quarta-feira, 25 de julho de 2012

Desova

Capítulo 1

Desligou.
Furiosa com a aquisição que tinha feito no início do ano, Berenice agora estava também triste por não conseguir ir morar no apartamento novo e bateu com força o telefone no gancho encerrando a conversa com o agente de vendas.
Tivera muitos problemas com o novo imóvel antes mesmo de obtê-lo e resolveu tomar um chá para acalmar os ânimos antes de dormir.
Levantou repentina da poltrona da sala e, soltando baforadas pelas ventas, dirigiu-se até a cozinha. Do outro canto da sala o marido levantou os olhos e perguntou se estava tudo bem.
- Não! Respondeu
O homem ouvia o tilintar dos talheres e das xícaras na cozinha. A mulher estava realmente atormentada com a demora para a entrega do apartamento que havia financiado há anos. Desde o réveillon, Berenice teve a promessa de pegar as chaves e se mudar para a Rua Maranhão, onde o novo edifício estava sendo construído, mas as obras atrasaram e os preços foram remanejados.
-Burocracia dos infernos, dizia consigo mesma. Nesse país tudo é demorado.
O marido, que trabalha indiretamente com vendas imobiliárias foi tentar acalmá-la, dizendo que o processo é realmente demorado e que os prazos sempre são prorrogados por questões orçamentárias e de ordens maiores. Até a obra ser finalizada ainda demorariam meses e o prazo máximo de entrega ainda não tinha sido rompido.
Os planos de Berenice e o marido era de se mudar até o carnaval daquele ano. Porém, estavam já próximos do feriado de todos os santos e nada havia realmente se concretizado. O casal esperava ansioso para a mudança e a mulher havia feito planos meticulosos para o novo apartamento. Um condomínio que deveria ser entregue pronto para colocar mobílias e abrigar novas famílias.
Apesar da compra singela, o imóvel custou caro e uma entrada de sessenta mil havia sido paga à vista. As prestações seriam parceladas sem acréscimo durante os próximos oito anos e o casal pretendia levar uma vida menos agitada do que vinham levando nos últimos meses com as preocupações no trabalho e ainda mais, com a demora para a entrega do que seria 'um novo lar'.
O marido entendia as aflições da esposa, mas entendia também que preocupações além da conta iriam acabar com o início de um novo ciclo naquele apartamento que tinham comprado juntos. Berenice estava prestes a se aposentar e o marido ainda teria que trabalhar mais uns cinco anos para poder se beneficiar do dinheiro do governo. Enquanto isso, resolveram vender a casa onde moravam para comprar um novo espaço onde poderiam ter um pouco mais de privacidade e sossego quando os dias brandos da terceira idade acercassem os dois.
Aquela noite estava quente. Berenice não quis alongar muito o papo com o marido, pois sabia que no outro dia teria que enfrentar novamente o agente. Preferiu deitar e tentar esquecer o assunto do apartamento. O marido permaneceu na sala, assistindo a um filme policial que logo acabaria. Havia perdido um terço da história conversando com a mulher na cozinha, mas logo entreteu-se novamente com os carros explodindo na televisão. Quando acordou, uma mulher sensual na tv, tirava parte da roupa em um piscina de águas bem azuis. Os olhos pesados do homem rapidamente correram sobre a sala vazia e deveras silenciosa.
Levantou-se, calçou os chinelos de pêlo e desligando a tv ouviu a respiração forte da mulher no quarto. Berenice sempre roncava quando tinha dormido ansiosa. O terço de madeira jogado na cama tornou-se uma arma caso a mulher se debruçasse sobre ele.
Serenamente, o marido tirou o acessório das mãos da esposa e o colocou na cômoda ao lado. Beijou sua testa e ela abriu os olhos assustada.
-Acalme-se, disse ele. Você dormiu rezando novamente. Boa noite.
Com um sorriso pequeno, Berenice fechou os olhos e só acordou no outro dia, com o telefone tocando insistentemente na sala.
Correndo, pisou no chão frio e fechou os olhos com os raios de sol que invadiam o lugar.
-Alô?
-Senhora Berenice, tenho novidades.
Berenice ouvia atentamente a voz rouca do vendedor do outro lado da linha, este que cuidava do caso de seu apartamento e que tinha prometido que no início do ano, as chaves estariam nas mãos do casal.
O marido ainda deitado, ouvia as respostas monossilábicas da esposa vindas da sala. Quando ela 'conversava' usando aquelas expressões, era sinal de que não estava acreditando no que o seu locutor estava tentando convencer-lhe.
-Obrigada, vou pensar e te retorno. E desligou.
Foi até a cozinha e acendeu o fogo para esquentar água. Gostava de café preparado no coador. Ouviu a voz do marido desejando-lhe 'bom dia' encostado na porta e com um sorriso fraco, respondeu o cumprimento.
-Quem era?
- O Jorge! Veio com outras lorotas...
Enquanto colocava água quente no coador de papel, explicou que outros problemas iriam afetar ainda mais a entrega do apartamento e que Jorge, o vendedor, tinha apresentado uma nova opção para o casal que queria um vida 'confortável e tranquila'.
Ao invéns do apartamento, Jorge queria vender-lhes uma antiga casa num local afastado da cidade.

Parte II

Antes ainda de sair para trabalhar, Berenice ligou para a irmã para saber como estava a mãe. A demência fraca que a atacara há uns dois anos, fazia com que a velha ficasse quieta e singelamente sorridente enquanto assistia aos demais com seus afazeres de casa.
-Está na mesma Berê, hoje ainda até que comeu um pouco, disse a irmã pelo telefone.
-Pois bem, talvez eu ainda passe aí lá pelas oito. Vou ver uma casa que me foi oferecida em troca do apartamento.
Desde o início, Berenice e o marido entraram em comum acordo que, morar em uma casa era a decisão mais sã a se tomar tratando-se do descanso que gostariam de ter dali para frente. Escadas, elevadores, vizinhos próximos e barulhentos eram os percalços negativos que morar em um apartamento traria, caso decidissem por isso, mas os preços para se ter uma nova casa eram bem maiores comparados a um apartamento mediano que poderia aconchegar bem o velho casal. Agora, com essa notícia de uma possível casa fora dos entornos da cidade, o desejo em obter um imóvel só para eles estava prestes a se realizar.
Os dois saíram juntos e a mulher foi dirigindo. Sempre, quando entravam no carro, Berenice questionava a passividade do marido. Em famílias tradicionais e socialmente corretas, é o marido que toma as decisões de grandes mudanças, escolhe a cor da casa e consequentemente dirige o automóvel num eventual festejo em família. Ali não. Ela sempre fora o alicerce da casa, tomando as decisões que, numa sociedade machista, eram designadas ao sexo masculino.
O homem é um bom marido. Trabalha com vendas imobiliárias, mas nunca chegou a ter uma carreira, com promoções e altos cargos. Tivera um ou dois empregos na vida e neste terceiro está até hoje, porém naquele dia, decidiu não ir ao trabalho para acompanhar a esposa na escolha daquela casa que talvez seria em breve seu novo lar.
-Como é a casa?
-Não sei. Jorge apenas adiantou que era grande e isso me preocupa um pouco.
As preocupações de Berenice eram muitas. Grandes casas, além do trabalho para limpar, manter a ordem e segurança seriam outros desafios. Sabia que para pequenos ajustes podia contar com o marido, mas como ambos trabalham fora, cogitou em pensamento ter uma empregada para lavar as roupas e preparar a comida. Casas em geral, chamam mais a atenção do que apartamentos. Embora houvesse na cidade um surto de arrastões em condomínios, o índice de invasores em residências era ainda maior. Percebeu que estava fazendo planos como se já tivesse aceito ficar com a nova oferta do vendedor.
Comentou com o marido, que não se lembrava de dizer à Jorge que seu real desejo era mesmo ter uma casa. Seu pensamento foi dando-lhe asas ao pensar que, essa casa poderia um dia ser alugada e eles poderiam viver em outro lugar, com o que ganhariam dali e de suas aposentadorias.
- Qual é a rua?
- Não é rua, é uma avenida. Respondeu o marido com o guia nas mãos. Avenida Anuás
Berenice dirigia por ruas com pequenos sobrados. A maioria deles com placas de venda ou prontas para alugar. Lembrou-se que Jorge falou bem da vizinhança e arredores, e realmente aquela rua era visivelmente bem cuidada, porém um tanto deserta.
-É para entrar por um beco, que dá de frente pra casa, disse Berenice enquanto passou por uma lombada.
-Ali, apontou o marido. Deve ser ali, com o indicador direito apontava para um beco murado por duas grandes casas.
Berenice estranhou o acesso à uma avenida ser feito por um beco. Avenidas geralmente são repletas de comércios, pontos de ônibus e pessoas. Fez meia volta e apontou o carro em direção àquele caminho que mais parecia um túnel no meio da cidade. Logo que adentrou o veículo, avistou um enorme sobrado que parecia ter sido construído simetricamente no fim daquele extenso beco que dava acesso à Avenida Anuás.
-Será que é aquela casa?
Teve certeza quando viu Jorge acenar ao longe, pequeno e franzino que era, ao lado daquele enorme casarão.

Parte III

Era enorme. Até sótão tinha.
- Deviam usar para guardar coisas velhas, disse Jorge.
Berenice havia gostado, mas suas preocupações com tamanho agora tornaram-se concretas quando caminhou entre os dois andares da casa e até perdeu-se do marido entre o quarto de hóspedes e o dormitório principal no segundo andar. 
A cozinha era mediana, no estilo antigo de construções não era tão grande. Embora não houvesse um fogão a lenha, havia uma estrutura no canto que pareceu ser reformada recentemente pela família que viveu ali.
A porta principal da casa revelava um corredor com dois espelhos do estilo penteadeira, um em frente ao outro. Só no fim estava a sala, com duas janelas que davam para a varanda dos fundos em um desenho oval. Era como se a casa tivesse sido construída após àquele corredor, que tinha o chão todo forrado por madeira maciça e as paredes com um papel de parede cor ocre. O acesso ao segundo andar dava-se por uma escada íngreme, com doze degraus. O corrimão também era de madeira e precisava de uma mão de tinta. Na parte superior, dois quartos, um banheiro em cada um deles. Uma área vazia, que ficava exatamente acima do corredor principal da casa, chamou a atenção do casal.
Jorge contou-lhes que a casa pertenceu a uma familia rica no início do século XX. Os Martin vieram de Sevilha, na Espanha e construíram o casarão para morar com os oito filhos. A casa não abrigou-os durante muito tempo e foi vendida após a morte do patrono Odilon Martin, quando sua família resolveu voltar à sua terra natal. Ficou abandonada quase trinta anos e depois fora novamente vendida para uma família do sul do Brasil.
- Eles nem chegaram a morar aqui, apenas compraram o imóvel e deixaram-o às moscas., explicou Jorge.
O marido de Berenice havia gostado do lugar, mas não palpitou muito sobre ficarem com a casa, pois achou estranho aquele grande descampado dar lugar apenas à uma estrutura daquele tamanho e, ao mesmo tempo, teve certo receio de morar em um lugar um tanto afastado da cidade.
Na verdade, o que separava o casarão da cidade, era o beco. A impressão era de que a casa fora construída exatamente no centro daquele círculo fechado com quadras de gramado. O chão era árido, sem cor. Não tinha grama verde e só depois de algumas quadras, dava para notar as primeiras residências.
Após a visita informal, o vendedor informou que o valor bruto daquela casa chegaria à cem mil reais. Que o tempo de abandono e o local afastado desfavoreciam o valor. Jorge ofereceu-lhes a casa em uma pechincha e disse que poderiam ficar muito bem ali, caso fosse sossego o que procuravam.
- Você é um charlatão Jorge, disse Berenice em tom de chacota. Conseguiu me convencer a morar novamente numa casa.
Todos riram e entenderam que a casa estava finalmente vendida.

O processo de mudança não fora tão fácil. As escrituras precisaram ser revistas com cautela antes que Berenice e o marido pudessem se mudar para o novo endereço. Ainda restavam oito anos para que o preço do apartamento fosse totalmente quitado e o acordo para a compra da nova casa foi mantido com o mesmo valor.
Há uma semana antes de se mudarem, a irmã de Berenice ligou dizendo que a mãe havia tido um surto durante a noite.
- Ela acordou e ficou chamando por você Berê.
- Será que foi o remédio?
- Pode ser, naquela noite disse que você estava novamente tramando das suas e custou a dormir de novo, disse a irmã. Levei um susto com ela sentada na cama na madrugada!
A mãe de Berenice sempre foi uma mulher muito sozinha. O pai faleceu logo que mudaram-se para a capital e ela teve que cuidar das duas filhas. Aos quarenta e seis anos teve um derrame e ficou com algumas sequelas. A velha consegue andar, mas com dificuldade e ora ou outra retira da mente alguma memória antiga e trata aquele pensamento como se estivesse acontecendo nos dias de hoje.
Em um dos surtos, a velha levantou à noite, arrumou-se e saiu de casa. Foi encontrada num terreno baldio, a quatro quarteirões de casa, sentada na porta de uma padaria fechada, às sete da manhã. Alegou ter ido trabalhar no campo, mas perdeu-se no caminho. Berenice foi buscá-la após um vizinho reconhecer e ligar para que alguém a ajudasse. Descobriram desde então, que a mãe estava com lapsos na memória e precisaria de cuidados especiais.
As irmãs revesam nos cuidados com a mãe. Berenice cuida no período de um ano e a irmã em outro. Recentemente a mãe estava com a irmã há quase quatro anos. Tinha se acostumado bem naquela casa térrea e até cuidava das samambaias da filha mais nova enquanto esta estava no trabalho. A mãe não ficava sozinha. Uma moça de nome Juliana, cuidava dela e ganhava por isso.
Num acordo amigável, as irmãs concordavam que a mãe só iria para casa de Berê quando quisesse. Caso contrário, ficaria com a caçula até quando pudesse.
Berenice como primogênita, ainda mantinha essa conduta de também cuidar da irmã, sempre comprando comida e roupas. Professora quase aposentada, mantinha em si uma postura maternal com a própria mãe e consequentemente com a irmã.
No dia da mudança, Berenice contratou uma empresa para cuidar dos móveis. O marido não pode acompanhar todo o processo naquele dia, pois estava prestes a fechar uma grande venda a um de seus clientes. A irmã foi acompanhar a mudança e até conseguiu se divertir no meio daquela bagunça com Berenice. As duas rememoraram juntas a primeira grande mudança que fizeram com os pais, em sessenta e três. Brincavam entre os móveis acumulados no canto da sala daquela casa que fora dos pais. A mãe, na época, brigava com as meninas por elas correrem entre os quadros e as mobílias ainda não posicionadas na nova casa. O pai, sempre muito sério, apenas dava ordem aos carregadores para que tomassem o máximo cuidado com as cômodas e espelhos.
- Fico feliz por você Berê
- Eu também. Estou me dando uma oportunidade de tentar uma vida mais calma.
Ainda faltava os móveis do quarto, que seriam entregues após uma semana. A cama era grande demais e foi preciso desmontá-la para que pudesse ser levada.
Ao levar uma cadeira para a sala de estar, a irmã de Berenice percebeu que o chão do corredor principal estava molhado nos cantos. Mostrou à irmã e perceberam que havia uma infiltração naquelas paredes escuras.
- Era só o que me faltava, disse Berenice. Vou ligar para o Jorge.
E quando pegou o telefone, percebeu que haviam quatro ligações perdidas da casa da irmã. 
- Nossa, acho que Juliana quer falar com a gente.
Ao ligar novamente, a ajudante atendeu.
- Oi Berê, aqui é a Juliana, babá da sua mãe. Pode falar?
- Aconteceu alguma coisa?
- Não. Na verdade sim, mas nada demais. É sua mãe...
Tapando o bocal do telefone, Berenice gesticulou para a irmã que a mãe parecia estar dando trabalho. Instigou Juliana a contar o que houve e ficou confusa com a voz suave da moça do outro lado da linha:
- Sua mãe disse que quer ir morar com você agora.

Parte IV


- Pronto, pronto, disse Berenice empurrando a cadeira de rodas da mãe. Agora está em nossa nova casa.
A velha olhou para os arredores do casarão e não articulou sequer uma palavra. A sala mostrava-se aconchegante, com pequenos raios de sol invadindo as janelas e o sofá velho que viera da casa velha, ocupando o centro.
Tinha marcado a mudança para sábado, pois poderia arrumar os demais cômodos durante os outros dias, visto que tinha tirado uma semana de folga na escola onde dava aulas. O marido chegaria depois das três da tarde e já sabia que a sogra iria novamente ficar hospedada com ele e a esposa. Não concordou prontamente quando Berenice resolveu trazer a velha logo nos primeiros dias na nova casa, mas achou melhor que os ares de uma nova vida pudessem também ajudá-los a recuperar qualquer lembrança boa em sua nova anfitriã. Mudanças de ares sempre são positivas, quando o cotidiano demora para responder.
A irmã de Berê ajudou trazendo as poucas roupas da velha. Grandes vestidos floridos, calções íntimos e bermudas largas. A mãe não gostava de roupas que lhe apertassem o busto.
No almoço, as três reuniram-se em volta da mesa e convidaram também Juliana, para conhecer o seu novo destino de trabalho. A moça magra, com aparência cansada, sempre foi muito atenciosa com a idosa. O caminho para o casarão não seria tão simples. A empregada teria que pegar duas conduções a mais para chegar à nova casa e Berenice marcou o almoço para acertar com a moça se ela continuaria ou não cuidando da mãe.
Juliana topou, mas por um período curto de experiência, afinal a senhorinha já tinha se acostumado com a sua imagem e com o modo com que ela tratava suas roupas.
A noite foi caindo. Berenice se deu conta de que não haviam postes de iluminação nos arredores de sua casa. Olhando pela janela da frente, percebeu um feixe laranja de luz que revelava apenas o beco que dava para o grande quintal da casa.
- Nem tinha percebido isso. Olha o breu que ficou isso aqui, resmungou para o marido que arrumava alguns sapatos velhos embaixo da escada.
- Jorge deveria ter falado que não tinha iluminação pública por aqui, retrucou o marido indo também à janela observar a escuridão ao redor da casa. Nossa... que escuridão, reclamou.
Berenice tentou não pensar de maneira negativa no assunto. Talvez, pelo tempo que a casa ficou desabitada, a prefeitura optou por não iluminar seus arredores para não chamar tanto a atenção. Propositalmente, seria esse o motivo para que nenhuma família desabrigada tomasse posse do lugar.
-A mocinha vai dormir aqui hoje? perguntou o marido.
- Vai
Sob uma luz fraca do abajur, Juliana arrumava a velha na cama. O segundo andar ainda estava semivazio e ambas ficariam num quarto pequeno próximo à cozinha no andar térreo, para que não precisassem subir ou descer escadas. A família que morou na casa, usava o quarto para receber hóspedes,  amigos ou parentes mais próximos. Depois, o quartinho ficou desabitado, servindo como um quarto de costura ou para guardar mantimentos.
Antes de subir para dormir, Berenice passou no quarto onde estava a mãe acompanhada de Juliana e desejou boas-noites. A moça acenou e viu a cabeça da velha virar para olhar a filha, mas sem nada dizer. No dia seguinte, passariam o domingo em casa, com a promessa de um belo almoço feito por Berenice e Juliana.
Já no quarto, o marido de Berenice lia um jornal antigo que encontrou embaixo das escadas. A mulher, ainda ajeitando alguns pertences no guarda-roupa, viu aquele papel velho nas mãos do marido e questionou o que era.
- Achei aqui em casa. É um jornal antigo.
- Deixa ver, disse a esposa colocando os óculos.
A manchete estampava conflitos acentuados com a questão do café no Brasil. Setores agrícolas manifestavam-se contra o governo da época e a imprensa sofria com a censura, sem poder denunciar mandantes e golpistas do governo. A imagem de um homem segurando uma bandeira confundia-se com as letras minúsculas da reportagem. Ambos agora estavam entretidos com aquele calhamaço sujo e, ao que tudo indicava, era um jornal de esquerda. Berenice logo deu de ombros e foi colocar outra roupa para dormir. Ao apagar a luz do corredor, teve a sensação de ver alguém em pé no primeiro degrau da escada. Olhou fixamente para o cômodo abaixo de seu quarto e seus olhos desenharam na escuridão o que poderia ser o ombro de um homem em pé. Acendeu a luz que pouco clareou os degraus e lá embaixo, continuou vendo aquele semblante encarando-a. Berenice apertou os olhos e chamou por Juliana. A moça respondeu do quarto, perguntando se ela precisava de alguma coisa.
- Não, só para desejar boa noite.
Percebeu que Juliana tinha acendido a luz e vinha até a escada, onde parecia que alguém a observava há pouco.
- Precisa de alguma coisa Berenice? E seu rosto se iluminou com a luz da sala.
- Não Juliana, não precisava ter levantado.
Juliana abaixou a cabeça e apagou novamente a luz da sala. Agora Berenice não viu mais nada.
Foi se deitar ao lado do marido, que já dormia pesadamente.

Continua...

domingo, 8 de julho de 2012

O quarto de Camila

"Essa história é verídica. Os fatos nela narrados aconteceram comigo e eu ainda tenho pretensões de voltar ao quarto, gravar algumas imagens em vídeo e tirar fotografias. O que me falta é coragem."

Conto em 1ª Pessoa
Parte I

No dia em que escrevi esta crônica, tive algumas revelações que me deixaram ainda mais curioso e confuso.
Numa noite de pizzas, fui convidado por um bando de mulheres amigas para jogar conversas fora e dançar no Wii. A festinha foi marcada numa sexta-feira, na casa de Camila, uma das minhas conhecidas que estava ansiosa para mostrar seu closet recheado de roupas e sapatos, além do seu quarto de dormir, com uma cama de chão e flores no papel de parede.
Chegamos, levando alegria uns aos outros, comemorando um final de semana que ainda nem havia chegado. A companhia das meninas me agrada muito e quando estamos juntos, esquecemos de nossas preocupações. São amigas há tempos e sempre que podemos, nos juntamos para brindar um suco, uma cerveja ou uma vodka, celebrando a saúde, jovialidade e o sexo, já não tão constante em nossas vidas quanto antes.
Neste dia, estávamos em sete pessoas. Conversávamos sobre trabalho, vida e muitas risadas enchiam a sala da casa. Camila mora numa casa aconchegante e alta. Por morar em rua de ladeira, o casa fica no alto, com uma escada de vinte e três degraus para chegar até a sala.
Da frente da casa, notam-se duas janelas, uma simetricamente perfeita acima da outra. A primeira janela, de vidro temperado e sem cortinas, revela a sala. Na janela de cima, o quarto que fora dos pais, hoje sem ninguém é fechada por vigas de aço.
Antes de as pizzas chegarem, Camila chamou-me para subir e ver o closet de roupas e também para ver como estava o andar superior da casa após a reforma que havia lhe custado caro. Estava animada com os resultados e logo subimos aos risinhos e gracejos para ver seu novo ninho.
Mostrou-me o embutido todo trabalhado em madeira envernizada, com cheiro de novo. As roupas organizadas davam um ar sofisticado ao desenho do móvel. Sapatos de várias cores, vestidos e toalhas dobradas como num hotel de luxo. O chão amadeirado, aquecia o local, tornando-o ainda mais aconchegante. O quarto com uma enorme cama, forrada com um lençol branco e uma grande televisão. Ela estava feliz com seu relacionamento que dava ares de casamento. Com tudo novo.
A escada ficava bem no meio do corredor entre o closet e o quarto dos pais. Uma porta agora separava um do outro.
Antes de descer, perguntei do quarto fechado por outra porta, bem em nossa frente, que era exatamente o quarto que durante anos abrigou os pais de Camila.
- Ah, aqui é o quarto dos meus pais, Dani, ela disse.
Eu sabia e já havia entrado ali, mas naquele dia, quis entrar novamente e rever o quarto semi vazio. Ela abriu, entrei ainda comentando sobre as novidades amadeiradas de fora e logo parei. 
Ao entrar, senti uma sensação estranha. Vi o pequeno banheiro de cor marrom, a cama de casal também forrada, essa com um lençol de babados, um crucifixo pendurado sobre a cama, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida ao lado e um rack, vazio.
A sensação foi de peso nos olhos. Confesso que, já havia sentido essa estranha impressão de peso nas pálpebras em outras ocasiões e lugares, mas nesse dia, remeti esse estranhamento a um 'ar pesado' dentro daquele quarto.
- Nossa Camila, senti um ar pesado aqui, disse.
Ela estranhou e me perguntou se, esse 'ar' era bom ou ruim. Disse não saber, e não sei até hoje. Desconhecia, mas avancei para dentro do quarto, ainda escuro e a sensação intensificou-se. Ela riu de maneira acanhada e eu saí do quarto rindo também, mas para não deixá-la apreensiva.
Lá embaixo, as demais pessoas riam e conversavam sobre outras coisas.
Camila olhou para uma das meninas e disse que 'o Dani sentiu algo estranho no quarto dos pais'. Confirmei e a amiga disse que eu 'já ia começar' com minhas assombrações.
A pizza chegou. O assunto foi momentaneamente esquecido e nos entretemos com outras risadas e histórias. Até que, Camila perguntou para uma das amigas:
- Conto pra ele?
A amiga deu de ombros e respondeu:
- Você que sabe.

Parte II

Silêncio. Todos entreolharam-se e eu explodi:
- Ah, agora vai ter que contar!
Camila largou o pedaço de pizza e pegou o copo com Coca. Enquanto tomava um gole, contou que a irmã mais velha, hoje casada, deu uma festa na casa para amigos, há uns dez anos. Os pais haviam viajado e ela aproveitou para reunir os mais conhecidos e beber ao som de música alta.
Um amigo, que era Pai de Santo, não foi convidado, mas mesmo assim foi até a casa. Proibido de entrar, esbravejou e rogou pragas aos festejos. Tentaram acalmá-lo, dizendo que não era necessário aquele circo todo. Já que fazia tanta questão, deixaram-no entrar. Podia entrar e beber também, dado a desculpa de que não o acharam antes para fazer o convite. Uma briga passada seria o motivo para não tê-lo convidado, mas esse fator não fora mencionado.
O homem negou e disse que não queria entrar naquela casa amaldiçoada. Foi embora desejando que a festa tivesse seu ar desagradável. 
Camila continuou contando, que tarde da noite, um casalzinho que se atracava no sofá, resolveu subir para o quarto dos pais e ficarem sozinhos lá durante um tempo. E foram.
Conta-se que, após trinta ou quarenta minutos, a moça no quarto, começou a gritar pedindo ajuda e implorando por socorro.
Os mais sóbrios subiram e viram-na encostada na parede ao lado da cama, com a cabeça coberta pelos braços, enquanto o namorado revirava os olhos na cama e pendia os braços para trás. A voz que saía do moço era rouca e ameaçadora, com palavras indecifráveis. 
Camila nessa época era adolescente e achou tudo engraçado. Só percebeu a seriedade da situação quando a irmã a trancou em seu quarto, hoje mobiliado com cama de chão e flores na parede.
Ficaram lá e só depois do fim da algazarra, Camila foi saber que uma outra participante da festa, chamada Andréa, também foi ao socorro do casal e começou a praguejar e revirar os olhos assim como o rapaz fazia há pouco, deitado na cama. Ela era loira, de cabelos compridos, e ao tentar ajudar os jovens, sentiu um forte impacto e sentou-se repentinamente na cama dizendo obscenidades em um tom gutural.
Todos assustaram-se e correram para o andar de baixo dizendo que Andréa agora estava possessa, dominada por uma força maior. Antes de tomarem qualquer decisão, lembraram-se que, os pais dela eram frequentadores de uma capela do Sagrado Coração desde a sua fundação. Rezavam o terço e cantavam nas missas e talvez poderiam intervir nessa força oculta, que agora parecia ter-se apoderado da filha deles. Ligaram imediatamente e esperavam ansiosos.
Andréa ficou sozinha no quarto. Ora ou outra urrava como um animal e soltava palavras chulas.
Esbravejava, mas não levantava dos pés da cama. Os braços pendiam sobre as pernas e a cabeça dava trancos repetidos para o lado esquerdo com violência.
O casal agora estava na sala, embaraçados com o acontecido. O moço dizia não lembrar de muita coisa, só de estar olhando para o teto do quarto e ter visto um crucifixo na parede, depois acordara no chão com as pessoas ao seu lado. Viu Andréa contorcer-se e parecer ser jogada na cama, virando o tronco para frente, parando finalmente sentada. Confuso, foi levado para baixo enquanto a dona da festa e os mais conhecidos de Andréa tentavam inutilmente alguma comunicação verbal com ela. Foi quando as palavras foram cuspidas no ar e todos, amedontrados, desceram, a fim de não despertar o que quer que fosse em Andréa.
Então emudeceu. Os gritos cessaram assim que ela foi deixada sozinha no quarto escuro, ainda na cama, imóvel.
Camila ouviu de seu quarto fechado, os urros de Andréa no fim do corredor, mas não ousava sair. Percebeu quando os gritos cessaram e logo jurou ouvir passos de alguém no corredor. Assustada, encolheu-se na beliche de cima e ali ficou.
Os pais de Andréa chegaram, confusos e munidos de uma bíblia e um terço da ordem bizantina.
Em seu silêncio, Camila perguntou-se o que estava acontecendo e se Andréa não estava brincando com todos e não se deu conta de que apenas ela e Andréa estavam no segundo andar da casa. Ouviu a voz do pai da loira subindo as escadas. A mãe chamou a filha de longe e os urros recomeçaram.
Uma porta bateu forte, abafando os gritos. Era a porta do quarto dos pais que batera com violência. Camila, de bruços na cama, com os ouvidos próximos à parede, ouviu ao longe a voz rouca dizer:
- Quem chamou vocês aqui?

Parte III

Camila contou que estava apavorada e com vontade de chorar. Os gritos que haviam parado, retomaram com mais força. Andréa agora falava palavrões contra seus pais e dizia que algo como 'não vou devolver, não vou devolver...'
Todos os demais estavam na parte de baixo da casa, alguns ouvindo o show de horrores da sala, outros na rua, falando na calçada. Camila ouvia do quarto apenas algumas palavras das pessoas lá embaixo.
Silêncio novamente. As vozes agora também ficaram quietas e dava para ouvir apenas o ruído do estrato da cama dos pais. Era como se alguém andasse sobre o colchão.
Parece que tudo parou, que todos foram embora e a deixaram sozinha no quarto.
Aquilo que entrou em Andréa poderia entrar nela também e imaginou ser um mal invisível, algo das trevas, ruim.
Levantou a cabeça e tentou ouvir algo. O ruído do estrato também parou, mas não ouvira quando. Aquela quietude a preocupava. Tudo parecia ter desaparecido.
Após alguns minutos ainda deitada, resolveu levantar e abrir a porta. Suas pernas cambaleavam quando sentiu o chão. Próxima à porta, olhou primeiro pela fechadura que dava de frente para o quarto onde estava Andréa e os pais. Olhando, viu que a porta do quarto ainda estava fechada. Lembrou-se que, da janela do seu quarto, dava para ver a churrasqueira, onde há pouco estavam os amigos da irmã. Lentamente, abriu a janela e viu a varanda vazia. Estava acesa, com carne na brasa e o chão com marcas de pés. Ninguém.
Estava aflita. Não sabia se chamava alguém, se abria a porta ou se ficava ali esperando alguém se lembrar dela no quarto.
Batidas na porta.
- Cá! Pode sair... disse a irmã
Após uns segundos de silêncio amedrontador, Camila perguntou:
- Tá tudo bem aí fora?
- Sim, só algumas pessoas que não sabem beber.
Camila abriu a porta e viu a irmã com o rosto inchado. Parecia ter chorado muito, mas tentou desconversar com um sorriso fraco no rosto.
- Vamos dormir na vó. Amanhã a gente limpa aqui.
Sem hesitar, Camila pegou suas roupas de cama e embrulhou num lençol que há pouco estava embaixo dela. Quando saiu do quarto, viu que o quarto dos pais estava aberto e vazio. A cama revirada e as janelas fechadas. Sentiu um leve arrepio no braço esquerdo enquanto descia a escada que dava na sala, onde seu avô a esperava.
A casa estava vazia, a não ser por ela, a irmã e agora o avô, que as levaria para dormir em sua casa. Não conseguia tirar dos pensamentos os gritos de Andréa e ainda mais como saíram do quarto dos pais sem que ela percebesse ou ouvisse passos ou vozes. Simplesmente, as vozes e as pessoas saíram da casa de maneira muito silenciosa ou desapareceram.
No outro dia, ao voltar com a avó e a irmã, Camila olhou para a casa e teve medo de entrar. Questionou-se realmente se aquele ataque que atingiu duas pessoas  um dia antes, fora mesmo resultado de bebedeira, dúvida que a fez dormir e acordar de meia em meia hora. Pelo pouco que conhecia Andréa, não imaginava que ela faria isso a ponto de terem de chamar os pais para acalmá-la.
A avó veio junto ajudar na limpeza, visto que os pais de Camila voltariam no dia seguinte.
A casa estava uma desordem, com garrafas, espetos de madeira e copos de plástico por todo lado. A vó pediu que Camila e a irmã fossem limpar a cozinha e que lá em cima, como pouca gente tinha subido, ela mesma limparia.
A irmã estava muda, com um tom sério e visivelmente abalada com o fato da noite anterior e então resolveu não perguntar nada. Ouviu os passos da vó no andar superior, mas tentou se concentrar em recolher copinhos sujos da varanda.
Uma porta bateu forte lá em cima e logo ouviu-se um grito rápido de susto.
Camila paralisou-se. A irmã recomeçando a chorar gritou e chamou pela vó.
A porta de cima foi logo aberta e a voz da velha soou lá pela escada:
- Tudo bem meninas, foi só o vento que fechou a porta e eu me assustei.
Nem assim as duas relaxaram. A irmã largou o que estava fazendo e sentou-se no sofá, chorando e dizendo que queria sair dali. Camila foi consolar a irmã na sala, quando viu a vó descendo com um saco de lixo em uma mão e o abajur dos pais na outra.
- Camila, pegue esse saco e coloque lá no fundo.
- O abajur quebrou?
- Vai fazer o que estou pedindo
Camila estava com medo de andar pela casa, simplesmente de cruzar a cozinha. Jogou rapidamente o saco nos fundos e voltou para a sala. Mais tarde ela descobriria que o abajur infravermelho que o pai tanto estimava não tinha quebrado e sim, explodido.

Parte IV

Eu estava atônito. Não sabia se, me assustava com a história ou se me sentia feliz por ser um desses médiuns sensitivos que têm a capacidade de conversar e/ou enxergar espíritos caminhando entre os vivos. Não consegui distinguir se aquela energia que sentira há pouco no quarto dos pais de Camila era boa ou ruim, mesmo sendo questionado por todas as pessoas quando narro esse fato.
O clima de alegria daquela noite de pizzas estava por ora estacionado. Todos na sala agora prestavam atenção em Camila que, sem tantas delongas, deixou todos com medo até de cruzar a escada para ir ao banheiro.
De outras histórias que ouvi, espíritos são energias de pessoas mortas que ficam em lugares que lhes foram muito familiar em vida. Porém, muitas vezes, eles aproveitam do medo das pessoas vivas para poderem se fortalecer até ter capacidade para mover algum móvel ou fazer-se sentir por um vento que passa, ou um ar frio que estaciona em determinado lugar. Aquela situação me parecia bem mais perigosa, pois o que se 'apossou' do rapaz e também de Andréa, parecia perturbar o corpo de tal maneira que, se não fossem tomadas providências imediatas, como uma oração ou um mini exorcismo, aquilo poderia ferir fisicamente alguém.
Uma das meninas do grupo estava extremamente incomodada com a história e quis ir embora.
- Não vim aqui para ficar com medo, ouvindo besteiras de fantasmas.
Logo, foi convencida a ficar com a condição de que pararíamos de tocar no assunto.
Fiquei mais curioso, com uma vontade imensa de subir novamente ao quarto, sentar na cama e ficar ali por um momento sentindo a vibração do lugar. Deram-me essa ideia, mas não tive coragem sequer de ir ao segundo andar após saber de sua fama.
Após uns vinte minutos, enquanto as meninas jogavam na sala, fui até a cozinha onde Camila lavava as louças. Estava sozinha e aproveitei para tentar tirar mais fatos dela.
- Estranho né meu!? Eu nunca tinha ouvido essa história e senti isso entrando lá. Fiquei encucado!
- Sim Dani, respondeu-me, mas nunca ouvi nada lá.
- E seus pais?
- Também não.
Segundo ela, na época, os vizinhos ouviram os gritos, porquê depois contaram aos pais. Embora soubessem da festa, não sabiam do acontecido e pelo que me parece, até hoje não sabem.
- O pai da Andrea te conta se você ir lá perguntar, mas não sei se é bom tocar nesse assunto, disse-me Camila enquanto ensaboava um prato.
Questionei novamente, como foi que resolveram o assunto. Pelo que consta, os pais entraram no quarto com Andréa ainda falando palavrões e tendo comportamentos estranhos, mas ninguém se lembra, além dos pais, como saíram de lá e qual era o estado de Andréa.
O fato aconteceu há mais de dez anos. Camila relembrava com facilidade daquela noite de setembro que ouviu uma loira bonita e alta dizer coisas horríveis intercalando com urros animalescos.
Fui embora da casa de Camila com barriga e cabeça cheia. Não consegui dormir direito pensando no quarto semi-vazio. A cama arrumada, o crucifixo, a cômoda e a imagem da santa. Não contei à ninguém da família sobre minha sensação naquele lugar. Já tinha sentido esse estranhamento em outros lugares, principalmente se eu soubesse previamente a história dali. Qualquer história que seja.
Um dia, senti esse estranho torpor numa casa velha que fora de uns tios meus, na vila que morei quando criança. Eles já tinham mudado de lá há um tempo e quando eu soube que a casa estava aberta, fui até lá para ver como esta seria vazia. Havia passado muitos momentos naquela casinha de três cômodos, cresci brincando ali, tomando chuva e dormindo naquele quarto. Quando entrei, vi as mesmas vidraças na janela, a mesma porta e a sala, tudo vazio. Foi aí que senti esse peso nos olhos e na cabeça, algo físico mesmo. Minhas pupilas reviram e na região da testa aparece uma pequena vertigem. Foi esse mesmo sentimento que me invadiu quando entrei no quarto que fora dos pais de Camila.
Na outra semana, na missa das oito, vi os pais de Andréa. Não sabia se perguntava sobre o que tinha acontecido naquele quarto e como puderam tirar a filha do transe. Conheço bem os pais dela, são personagens prontos para um boa história de horror: católicos, unidos em um casamento longo, humildes e sempre com um sorriso no rosto. O enredo? Uma filha possuída pelo mal.
Naquela noite de domingo, após terminar a celebração, ambos vieram me cumprimentar e perguntar como estava em minha nova moradia no centro da cidade. Ouviram dizer eu havia me mudado e vieram conversar. Eu disse estar bem, mas o fato do quarto não saía da minha cabeça e vendo-os novamente após saber da história, imaginava seus rostos simples, atordoados com a imagem retorcida da filha que não era sua filha naquela noite. Sorrateiramente, eu disse que tinha um assunto delicado para tratar com eles, mas não ali dentro da igreja. Ambos olharam-me com uma dúvida no rosto, mas visivelmente dispostos a responder qualquer coisa. Porém, jamais imaginavam que o assunto seria os gritos roucos que a filha dera há anos.
Fiquei com receio de não vê-los novamente tão cedo e resolvi perguntar ali mesmo, ante o sacramento e os anjos pintados na parede. Alguns amigos estavam comigo quando comecei a contar a história do cômodo.
A mãe ouvia-me com as mãos dentro da jaqueta de lã e o pai, com os braços cruzados. O sorriso singelo de ambos tinha desaparecido.
Resumindo os fatos, terminado a história, perguntei se tudo aquilo era verídico e me arrependi de toda minha curiosidade e audácia em tocar neste assunto, quando a mãe de Andrea começou repentinamente a chorar.

Parte 5 - Final

- Sim, foi isso que aconteceu. respondeu a mãe de Andréa, enxugando lágrimas dos olhos. Isso nos perturbou durante anos. Minha filha ouvia vozes pedindo para ela se matar. Não conseguia entrar em casa, cruzar os portões.
Ouvia abismado às constatações daquela senhora. Então era verdade, e de uma veracidade que tinha causado transtornos àquela família.
- Passamos por momentos muito difíceis, disse. Hoje graças à Deus, Andréa melhorou.
O pai calado, só confirmava com a cabeça as constatações da esposa. De braços cruzados, só repetia algumas palavras que ela dizia e tentava mostrar-se calmo com a conversa.
Era nítido que o fato realmente aconteceu e que algo de errado esteve naquele quarto na época da festa e de alguma maneira se manifestou em duas pessoas. Resta descobrir o que era.
Do lado de fora da igreja, enquanto nos despedíamos, não citei mais nada sobre a história do quarto substituindo o assunto por música sacra. O pai de Andréa é compositor e há anos canta na igreja ao lado da esposa e de seu violão. A igreja fôra trancada após a missa e conversávamos na calçada, com a rua iluminada apenas por uma luz fraca vinda do poste. A mãe já estava no carro aguardando o marido que animado, contava sobre suas composições musicais. 
Eram quase dez da noite. Enquanto ele falava, percebi uma bexiga em formato de coração cruzar o breu que se fazia na lateral da igreja, mas meu olhar logo voltou rosto animado do velho. O frio estava ficando denso e com uma leve finalização no papo, entrei no carro de uma amiga e nos distanciamos da igreja e dos pais de Andréa.
Dentro do carro comentei:
- Ela chorou, você viu?
- Vi, comentou a motorista. Estranho né! Deve ter algo naquele quarto. Credo.
Cada vez mais a história parecia uma incógnita para mim. O fato de eu ter entrado e sentido algo estranho no ar sem saber da história me parece de um assombro único. Algo está alojado no quarto, sobre a cama ou mesmo encostado no canto da parede.
Não consegui cruzar o quarto naquela noite de pizzas e desci com calafrios pelos cotovelos.
Na noite em que resolvi escrever este conto, sentei sobre minha mesa no quarto e iniciei as lembranças das noites de mistério. Escrevi até o quarto capítulo e quando estava escrevendo este último, resolvi deixá-lo para ser finalizado no outro dia.
Quando acordei, senti uma dor cortante no pescoço. Ao olhar no espelho, vi marcas como se fossem feitas por um gato com unhas bem afiadas na parte da frente e no lado esquerdo do pescoço, que estava todo arranhado, consequência de uma coceira abrupta que me deu durante a madrugada. Ao passar os dedos nas marcas, lembrei da sensação de uma unha quebrada percorrer meu pescoço suavizando a coceira, mas ao mesmo tempo abrindo um longo ferimento até próximo do peito. Na minha lembrança, as unhas eram minhas e tamanha era a coceira. Conferi meus dedos e as unahs não eram afiadas e só com uma força enorme eu faria aquelas marcas em meu próprio pescoço. Lembrei-me de alguns flashs que tive ao abrir rapidamente os olhos na madrugada, enquanto coçava bem abaixo do meu queixo. No sonho, estava deitado numa cama de casal com uma parede enorme atrás de mim. Era uma parede branca, com rachaduras pequenas e sem janela..
As marcas eram feitas de baixo para cima, começavam no fim do peito e acabavam no queixo.
Contando isso para alguns amigos do trabalho e mostrando as marcas, disseram que eu havia ficado impressionado com a história de fantasma e feito os arranhões no pescoço. Fora os mais engraçados que me perguntavam se eu não tinha dormido com um terceiro personagem da história.
De tardezinha, logo no começo da noite, vi que Camila tinha me ligado várias vezes no celular, mas não consegui atender. Em uma mensagem de texto, me disse que queria fazer mais uma noite de pizzas em sua casa e se eu estava afim de participar. No fim da mensagem, tentando me aliviar sobre quaisquer pensamentos ruins sobre o quarto, escreveu:
- Para te provar que não há nada lá, fiz uma limpeza no quarto e tirei o crucifixo da parede. E hoje mesmo vou passar a dormir lá.
O quarto passaria a ser seu, desde então.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Saudade de hoje e amanhã

Crescemos! Essa é a resposta. E a tristeza.
Dia desses, conversando com um conhecido do trabalho, tentávamos encontrar pistas para descobrir os motivos de nossas friezas atuais. Quando digo 'nossas', digo de grande parte das pessoas que cercam a grande cidade. Temos dificuldades de fortalecer amizades, de abraçar, beijar e ligar depois de um tempo. Em alguns segundos, no meio do papo, tentamos lembrar de amigos. Aqueles que temos vergonha de brigar. Que amamos e não conseguimos dizer. São poucos, são muitos. Não dá para classificar amigo do colega, conhecido do de vista. Tentei encontrar alguns motivos que nos afastam das pessoas, que nos impede de se achegar e ficar junto num momento.
Interesse move algumas proximidades, estreita os caminhos e passa a ser chave para uma possível aliança. Minimidades como um trocadilho. Lágrimas são raras. Nesse caso o sorriso passa a ser o de menor importância. Tem todo dia. Vivemos buscando emprego, beleza e outro parcial que nos aguente, mas esquecemos de classificar os amados amigos nessa relutância. Temos habilidades na fala, na escrita, nas relações sociais e perdemos o gosto das amizades cultivadas, de ter amigo por ter. Andamos por aí, viajando por países belos, mas sempre sozinhos. Imagens na rede, milhares de contatos e fontes para ergonomia, trabalho no campo e sauditas, mas não temos essência simples, de amor autruísta e beleza consciente. Somos tristes, tão tristes. Presos em commodities de prazer. Lençóis de melancolia.
Faz tempo que não vemos o mar, viajamos com nossos pais ou visitamos uma criança que nasceu. Não queremos filhos, não suportamos pessoas demais no apartamento. Queremos o quintal limpo, sem árvore. Quando a gente vê um amigo de bons momentos passados, logo se lembra, ri e deseja ser mais feliz. Faz nostalgia. Ficamos mendigando banhos quentes. Temos dor no ombro, na sola dos pés e estamos calvos, tudo resultado da distância bem próxima que cultivamos com nossos trabalhos paralelos.
Vemos que é importante depois que foi embora, que acabou e queremos de novo, mas não cultivamos o hoje. Parece que tudo que foi, tem gosto puritano. Hoje, sofremos, ontem sorrimos. E não.
Há sol hoje. Tem amor lá fora. Tem dor também, mas tem remédio.
Tempo para as letras, para o canto, passarinhos. Engordamos tanto que nosso corpo está feio. Emagrecemos na base de remédios e também ficamos feios. Passamos por cima, subimos nas costas e gozamos rápido. Eu que valho, o outro nem tanto.
Crescemos tanto e nos entristecemos sem motivo. Temos saudade e pouco apreço por um tempo que podemos fazer melhor e tão bonito.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Fossa Deslavada - Minhas trilhas para o Dia dos Namorados

Dia dos Namorados! Ou seria Dia de São Valentim? Não importa, o que importa é que hoje é um dia bonitinho, de felicitações alegres para quem tem um alguém para compartilhar sentimentos de respeito, amor e sexo, claro. Um dia também para quem quer ter um alguém.
Hoje pela manhã, ao chegar no trabalho, recebi um coração de papel do tipo Origami (vide foto ao lado) todo dobradinho, branco e cheio de amor. Está perto do Bob, em frente ao meu computador, para me relembrar este dia dos namoridos. Hoje, no auge dos meus 26 anos, tenho outras ideias sobre o amor. Há muita confusão quando se fala em amor, paixão, relacionamentos. Nestes anos já me apaixonei, chorei por paixão, ri muito e também vivi momentos de fossa e abraços de afago ao lado de diferentes pessoas. Sofri além da conta, mas também amei.
Acho que o Dia dos Namorados não é só para se comemorar com quem você beija na boca, mas com quem você ama também. Afinal, tenho muitos amigos e amigas que eu namoraria se não fosse por um simples motivo: somos amigos. A amizade é um namoro sem beijo na boca e sem sexo. (Ok, sexo pode ser), mas não é recomendável
Este coração de papel que eu ganhei no dia dos namorados me trouxe boas reflexões. Um coração branco, que quer amar e depois aprende que amar é uma arte, um saber, uma hermenêutica. Tem um processo para chegar até ele, um caminho árduo e que nem sempre se tem êxito. Um caminho platônico, mas se é platônico não é amor, é ilusão.
O amor é palpável, fruto e não semente. Duro de encontrar e jamais é achado. É conquistado.
Não acredito em amor à primeira vista, embora já tenha me apaixonado na primeira vez.
Chega de virgindade, vamos à prática.
Selecionei algumas músicas que me fizeram entender o que é se apaixonar. Algumas foram mais dolorosas, outras mais românticas, outras ainda felizes e que marcaram momento. Quando ouço lembro.
Tenho certeza que muita gente se identifica com algumas músicas daqui, mas cada um com seu coração branco de papel.

Legenda:
F - Fossa (estava sofrendo por uma paixão não correspondida)
P- Paixonado (quando eu estava apaixonado, sendo correspondido. Vendo pássaros)
S - Saí dessa (quando superei uma desilusão)

From The Bottom Of My Broken Heart - Britney Spears (P)

Bubbly - Colbie Caillat (P)

Like A Star - Corinne Bailey Rae (F)


Don't You Remember - Adele (F)

Natalie Imbruglia - Torn (S)

Broken Hearted Girl - Beyoncé (F)

Girl From The Gutter - Kina (S)


Breath Again - Tony Braxton (P)


The Power of Love - Celine Dion (S) Essa vai tocar no meu casamento


Sinéad O'Connor - Nothing Compares to You (F pura)

Norah Jones - Come Away With Me (P)


Só mulher!
E aqui dois textos que falo DE AMOR e FOSSA.
Feliz dia dos Namorados beibes!

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Nossa luta de cada dia - Bastidores da Parada Gay 2012

A Parada é para todos. O mundo é gay.
Isso soa como um belo clichê. E é mesmo, embora o conceito dessas frases possam ser revistos e contestados. Contextualizados também.
Quando digo que, a Parada LGBT (mais formal agora) é para todos, refiro-me a 'todos' que superaram o pré-conceito da sexualidade. O sexo é um tabu, sempre será, assim como a homossexualidade em si. Quem explica?
Quando ouve-se de longe, falar da parada gay sem nunca ter participado, aparece o preconceito. Mesmo sendo homem, mulher, gay, hétero ou bi. Tem gente que prefere não ir e 'falar mal'. Quem explica?
Confesso que ir à parada me custou. Mesmo com todas as minhas contestações e pudores, um dia fui, acompanhado de amigos. Estudava os participantes desde o trem que vinha do ABC colorindo-se até chegar no Brás. Via um menino com asinhas, meninas super maquiadas e quando chegava na Brigadeiro, já era todo purpurina.
O arco-íris é o símbolo gay e, na minha opinião, este arco de sete cores é uma das manifestações mais bonitas da natureza. Agrada muito machão que eu conheço. Porém, nem tudo é tão colorido assim como se vê na parada. A vida do homossexual é dupla, com duas correias que movem ou para o anonimato ou para a solidão. E na parada o contrário dessas correias são levadas à rua. À Av. Paulista.
Fui roubado na primeira vez, levaram minha carteira com todos os documentos e ainda me perdi dos amigos. Voltei sozinho pra casa e tive uma bela experiência desse mega evento (not). Isso não foi motivo para desistir da minha militância e procurar na parada um sentido feliz, uma luta escondida em vinho químico e gente se agarrando.
Nos outros anos, fui armado, atento para não ser roubado e com olhares atentos às cores dessa produção. E funcionou.
Consegui perceber na parada a alegria de estar ali, lutando, dançando, miltanto numa causa que é diária, cotidiana.
Nesta de 2012, mesmo trabalhando, conversava com uma travesti sobre a festa. Ela, do interior, trabalhava como professora e ainda não tinha conseguido na justiça ser reconhecida pelo nome de mulher. Disse que sempre vem à São Paulo na parada para se divertir, não para lutar por nada. 'Amanhã ninguém lembra disso aqui, a luta pelo preconceito é todo dia. Hoje eu quero me divertir' disse. E raciocinando sobre isso, pensei que é a verdade. É uma festa, mas que dá um start para essa luta nossa de cada dia.
Joguemo-nos!

sábado, 26 de maio de 2012

Quando (re)criei a história de DOIS FILHOS - Possíveis leituras da ausência

Quando (re)criei a história de DOIS FILHOS, pensei em primeiro plano, naquele que fica.
A narrativa da peça teatral partiu da parábola bíblica "Os dois filhos" (Lc, 15. 11-32) que conta a história de um jovem, o filho mais novo que pediu ao pai sua parte na herança e foi embora de casa, para viver sua vida sozinho.
Em todas as produções e releituras que foram feitas d'O filho pródigo, o foco narrativo, foi em cima do menino que partiu, desse mais novo como protagonista, do que ele fez fora de casa: gastando o dinheiro com roupas caras, perfumes, saindo com prostitutas e ficando pobre financeiramente.
Acompanhamos durante todo o tempo, um jovem que teve nas mãos sua parte da herança e que a gastou com bolhas coloridas da vida, belas que se apagam no ar.
Nesse percurso, o pai que o amava, respeitou sua decisão em sair e voar sozinho. O velho ficou em casa, na companhia do filho primogênito e dos empregados. Pouco se conta sobre esse pai, sobre essa família que continuou sobre os muros daquele casarão sertanejo. O que a bíblia recria é um pai com muitos empregados, que guardara dinheiro pensando no futuro de seus dois varões.
Partindo do princípio de, que toda essa história não tenha acontecido, que trata-se de uma parábola (um tipo de conto de fadas contada para ensinar valores da vida real) ela tem um fundamento profundo quando analisada pelas vertentes humanas, ou melhor, humanitárias.
Durante a ausência desse filho mais novo, ninguém cita como a sua família fica em casa, vendo-o partir com os bolsos cheios de dinheiro para uma vida incerta que aos olhos dele, do jovem, era o caminho de ouro.
Imaginemos: um pai, que mesmo duvidando da certeza de sucesso lá fora, deixa o menino seguir e perde totalmente a comunicação com ele. Do lado humano por parte do pai, podemos tirar várias vertentes: preocupação (a mínima delas), desespero, ausência, luto, depressão, angústia, insanidade, perda de valores, entre muitas outras.
Embora haja a fé, de que um dia esse filho volte, essa fé é abalada pelos dias que se passam. Pela cama vazia, jamais desfeita, pelas roupas murchas, pelo semblante do caçula no primogênito, a falta de notícias.
A construção da narrativa foi densa. Dois anos. Tive essa ideia em recriar os dias desse pai que não ouve mais a voz do filho ecoar pelas paredes do casarão, que não sabe onde ele está, com quem está e se está realmente vivo. A morte é a menor das preocupações. Todo esse imaginário, pode ser analisado e comparado à famílias que vivem com a dura realidade em ter alguém desaparecido. A meu ver, essa situação é pior do que a morte propriamente dita.
Na parábola, o filho volta e o mais espetacular nisso tudo é a atitude do pai. Ele aceita o menino em suas misérias. Além de ter gasto tudo, perdido a dignidade lá fora, o pai o aceita na condição do que nunca deixou ser: um filho. Esse é clímax. Porém, na narrativa da peça, o principal não é esse retorno, mas é mostrar onde um homem declina-se quando parte de si deixa de existir.
Fico muito feliz em ter conseguido escrever apenas uma ideia de como pode ter sido esse tempo de angústias, de ausência de um amado. Essa peça vai além de valores religiosos, de dogmas ou do cristianismo. Ela é viva, humana, digna de ser revivida sem nunca sequer ter acontecido de verdade. Outra fantástica recriação de uma situação invisível que torna-se concretamente visível.
Há diversas leituras possíveis para 'DOIS FILHOS' e mesmo nós do elenco, deliciamos-nos com os ensaios repletos de aberturas que essa narrativa pronta nos traz.
Espero que, quem tenha assistido a peça, possa concordar, discordar e trazer novos olhares dessas leituras tão complexas quando comparada ao amor de alguém que amamos e que não está mais assim tão perto. Aliás, quando comparada ao amor, simplesmente, inexplicável até sempre.

sábado, 12 de maio de 2012

Dois sozinhos


Era uma tarde quente de domingo. Dia sorrateiro, que antecede o branco da segunda, o filho viu pela primeira vez o pai chegar em casa sóbrio. Naquelas tantas, o homem já tinha bebido tanto a ponto de esquecer os nomes.
Sentado na cozinha, o filho olhava o arquétipo do magérrimo, com pele fina, porém sóbrio naquele dia.
Inveterado no vício, fora do convívio de pai e filho, ambos não sabiam como se tratar. Se pelo calor da frieza ou no gelo da tentativa de amparo. Eram dois homens testados em dores, mas que partilhavam de um mesmo brio. Uma imagem refletida num pai que não passava um dia sem se entregar ao álcool e um filho, que não passava um dia sem desejar outra vida.
Cumprimentaram-se com olhares e perguntas pequenas, conversa rápida, que não era conversa.
O pai evitava olhar o filho ainda mais quando estava sentado na cadeira da ponta da mesa. No trono dos mais vividos.
Inebriados pelo convívio doente, sabiam quais palavras usar. Sóbrios de si, não tinham coragem de se encarar. Tanto tempo que o homem via seu pai chegar em casa trançando as pernas e nada mudou, mesmo muita coisa mudando.
Começou refletir sobre o bruto martírio daquele homem. Nenhum sentimento de compaixão agora passava pelos seus sentimentos. Teve um dia, tal sentimento, mas agora desistiu. Foram tantas alegrias estragadas para chegar nesse êxito de esquecer quem por ora deu-o a vida, aquela vida.
Não sabia dizer se era grato por ter que viver com um carma de sangue, que bebia, achava-o feio, inferior aos demais do bairro. Questionou sua vida, de maneira rápida, questionou seus sucessos e sua cor de cabelo. Ninguém pediu nada disso, mas estamos prontos para reclamar.
O filho imaginou que o pai também tinha muitas azarias para destrinchar. Ambos tinham, mas para quê soltá-las? Por tempo, pode-se afirmar que as dores fazem parte do processo para as alegrias, mas assim como elas, vão e vem e nunca perduram por um dia inteiro. A mente muda pede o diferente e o inconstante.
Já estava sozinho na cozinha. O magro foi a outro cômodo da casa e o deixou ali, como sempre.
Para o pai sobrara o martírio de sofrer na escravatura de uma alegria exacerbada que hoje se tornou senhora. Teve vontade de convidar o pai, que hoje estava sóbrio, para passear, conversar sobre a vida e contar algumas alegrias que tinha no bolso.
Mesmo que fossem mudos, sem sentido, estariam juntos.
O dia era de sol, muito quente. No parque da cidade, andariam duas quadras e o filho poderia olhar para o rosto do pai, sorrindo envergonhado. Sol, muito sol.
O céu azul, sem nuvens e pai e filho andam no parque.