dois segundos.
Meu corpo pulou do colchão e ao sair, percebi que Laís não conseguia se levantar de tanto medo. Voltei ao quarto e apenas minha presença a fez levantar e correr para a cozinha.
Apavorados, corremos ao quarto de minha avó e dissemos que ouvimos um som parecido com o som que o porco emite quando está com fome.
Minha avó, como sempre, sugeriu que fôssemos dormir e ainda bronqueou com o fato de estarmos acordados até aquela hora.
Custou para voltarmos ao quarto, porém nada mais soou da janela.
Essa história me rendeu muitas piadas, em rodas de amigos, e vários títulos rondam sua veracidade. "O porco de salto", "O porco na janela" são os mais sutis.
Eu e Laís, quando nos encontramos, questionamos um ao outro o grunhido que ouvimos naquela noite.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Vista para o céu

Parte I

Era de se esperar que os hotéis estivessem lotados em época de festas de fim de ano ou qualquer outro tipo de feriado religioso, ainda mais no Brasil onde reside a fé católica em sua grande parcela de crentes. A praia foi descartada antes mesmo de ser cogitada. O campo parecia monótono demais para constar como destino de um casal que procura férias agitadas. Vacas e os outros animais provenientes dele poderiam entreter os filhos, mas como o casal não tinha filhos e ainda não planejavam um, o mato não chamou tanto a atenção.
Surgiu uma colônia, dessas onde as atividades são programadas e quase sempre não agradam tanto. São mais interessantes no folhetim de anúncio do que na realidade. Veio também a idéia de um cruzeiro e isso agradou os dois, tanto ele quanto ela, mas o orçamento não correspondia à ideia. Até estudaram o passeio num navio gigante, viram fotos de vistas maravilhosas, mas sabiam que um cruzeiro, sete dias num cruzeiro, era muito caro, mesmo fora de temporada e com a moeda nacional valorizada.
Acabaram numa cidadela cheia de crianças correndo pelas ruas, armazéns e gente sentada na varanda de casa. A mulher esbravejou quando viu folhas secas pelo chão, mas o marido tentou encontrar um motivo para ficarem.

- Pode ser interessante, disse em voz baixa.

Quase não tinham pousadas na cidade, nem mesmo hotéis vagabundos. À cada pessoa que perguntavam, eram mirados dos pés a cabeça e com um sorriso sem vergonha no rosto, as pessoas diziam não saber se havia, ou não, um hotel nas proximidades.
Avistaram uma casa grande, dessas com aspecto medieval e imaginaram ser um bordel, visto pelas meninas de saia curta e blusa sem manga, recostadas na porta. O marido, educadamente se apresentou a uma delas e percebeu que aquele tipo de educação era desnecessária naquele lugar. Perguntou se era um hotel e antes mesmo de terminar, a mulherzinha apontou para o balcão e olhou a esposa da cintura para baixo.
Era um hotel, efetivamente um hotel e organizado, mas de baixo escalão. A senhora gorda da recepção os atendeu com educação, mas com uma simpatia surrada, de gente do mato que trata todo mundo como velhos conhecidos. Isso irritou um pouco o marido, mas a esposa observava as outras portas do lugar.
Enquanto a gorda falava dos aposentos, o marido ouviu um gemido agudo de mulher e um ranger de cama, vindo de perto. Sua mulher certamente ouviu, mas parecia se encantar com os corredores do casarão. Havia quartos vagos, mas o homem não quis ficar. Mais do que rápido, tirou sua mulher dali com certa vergonha de tê-la levado àquele lugar. Uma imagem de um puteiro vagabundo rondou sua mente e não quis compartilhar seus desejos sexuais com a esposa. Saíram e a mulher da porta continuou a olhar a esposa caminhando pela rua da frente.
O dia já encerrava seu trajeto, a noite debruçava-se sobre as montanhas, mas não havia chegado ainda aos telhadinhos. Sabiam o caminho da rodoviária e o próximo ônibus sairia em meia hora, mas não souberam explicar porque não foram embora daquele lugar vazio de interessantes destinos.

Parte II

A fome causou um oco principalmente na barriga do marido. A esposa queria “fazer xixi” e era assim que descrevia sua vontade. Pararam num boteco de nome “Vintém” e a mulher esqueceu por um instante das reclamações caseiras do banheiro sujo e logo entrou no cubículo de pisos brancos para derramar sua ânsia física da urina e da vontade de estar em casa. O marido estava incomodado com a situação, porém jamais pensou em reclamar, pois foi ele quem teve a ideia de entrar num ônibus qualquer e seguir viagem para Itatinga. Foram quase três horas de viagem e ele, nesse tempo, conseguiu convencer a esposa que seria curioso descer numa cidade pequena, desdobrar suas esquinas e depois dormir num lugarzinho aconchegante. No fundo, lá fundo de sua mente, quase se certificou haver hotéis em Itatinga, mas começou a se preocupar quando viu as lojinhas fecharem suas portas e nenhum rastro de algum lugar decente para deitar a cachola.
Enquanto pedia uma coxinha de frango, viu a esposa sair do banheiro, desajeitada com o vestido e com o lugar. Ela passou por ele, parou na porta do Vintém e acendeu um cigarro. Ele detestava quando ela fumava e lembrou da promessa em parar, mas ali, noite, num boteco, não quis incomodá-la ou não quis incomodar a si mesmo.
Os passos dos dois estavam cansados e quando pensaram ir para a rodoviária e pular no próximo ônibus de volta para a cidade, viram escrito numa placa de madeira em frente a um sobrado: ‘Quartos disponíveis’
Sem pensar, o marido bateu palmas e o som delas ecoou no quintal, que no escuro parecia pequeno, mas o som provou o contrário. Do fundo, de bermudas jeans e chinelos, saiu um mulato, magro e de sorriso largo.

- Boa noite, viajantes, saiu da boca do mulato.

- Procuramos um quarto para dois, dessa vez a esposa, meiga e firme.

- Esqueci de tirar a placa, desculpem-me, não há mais quartos vagos! Todos estão ocupados.

E emendando a fala, disse que em um estava uma mãe com a filha adulta, noutro, dois jovens estudantes, no fundo uma mulher e seu amante e no último um padre velho e ranzinza. A mulher interviu dizendo que iriam embora pela manhã e tentou ressuscitar no mulato a lembrança de outro possível quarto vago. O mulato pensou e agora se podia ver seu cavanhaque, mas não todo seu rosto. Caminhou lentamente e continuou sua explicação:

- Atrás da minha casa tem um lago, um lindo lago!

E novamente emendando a fala, disse que cobrava quantias diferentes para cada hóspede de sua casa. O marido levantou o pescoço para notar se realmente aquele sobrado possuía tamanho para abrigar umas dez ou quinze pessoas, e no escuro mais escuro da noite, percebeu que realmente havia um oco, um vazio atrás do terreno e ali podia mesmo ter um lago. O escuro não o deixou notar nada. Apenas supôs.
Voltou a prestar atenção no menino. Agora explicava que cada janela de sua casa tinha uma vista diferente para o lago e por isso cobrava mais caro para as vistas mais privilegiadas.
A mulher interviu novamente e agora, já sem paciência, agradeceu e deu as costas para o jeans e os chinelos de cavanhaque. O marido prestava atenção na conversa e por um instante, um instante bem miúdo, imaginou o lago que podia enfeitar a varanda daquela casa. E logo atropelou esse pensamento provocante com outro pensamento, mais instigante ainda, de como seria ter em casa, um lago. Um maravilhoso lago, mas logo estava sendo puxado pela mulher, que não imaginava lago, nem maravilhoso, nem nada. O homem, ainda atento, mas lutando para não contrariar a mulher, ouviu a voz do menino atrás do portão:

- Tem um quarto... Com vista para o céu, e seu rosto se iluminou.

Parte III

Esta última fala foi um motivo, ou mais um motivo, para causar na mulher o desejo de estar em casa e poder degolar o marido que outrora a convenceu ser ‘interessante’ essa viagem para uma cidade desconhecida e pequena. A característica pequena, nas palavras do marido, soava como um adjetivo, uma qualidade e quase que inconsciente, essa sensação agradável na palavra pequena, transmitiu à esposa uma curiosidade de estar nessa cidade, pequena. Esse encantamento que o marido tinha causado nela há algumas horas, era o mesmo que aquele cavanhaque de rosto iluminado estava causando em seu marido, agora. Ainda mais pelas circunstâncias do momento, de não ter onde passar a noite e descansar. Embora a cidade não parecesse oferecer perigo, não quis arriscar e ficar ali discutindo se ficaria ou não num quarto “com vista para o céu”, soltou essas palavras quase que remedando seu autor.
Ficou ainda mais nervosa quando mensurou a ousadia de um molambo em oferecer um quarto com vista para o céu. O que não era comum. Ofereciam-se quartos com vista para o mar, ou para montanhas, campos verdes e vastas ramagens de flores, mas para o céu? E por mais excêntrico que fosse, poderia ter vista para um abandonado campo de concentração, de antigas guerras, ou mesmo o simples lago atrás da casa, que ele jurava existir. Quem queria ver o céu? Podia vê-lo dali de onde estava e não precisava pagar estadia num quarto para ver nuvens e possivelmente um pássaro voando entre elas.

- Vamos passar a noite no quarto! Disse o marido.

A mulher não acreditou nas palavras dele e o estranhou por um instante. O menino retirou a placa do portão e colocou os chinelos na calçada, enquanto o marido já abria a carteira para acertar a noitada no quarto com vista para o céu.
Sem poder esbravejar mais, pois o marido já estava inteiro dentro da casa, a mulher esperou entrarem no quarto para assim finalmente degolar o marido, com palavras e juramentos de separação. Sabia que não era capaz, mas naquele momento era. O menino não pegou o dinheiro ainda e ocupou-se com as malas dos dois. Foi a frente deles e explicava cauteloso sobre o quarto.

- É um quarto com apenas um colchão, de solteiro. Terão que dormir apertados. Se for para apenas dormir, não precisarão de mais nada.

A mulher quis falar, mas apenas um grunhido oco saiu de sua boca, como desabafo misturado com raiva. Passaram por um corredor comprido e novos quartos iam surgindo conforme adentravam a casa, que se revelava maior que suas estruturas exteriores. A porta de um dos quartos estava semi-aberta e a esposa pôde ver um velho sentado aos pés da cama recitando o terço. Viu a janela e o breu fora dela.
O menino parou ante um quarto no fundo do corredor. Pegou uma única chave pendurada ao lado da porta, num desses ganchos improvisados e a abriu com apenas um toque. No quarto, escuridão. O menino entrou, sumiu lá dentro e ao acender a luz, o quarto revelou-se miúdo e com um esqueleto de cavanhaque e chinelos, no centro dele.

- Este é o quarto, apresentou o esqueleto, movendo satisfeito o braço direito.

Era miúdo mesmo, pequeno a tal ponto de, o menino sair para que os dois pudessem entrar. A mulher entrou e com uma volta ao redor de si mesma, viu o quarto inteiro e depois a cara do marido, encarando o assoalho, com mais medo dela do que de dormir naquele chão frio. O menino disse que no outro dia, pela manhã, acertariam a quantia da pernoite e desejou um bom sono aos dois. Antes de sair recomendou:

- Acordem antes de o sol nascer! Sei que estão cansados, mas bem cedo, abram a janela e observem o céu.

E saiu novamente satisfeito com o aluguel daquele quarto. O marido fechou a porta e nem sequer olhou para a mulher. Havia cobertores e apenas um travesseiro sobre o colchão. O homem tirou os sapatos e arrumou as malas no canto do quarto, ao par do colchão. Ela chorou e não conseguiu degolá-lo.
Em pouco tempo, ambos estavam deitados e abraçados no colchão que incrivelmente os abrigou bem, mesmo eles dormindo frente a frente num colchão único, de gente solteira. A mulher, agora mais calma, lembrou-se dum trecho de um livro que lera na faculdade, cujo escritor português narrava a história de um casal que embarcou no mar em busca de uma ilha desconhecida e acabaram esquecendo-se de cotar o céu como fonte de perigo para suas jornadas. Lembraram do mar e esqueceram-se do céu. Logo refletiu como os poetas e escritores dão valor ao céu que está sobre nossas cabeças, todos os dias, mas que nunca, ou quase nunca, ninguém pára para admirá-lo, ou pensar sobre ele. Não era poeta e nem pretendia ser, mas nesse momento o céu aguçou sua vontade de encará-lo. O céu, aquele mesmo de sempre, lá em cima, que se podia ver sem pagar.
Reparou que o marido caíra no sono e já dormia. Foi até a janela e com os dedos miúdos como o quarto, girou a pequena manivela que separava seus olhos da vista do céu.
Escuridão foi o que viu e dessa vez ninguém estava ali para acendê-lo como fizera o esqueleto há pouco, com o quarto. Lembrou do lago e tentou vê-lo também. Um fardo de frio tocou seu peito e entrou no quartinho. Novamente olhou para cima e nem uma estrela sequer encontrou.
Entristeceu-se por, a pouco rejeitar a vista para o céu e preferir ver o que se podia tocar, como as flores ou o mar. Neste momento, entendeu um pouco sua alma de poeta e algumas palavras do menino magro, de rosto iluminado, que falava tão bondoso, dessa tal vista.
Fechou a janela e ansiosamente foi se deitar para poder dormir e no outro dia esperar a aurora e novamente poder ver o céu.

FIM

domingo, 26 de dezembro de 2010

O sol

Os olhos que não se abrem para o brilho. Ele está, sobre as pálpebras, está. Não cura, ameniza.
Sobre as flores, paira a sabedoria dos poetas e acima do céu, que entre dias é cinza, entre outros, azul, mora o mistério que abre os caminhos ante a escuridão. Não digo mora, mas fica, nasceu e vive reinando por ali.
Mortal e vívido, entre frestas de madeira, no caminho, nada dorme e acorda homens. Chama-os ao cansado fardo de encarar a terra. Os pássaros e o canto dos pássaros acompanham a cor da vida, anunciam o fim da noite, que pode ter sido boa, mas foi negra. A vida plena é amarela. A cor da alegria é amarelo, amarela. O, a.
O dia mais feliz tem sol, e não o sol, mas a obra dele. O homem é venerado por suas obras e com o sol não é diferente. Não que seja um homem, não tem brilho para tal. O sol que se vê daqui é aquele que outro amado vê, ao longe.
O sol que ilumina a frente da casa é o mesmo que ilumina os fundos. Os raios que aquecem são os mesmos que queimam. E todo dia o mestre está lá, do canto, vendo, mirando. Cumprindo sua obra.
Enquanto há estrada, a chuva molha e o sol remonta. O sol é a única proeza da natureza que pode enganar e encantar. Uma clara verdade que não se vê. Um ciclo.
O mesmo dia de agrado, de raios que iluminam os quartos, as ruas e as nuvens, é o mesmo dia que a mãe chora pelo filho, que se perdeu. Neste dia, também há a obra do sol.
Ilumina as lágrimas, traz uma dor de luto e assiste uma criança brincar perante o mar. Aquece o orvalho. É o mesmo, sempre. Elo de amor, luz de tristeza que paira sobre o paraíso. Ilumina as almas, os animais e os bichos de pele preta.
Canta-se ao redor do mundo, em línguas distintas. Vozes de gente sem vida, de corpos magros arrebatados de fé numa mazela física de melancolia. Irmão perdoa irmão, gente mata gente, neve evapora e se torna ar. O sol passa os raios, sua obra, seu caminho de quentura. Escaldante, livre, ameno e sem fim.
O mesmo calor que ajuda na colheita num canto dum mundo, abre horizontes para um homem que procura um grande sentido num dos seus dias, doutro. A obra, amarela de alegria, caminha. Ninguém vê, nem se lembra. Está no canto da memória.
Dias que merecem lembrança e aqueles que não se apagam. Não memoriza se no dia de maior tristeza havia sol, não se lembra se na escolha da alegria havia a obra do sol. Mesmo dia, ou noite, de olhos fechados, ou sem nomes para um, ou, para um que seja outro.
Caminhando solitário, tendo um amor de datas, perdendo ou ganhando, há um sol amarelo.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Crônica de Natal

Lembro-me bem quando após um dia cansativo vi pendurado em frente às duas janelas de casa um desses “pisca-pisca” natalinos. Minha expressão de cansaço mudou quando vi a cena: todo torto, mal colocado e com algumas luzes queimadas. Percebi que fora meu irmão mais novo o autor. Sorri sorrateiramente.
Lembro-me bem quando andava com ele na rua e calados observávamos as casas com resquícios de Natal. Algumas iluminadas no sótão, outras na varanda, outras no quintal. Traziam o imaginário de um bairro notoriamente feliz, pela luz que se expandia. O pequeno ao meu lado vislumbrava-se com as luminárias pensas colocadas par em par no meio das flores de canteiros altos.
- Eu acho bonito as casas com luzinhas! E olhou para mim
Olhei para ele e percebi que esperava uma confirmação.
- Sim, são muito bonitas! Respondi
Tornou a olhar para as casas e suas telhas e andar silencioso ao meu lado.
Lembro-me bem quando meus pais, a ponto de se separarem, mudaram-se para o interior e me deixaram cuidando, daquele casarão descuidado repleto de memórias vivas. Tão vivas que tomavam espaço em meu quarto. Dos dias inteiros com luzes apagadas e quintal repleto de folhagem seca. O pequeno foi junto.
O natal chegara mais cedo este ano e minha família voltou com ele. Não suportaram as infindáveis tardes ensolaradas daquela cidade interiorana. Trouxeram doce de abóbora, coco e brigas na mala. Lembrei-me também das noitadas que meu pai passava na rua e ao voltar embriagado da lua, gritava no portão para que o deixassem entrar, embora estivesse com as chaves no bolso. Das discussões ouvidas do banheiro e das ofensas lançadas aos ventos.
Lembro-me bem do irmão do meio atrasar o relógio do despertador para perder aula e não ter condições de passar de ano. Tudo para chamar a atenção de alguém, talvez do pai. Preocupava a mãe com suas respostas imediatas e seu desempenho na escola. O que menos a preocupava, era o mais velho, esse que vos escreve, a não ser por sua ausência amorosa e complicada, segundo as leis da sociedade. Talvez fosse o que mais a preocupava.
Lembro-me bem, também, de não ouvir o som de vozes ou de qualquer outro ruído qualquer dentro da casa, embora não estivesse silenciosa.
Parado no portão, eu enxergava somente o brilho por trás daquele pisca torto e sem-vergonha. O brilho de uma família que volta a iluminar alguma vida nessa rua tão apagada e suja. De onde veio esse brilho, senão do mais inocente e necessariamente o mais passivo de toda essa relação difícil chamada família. Talvez a mais complicada das permanências, porém a mais gratificante das experiências.
Lembro-me bem quando uma lágrima caiu, ao vê-lo torto, pendurado e inferior ao das outras telhas, mas que ainda fazia algo que merecia atenção: brilhava.

domingo, 7 de novembro de 2010

Coletivo

Viu que faltavam dois para entrar. Não correu e ainda esperou um deles subir. Cansado, depois de um dia inteiro de trabalho, passou a catraca automaticamente, sem perceber e percebeu que não havia lugares para sentar. Apesar de não estar cheio, o coletivo estava com os assentos todos preenchidos e sua cabeça repousou no braço, que antes se pendurou no ferro.
Seus olhos fecharam, seu pensamento não foi muito longe e tudo o que queria era tomar um banho e dormir. Estava com fome, mas o ritmo do dia diminuía conforme o coletivo avançava sobre a cidade.
O carro, este que o deixou na mão, deveria ficar pronto só na semana seguinte e o ônibus grande seria seu meio casa-trabalho durante mais alguns dias. O celular vibrou e ao atender, a ligação caiu. Era a mãe, que deveria perguntar o que queria comer no jantar.
“Qualquer coisa” pensou sem balbuciar e tentou ligar novamente para casa. Desistiu.
Um homem, de baixa estatura, esbarrou em seu sapato. Sapato preto, social, chato. O homem desculpou-se sem encará-lo e ele sem querer percebeu que as unhas do baixinho eram adoentadas, uma bactéria, ou um vírus as tinham deixado pretas. Por um minuto, tentou lembrar a diferença entre bactéria e vírus, mas logo esqueceu a charada e deixou que o homem fosse para perto do cobrador. Era meio velho, tinha entrado pela porta de trás, mas não passava dos cinqüenta e poucos.
Não notou que perto do cobrador, um banco estava vazio e algumas pessoas entravam e logo alguém ocuparia aquele lugar. Quando viu, o coletivo avançou e ele deitou novamente a cabeça no braço.
De longe, semáforos, casas e gente nos bares. Agora, as pessoas já apertavam seu corpo sobre o banco a sua frente. Estava cheio e o calor aumentava.
Novamente o celular. Agora, um amigo. Também desistiu e mandou uma mensagem confirmando um churrasco no domingo. Um resto de alegria o fez sorrir pelo canto da boca. Resolveu ligar para o camarada e ao procurar o nome na lista de telefones, passou pelo nome da sua última namorada. Aline.
Por um minuto, já em outros números, lembrou que, da última vez que seu carro estava com as rodas travadas, voltara nesta mesma linha de coletivo com Aline.
Eram quase sete, horário de verão, ainda tinha sol. Um resto de.
Levantou a cabeça do braço vermelho e arrumou a gola da camisa. O banco perto do homem da unha estava agora ocupado. Uma moça, de traços similares ao de Aline, parecia dormir. Sua cabeça estava muito reclinada a ponto de bater o queixo no peito.
Seu pensamento agora voou e lembrou com doçura de sua ex-namorada. Lembrou de sua boca, de suas mãos quentes e que há um tempo, há pouco tempo, aliás, estavam juntos.
Olhou novamente para a moça sentada, mas apenas viu o cabelo cobrir seu rosto. Pensou novamente ser Aline, mas não. Agora, ela estava somente na agenda de seu celular.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Coletivo

Sentou. Conseguiu sentar e regozijou-se por apertar o passo e dar uns empurrãozinhos enquanto entrava naquele coletivo. Empurrões pequenos, que podia subtender-se que outros a tivessem empurrado antes. Suspirou e soltou pesadamente o ar. Arrumou o cabelo -, mania de mulher, ajeitou a bolsa no colo e jogou os pés entrelaçados para baixo do banco.
Seu olhar descuidado mirou a mão de um homem, que tinha a unha do dedão deveras enferrujada, emputrecida, feia. Voltou o olhar para o chão e novamente apertou a bolsa. Sentiu a garrafa de água, vazia, fazer volume dentro da bolsa. Ficou assim durante alguns minutos e o pensamento voou ao trabalho, que precisa de novas rotinas, um pouso no curso que pensa em fazer, no Dom Casmurro que precisa terminar de ler. Ouvia os murmúrios de conversas desinteressadas, o balançar do ônibus e o reflexo dos ferros repletos de mãos cansadas. As mãos dizem muito de alguém.
Novamente, seu olhar sem cuidados, saiu do vão enternecido de efêmeras memórias e viu, sem querer, um semblante conhecido entre as tantas feições daquela tarde pós trabalho. Era seu amor, ou seu amor do passado, ou que deveria estar e ser do passado, ou que nada de amor, ou... Baixou a cabeça repentinamente enquanto sentiu um frio descer da nuca para a espinha.
O homem da unha enferrujada, emputrecida, feia, mirou seu susto. Ela viu, segurando num desses ferros de reflexos, um dos poucos que amou durante sua vida. O coração acelerou, ficou desajeitada no banco, enquanto sua mente trazia como numa roleta russa, ele beijando-a no parque, ela apenas de calcinha sobre o corpo dele, a cesta de doces, os chinelos nos pés arredondados dele, o curso que fazia na faculdade e que já tinha terminado. Sua boa memória a irritou um pouco.
Estava bonito, apesar do cansaço e da barba, estava bonito. Pelo pouco que conseguiu olhar sem que ele a percebesse ali. Sua nuca inclinou-se tanto a ponto do queixo encostar no peito. Percebeu isso quando o ônibus pulou e a cabeça deu um tranco para cima e depois para baixo. Sentiu dor, mas não sentiu.
A mente agora aterrissou e pousou num campo seco, num deserto onde não havia mais parque nem chinelos. Era como se, um mar de terra a engolisse e ela não pudesse saber onde está. Ao mesmo tempo, neste deserto, tinha flores e flores coloridas, mas com um cheiro insuportável. Os olhos eram agradados pela beleza e o olfato invadido pela sensação de envenenamento.
Estranhou. Ele nunca pegava ônibus, mas imaginou que mais uma vez estava sem carro, visto pela última vez, quando as rodas travaram e isso serviu de pretexto para que os dois viessem abraçados no banco de trás do coletivo. Coletivo este, que agora leva ambos, ele e ela e que assiste o destino sorrir ao ver os dois corações dentro de um mesmo espaço, com outras pessoas sem poderem se amar.
Deixou o cabelo cair sobre o ombro e cobrir parte de seu rosto, para que, este, fosse uma incógnita para aquele que um dia ela amou e sorriu para revelar toda sua beleza.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Imagem é tudo. O cinegrafista, nada.

Para responder rápido (e refletir):

1. "Diretor de Titanic"?
2. "Câmera (cinegrafista) que fez a imagem de Rose e Jack furunfando no calhambeque?"
3. "Apresentador do Altas Horas"?
4. "Câmera que foca o entrevistado quando ele entra pela direita do palco"?


Putz, assim como a palavra 'cinegrafista', até as perguntas são complexas.


Por essa sua cara azeda ao pensar no nome dos fulanos das perguntas 2 e 4 que escrevi este texto.


Imagem é tudo. O cinegrafista, nada. Já parou para pensar que por trás de tudo que vemos na TV tem uma pessoa? Parece idiota, mas há certo sentido imaginar o autor da imagem gravada por trás da tela da televisão. Quase sempre esquecemos que aquelas imagens que entram pelas fechaduras, ultrapassam janelas, saem da boca de leões, foram câmeras que registraram. Tipo: você assiste a uma novela ou a um filme e não imagina que os movimentos, a imagem gravada ali foi feita por um camarada, segurando firme a máquina de gravar, no caso a câmera. E se caso você lembre, não dá muita importância para isso.
Algumas experiências pessoais me confirmam tal fato. Ter uma rotina de gravações com vários temas, vários lugares inclui também gravar várias pessoas e aí se encontra o problema. Para quem não sabe, trabalho com produção audiovisual para dois portais, de grandes veículos de comunicação no Brasil: um deles, o jornal O Estado de S. Paulo (http://tv.estadao.com.br) e o outro, o Portal MSN (http://video.br.msn.com/browse/tvestadao)
Não somos uma emissora de TV e por isso o forte desses veículos são matérias impressas, conteúdo on-line e imagens estáticas. No caso do MSN, há destaque para o serviço de mensagens instantâneas. Embora o vídeo seja um grande e revolucionário passo na construção midiática desses veículos, ainda estamos engatinhando no audiovisual online (mas, não considere que estamos atrasados), porém, quando um vídeo se destaca, grande parte dessa mídia se volta para tal e momentaneamente o audiovisual se torna importante, mas nada supera o impresso, claro, considerando o veículo jornal. Porém, não escrevi esse texto para discutir a importância do vídeo, mas do cinegrafista, no caso: eu. Eu e tantos outros milhares espalhados pelo mundo.
Há créditos para o nome do veículo, para o entrevistado, conteúdo da matéria, diretor, mas para o cinegrafista, o cara que gravou e que conseguiu imagens, entrou na boca do bicho, passou a bala de raspão, para esse não existe.
Breves relatos confirmam isso: Fui gravar o presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles, na sala de seu gabinete na Av. Paulista. Neste dia, eu e mais um companheiro de labuta montamos, iluminamos e preparamos todo o circo. As assessoras (sempre loiras) ofereceram chá, café, água, leite desnatado para os repórteres. Para nós, só depois que acabou, para não falar que esqueceram.
Outro dia, na cobertura das eleições, ao gravar o comentário de Eduardo Suplicy, percebi que ele ficou tão encantado com a repórter que nem sequer notou minha presença, gravando-o em sua frente. Não digo que o motivo foi a repórter, mas o fato de, ele nem sequer notar a câmera preta, luz, microfone e eu. “Essa matéria vai para onde, rádio!?” perguntou. Sim! 'A câmera na verdade é um super gravador que faz com que o ouvinte veja sua imagem através do rádio.' Será que não reconhecem uma câmera?
Outro fato interessante é quando perguntam: “Tá gravando?”
Os méritos pós-publicação vão para o repórter, ou para o apresentador. Atribuem tudo a ele com um único referencial: o “vídeo”. “Parabéns pelo vídeo, fulano!” E esquecem-se do cinegrafista, do editor e de todo trabalho que foi para finalizar o processo e finalmente assistir a produção.
Engraçado também que, quando a pauta é arriscada, como entrar numa jaula com emas ferozes, (para não usar de novo o exemplo dos leões) o medo sempre fica com o repórter. O cinegrafista fica quietinho, não chama a atenção nem das emas.
Essas emas estão por toda a parte. Não percebem o trabalho complexo para fazer um vídeo de qualidade. O que mais irrita são os ‘amadores’ que querem ser profissionais. Não sabem fazer, não sabem gravar e gravam de qualquer jeito, sem enquadramento, luz e eixo. E no final, dizem: “Tá um pouco tremido, mas dá para ver!”
Um cinegrafista jamais assina uma matéria, palpita na pauta ou sugere uma pergunta, mas um jornalista se arrisca nas imagens. Ósseos do ofício que nada, respeitem o moribundo gravador!
Mas, nem tudo são emas: lembro-me quando gravava o candidato à presidência da república, José Serra, aqui no prédio do jornal e ele ao me notar gravando-o dentro do elevador, soltou: “Pode desligar? Não me sinto à vontade...”