quinta-feira, 5 de julho de 2012

Saudade de hoje e amanhã

Crescemos! Essa é a resposta. E a tristeza.
Dia desses, conversando com um conhecido do trabalho, tentávamos encontrar pistas para descobrir os motivos de nossas friezas atuais. Quando digo 'nossas', digo de grande parte das pessoas que cercam a grande cidade. Temos dificuldades de fortalecer amizades, de abraçar, beijar e ligar depois de um tempo. Em alguns segundos, no meio do papo, tentamos lembrar de amigos. Aqueles que temos vergonha de brigar. Que amamos e não conseguimos dizer. São poucos, são muitos. Não dá para classificar amigo do colega, conhecido do de vista. Tentei encontrar alguns motivos que nos afastam das pessoas, que nos impede de se achegar e ficar junto num momento.
Interesse move algumas proximidades, estreita os caminhos e passa a ser chave para uma possível aliança. Minimidades como um trocadilho. Lágrimas são raras. Nesse caso o sorriso passa a ser o de menor importância. Tem todo dia. Vivemos buscando emprego, beleza e outro parcial que nos aguente, mas esquecemos de classificar os amados amigos nessa relutância. Temos habilidades na fala, na escrita, nas relações sociais e perdemos o gosto das amizades cultivadas, de ter amigo por ter. Andamos por aí, viajando por países belos, mas sempre sozinhos. Imagens na rede, milhares de contatos e fontes para ergonomia, trabalho no campo e sauditas, mas não temos essência simples, de amor autruísta e beleza consciente. Somos tristes, tão tristes. Presos em commodities de prazer. Lençóis de melancolia.
Faz tempo que não vemos o mar, viajamos com nossos pais ou visitamos uma criança que nasceu. Não queremos filhos, não suportamos pessoas demais no apartamento. Queremos o quintal limpo, sem árvore. Quando a gente vê um amigo de bons momentos passados, logo se lembra, ri e deseja ser mais feliz. Faz nostalgia. Ficamos mendigando banhos quentes. Temos dor no ombro, na sola dos pés e estamos calvos, tudo resultado da distância bem próxima que cultivamos com nossos trabalhos paralelos.
Vemos que é importante depois que foi embora, que acabou e queremos de novo, mas não cultivamos o hoje. Parece que tudo que foi, tem gosto puritano. Hoje, sofremos, ontem sorrimos. E não.
Há sol hoje. Tem amor lá fora. Tem dor também, mas tem remédio.
Tempo para as letras, para o canto, passarinhos. Engordamos tanto que nosso corpo está feio. Emagrecemos na base de remédios e também ficamos feios. Passamos por cima, subimos nas costas e gozamos rápido. Eu que valho, o outro nem tanto.
Crescemos tanto e nos entristecemos sem motivo. Temos saudade e pouco apreço por um tempo que podemos fazer melhor e tão bonito.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Fossa Deslavada - Minhas trilhas para o Dia dos Namorados

Dia dos Namorados! Ou seria Dia de São Valentim? Não importa, o que importa é que hoje é um dia bonitinho, de felicitações alegres para quem tem um alguém para compartilhar sentimentos de respeito, amor e sexo, claro. Um dia também para quem quer ter um alguém.
Hoje pela manhã, ao chegar no trabalho, recebi um coração de papel do tipo Origami (vide foto ao lado) todo dobradinho, branco e cheio de amor. Está perto do Bob, em frente ao meu computador, para me relembrar este dia dos namoridos. Hoje, no auge dos meus 26 anos, tenho outras ideias sobre o amor. Há muita confusão quando se fala em amor, paixão, relacionamentos. Nestes anos já me apaixonei, chorei por paixão, ri muito e também vivi momentos de fossa e abraços de afago ao lado de diferentes pessoas. Sofri além da conta, mas também amei.
Acho que o Dia dos Namorados não é só para se comemorar com quem você beija na boca, mas com quem você ama também. Afinal, tenho muitos amigos e amigas que eu namoraria se não fosse por um simples motivo: somos amigos. A amizade é um namoro sem beijo na boca e sem sexo. (Ok, sexo pode ser), mas não é recomendável
Este coração de papel que eu ganhei no dia dos namorados me trouxe boas reflexões. Um coração branco, que quer amar e depois aprende que amar é uma arte, um saber, uma hermenêutica. Tem um processo para chegar até ele, um caminho árduo e que nem sempre se tem êxito. Um caminho platônico, mas se é platônico não é amor, é ilusão.
O amor é palpável, fruto e não semente. Duro de encontrar e jamais é achado. É conquistado.
Não acredito em amor à primeira vista, embora já tenha me apaixonado na primeira vez.
Chega de virgindade, vamos à prática.
Selecionei algumas músicas que me fizeram entender o que é se apaixonar. Algumas foram mais dolorosas, outras mais românticas, outras ainda felizes e que marcaram momento. Quando ouço lembro.
Tenho certeza que muita gente se identifica com algumas músicas daqui, mas cada um com seu coração branco de papel.

Legenda:
F - Fossa (estava sofrendo por uma paixão não correspondida)
P- Paixonado (quando eu estava apaixonado, sendo correspondido. Vendo pássaros)
S - Saí dessa (quando superei uma desilusão)

From The Bottom Of My Broken Heart - Britney Spears (P)

Bubbly - Colbie Caillat (P)

Like A Star - Corinne Bailey Rae (F)


Don't You Remember - Adele (F)

Natalie Imbruglia - Torn (S)

Broken Hearted Girl - Beyoncé (F)

Girl From The Gutter - Kina (S)


Breath Again - Tony Braxton (P)


The Power of Love - Celine Dion (S) Essa vai tocar no meu casamento


Sinéad O'Connor - Nothing Compares to You (F pura)

Norah Jones - Come Away With Me (P)


Só mulher!
E aqui dois textos que falo DE AMOR e FOSSA.
Feliz dia dos Namorados beibes!

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Nossa luta de cada dia - Bastidores da Parada Gay 2012

A Parada é para todos. O mundo é gay.
Isso soa como um belo clichê. E é mesmo, embora o conceito dessas frases possam ser revistos e contestados. Contextualizados também.
Quando digo que, a Parada LGBT (mais formal agora) é para todos, refiro-me a 'todos' que superaram o pré-conceito da sexualidade. O sexo é um tabu, sempre será, assim como a homossexualidade em si. Quem explica?
Quando ouve-se de longe, falar da parada gay sem nunca ter participado, aparece o preconceito. Mesmo sendo homem, mulher, gay, hétero ou bi. Tem gente que prefere não ir e 'falar mal'. Quem explica?
Confesso que ir à parada me custou. Mesmo com todas as minhas contestações e pudores, um dia fui, acompanhado de amigos. Estudava os participantes desde o trem que vinha do ABC colorindo-se até chegar no Brás. Via um menino com asinhas, meninas super maquiadas e quando chegava na Brigadeiro, já era todo purpurina.
O arco-íris é o símbolo gay e, na minha opinião, este arco de sete cores é uma das manifestações mais bonitas da natureza. Agrada muito machão que eu conheço. Porém, nem tudo é tão colorido assim como se vê na parada. A vida do homossexual é dupla, com duas correias que movem ou para o anonimato ou para a solidão. E na parada o contrário dessas correias são levadas à rua. À Av. Paulista.
Fui roubado na primeira vez, levaram minha carteira com todos os documentos e ainda me perdi dos amigos. Voltei sozinho pra casa e tive uma bela experiência desse mega evento (not). Isso não foi motivo para desistir da minha militância e procurar na parada um sentido feliz, uma luta escondida em vinho químico e gente se agarrando.
Nos outros anos, fui armado, atento para não ser roubado e com olhares atentos às cores dessa produção. E funcionou.
Consegui perceber na parada a alegria de estar ali, lutando, dançando, miltanto numa causa que é diária, cotidiana.
Nesta de 2012, mesmo trabalhando, conversava com uma travesti sobre a festa. Ela, do interior, trabalhava como professora e ainda não tinha conseguido na justiça ser reconhecida pelo nome de mulher. Disse que sempre vem à São Paulo na parada para se divertir, não para lutar por nada. 'Amanhã ninguém lembra disso aqui, a luta pelo preconceito é todo dia. Hoje eu quero me divertir' disse. E raciocinando sobre isso, pensei que é a verdade. É uma festa, mas que dá um start para essa luta nossa de cada dia.
Joguemo-nos!

sábado, 26 de maio de 2012

Quando (re)criei a história de DOIS FILHOS - Possíveis leituras da ausência

Quando (re)criei a história de DOIS FILHOS, pensei em primeiro plano, naquele que fica.
A narrativa da peça teatral partiu da parábola bíblica "Os dois filhos" (Lc, 15. 11-32) que conta a história de um jovem, o filho mais novo que pediu ao pai sua parte na herança e foi embora de casa, para viver sua vida sozinho.
Em todas as produções e releituras que foram feitas d'O filho pródigo, o foco narrativo, foi em cima do menino que partiu, desse mais novo como protagonista, do que ele fez fora de casa: gastando o dinheiro com roupas caras, perfumes, saindo com prostitutas e ficando pobre financeiramente.
Acompanhamos durante todo o tempo, um jovem que teve nas mãos sua parte da herança e que a gastou com bolhas coloridas da vida, belas que se apagam no ar.
Nesse percurso, o pai que o amava, respeitou sua decisão em sair e voar sozinho. O velho ficou em casa, na companhia do filho primogênito e dos empregados. Pouco se conta sobre esse pai, sobre essa família que continuou sobre os muros daquele casarão sertanejo. O que a bíblia recria é um pai com muitos empregados, que guardara dinheiro pensando no futuro de seus dois varões.
Partindo do princípio de, que toda essa história não tenha acontecido, que trata-se de uma parábola (um tipo de conto de fadas contada para ensinar valores da vida real) ela tem um fundamento profundo quando analisada pelas vertentes humanas, ou melhor, humanitárias.
Durante a ausência desse filho mais novo, ninguém cita como a sua família fica em casa, vendo-o partir com os bolsos cheios de dinheiro para uma vida incerta que aos olhos dele, do jovem, era o caminho de ouro.
Imaginemos: um pai, que mesmo duvidando da certeza de sucesso lá fora, deixa o menino seguir e perde totalmente a comunicação com ele. Do lado humano por parte do pai, podemos tirar várias vertentes: preocupação (a mínima delas), desespero, ausência, luto, depressão, angústia, insanidade, perda de valores, entre muitas outras.
Embora haja a fé, de que um dia esse filho volte, essa fé é abalada pelos dias que se passam. Pela cama vazia, jamais desfeita, pelas roupas murchas, pelo semblante do caçula no primogênito, a falta de notícias.
A construção da narrativa foi densa. Dois anos. Tive essa ideia em recriar os dias desse pai que não ouve mais a voz do filho ecoar pelas paredes do casarão, que não sabe onde ele está, com quem está e se está realmente vivo. A morte é a menor das preocupações. Todo esse imaginário, pode ser analisado e comparado à famílias que vivem com a dura realidade em ter alguém desaparecido. A meu ver, essa situação é pior do que a morte propriamente dita.
Na parábola, o filho volta e o mais espetacular nisso tudo é a atitude do pai. Ele aceita o menino em suas misérias. Além de ter gasto tudo, perdido a dignidade lá fora, o pai o aceita na condição do que nunca deixou ser: um filho. Esse é clímax. Porém, na narrativa da peça, o principal não é esse retorno, mas é mostrar onde um homem declina-se quando parte de si deixa de existir.
Fico muito feliz em ter conseguido escrever apenas uma ideia de como pode ter sido esse tempo de angústias, de ausência de um amado. Essa peça vai além de valores religiosos, de dogmas ou do cristianismo. Ela é viva, humana, digna de ser revivida sem nunca sequer ter acontecido de verdade. Outra fantástica recriação de uma situação invisível que torna-se concretamente visível.
Há diversas leituras possíveis para 'DOIS FILHOS' e mesmo nós do elenco, deliciamos-nos com os ensaios repletos de aberturas que essa narrativa pronta nos traz.
Espero que, quem tenha assistido a peça, possa concordar, discordar e trazer novos olhares dessas leituras tão complexas quando comparada ao amor de alguém que amamos e que não está mais assim tão perto. Aliás, quando comparada ao amor, simplesmente, inexplicável até sempre.

sábado, 12 de maio de 2012

Dois sozinhos


Era uma tarde quente de domingo. Dia sorrateiro, que antecede o branco da segunda, o filho viu pela primeira vez o pai chegar em casa sóbrio. Naquelas tantas, o homem já tinha bebido tanto a ponto de esquecer os nomes.
Sentado na cozinha, o filho olhava o arquétipo do magérrimo, com pele fina, porém sóbrio naquele dia.
Inveterado no vício, fora do convívio de pai e filho, ambos não sabiam como se tratar. Se pelo calor da frieza ou no gelo da tentativa de amparo. Eram dois homens testados em dores, mas que partilhavam de um mesmo brio. Uma imagem refletida num pai que não passava um dia sem se entregar ao álcool e um filho, que não passava um dia sem desejar outra vida.
Cumprimentaram-se com olhares e perguntas pequenas, conversa rápida, que não era conversa.
O pai evitava olhar o filho ainda mais quando estava sentado na cadeira da ponta da mesa. No trono dos mais vividos.
Inebriados pelo convívio doente, sabiam quais palavras usar. Sóbrios de si, não tinham coragem de se encarar. Tanto tempo que o homem via seu pai chegar em casa trançando as pernas e nada mudou, mesmo muita coisa mudando.
Começou refletir sobre o bruto martírio daquele homem. Nenhum sentimento de compaixão agora passava pelos seus sentimentos. Teve um dia, tal sentimento, mas agora desistiu. Foram tantas alegrias estragadas para chegar nesse êxito de esquecer quem por ora deu-o a vida, aquela vida.
Não sabia dizer se era grato por ter que viver com um carma de sangue, que bebia, achava-o feio, inferior aos demais do bairro. Questionou sua vida, de maneira rápida, questionou seus sucessos e sua cor de cabelo. Ninguém pediu nada disso, mas estamos prontos para reclamar.
O filho imaginou que o pai também tinha muitas azarias para destrinchar. Ambos tinham, mas para quê soltá-las? Por tempo, pode-se afirmar que as dores fazem parte do processo para as alegrias, mas assim como elas, vão e vem e nunca perduram por um dia inteiro. A mente muda pede o diferente e o inconstante.
Já estava sozinho na cozinha. O magro foi a outro cômodo da casa e o deixou ali, como sempre.
Para o pai sobrara o martírio de sofrer na escravatura de uma alegria exacerbada que hoje se tornou senhora. Teve vontade de convidar o pai, que hoje estava sóbrio, para passear, conversar sobre a vida e contar algumas alegrias que tinha no bolso.
Mesmo que fossem mudos, sem sentido, estariam juntos.
O dia era de sol, muito quente. No parque da cidade, andariam duas quadras e o filho poderia olhar para o rosto do pai, sorrindo envergonhado. Sol, muito sol.
O céu azul, sem nuvens e pai e filho andam no parque. 

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A arte de andar com guarda-chuva

Chuva na segunda. Há algo pior? Sim: quando você não tem um guarda-chuva.
Comecei assim, hoje, com 'chuva no telhado e vento no portão. E eu aqui', indo trabalhar em véspera de feriado.
Até me arrisco andar na garoinha inofensiva sem proteção na cuca, mas embora sejam fracas, elas são chatas, como cães pequenos. Resolvi ir de táxi, mas logo desisti quando soube que gastaria o preço de um passaporte do Playcenter.
Tive que aderir ao guarda-chuva, comprar um, já que sou avesso ao uso dele, como sou avesso também ao uso abusivo de automóveis. Ora ou outra você tem que aderir.
Comprei, numa papelaria de japoneses, um daqueles tipões grandes, preto e fino. Tinha que garantir que não molhasse a mochila e meu cabelo máquina dois.
A chuva caía fina, mas intensa.
Quando a vendedora abriu o morcego dentro da loja, lembrei da superstição, que 'abrir guarda-chuva dentro de casa, não casa', tudo bem, pensei.
Senti-me elegante ao abri-lo e caminhar alguns passos na calçada. Não costumo andar de guarda-chuva e nem sequer tinha um, agora tenho.
Com ele aberto, impedindo molhar (me) ainda mais, percebi quantos obstáculos tem as calçadas quando você precisa refugiar-se nela. O ponto de táxi que há pouco foi um abrigo, agora é baixo e estreito demais para eu passar com meu novo amigo.
As árvores baixas raspavam suas folhas respingadas e direcionavam a chuva contra meu peito. Aliás, as belas árvores são uma antítese a parte quando chove. Embaixo delas, se molha mais, mas isso enquanto não acumulam água o suficiente para engrossar a chuva. No início, na garoa, no anúncio da chuva, as árvores ainda servem como um abrigo provisório, mas logo depois, elas acabam por se tornar parte integrante da chuva. Podemos nos refugiar nelas enquanto elas não se tornam parte na chuva.
Telhados, vigas, calhas, tudo torna-se parte da chuva. Daquele momento onde a água invade o mais estreito dos becos, ela entra também no sapato, de couro e molha a meia. Aí realmente a gente se sente parte da chuva. Porém, sentir-se parte da chuva, é quase divino, glorioso, mas não quando você está indo trabalhar.
Minha vontade real é cantar, deixar a chuva molhar e purificar a alma. Já fiz isso, quando criança e hoje não consegui me entregar totalmente. Não só na chuva.
Nesses dias lembro do filme "Dançando na Chuva" com o Gene Kelly, mas na verdade me lembro mesmo da releitura feita pelo Roberto Bolaños, no Chapolin, quando ele pisava intensamente nas poças usando um sapato social preto, que combinava com o terno. Aquilo é incrível.
Eu e meu guarda-chuva caminhávamos juntos na rua e minha mochila teve um pouco de ciúmes. Podia comparar o design, modelo, gravuras contidas nos demais aparatos defende-chuva. Guarda-chuva é homem, sombrinha é mulher.
Andei desviando dos demais, nas calçadas estreitas, nos lamaçais que se formam perto do ponto de ônibus. Ao passar pelo primeiro semáforo, o motorista, mesmo com o sinal verde, parou e businou para eu passar. Imaginei seu pensamento: "Na chuva, coitado. Passa vai"
Neste momento desejei ter um carro, mas assim eu não seria parte integrante desse ritual. Conformismo filosófico de onde nasceu essa crônica.
A cidade fica bonita na chuva, com os guarda-chuvas. Em outro semáforo, vermelho agora, outros aglomeraram-se, uns próximos aos outros com seus amigos. Uns de longa data, vagabundos, charmosos. Todos formando um telhado móvel, que protegia da chuva. Eu estava no meio. Nós estávamos no meio. Quis ver essa imagem de longe.
A chuva para e volta e a segunda vai acabar hoje, mas vai voltar. E eu preciso atentar o meu olhar às belezas de se andar na chuva, de guarda-chuva.

domingo, 22 de abril de 2012

Um apóstolo morreu em missão


Fiquei muito triste com a notícia do falecimento do ator Tiago Klimeck, 27, que morreu enforcado durante encenação da Paixão de Cristo em Itapeva.
Participei durante dez anos consecutivos de encenações da paixão, sendo que em três deles fui Jesus Cristo em minha comunidade no ABC. Pude compartilhar de momentos de irmandade na construção das narrativas da peça com o grupo Forjoc que está em atuação até hoje, trabalhando socialmente com teatro. Porém as apresentações da paixão até hoje são um marco para quem participou e quem assistiu.
A paixão significa muito para os grupos de jovens, pastorais eclesiásticas e sedes cristãs. É o marco da igreja, até maior que o Natal, pois Cristo (re)nasce. Isso para quem segue a religião cristã.
Fora isso, de seguir ou não, foi fazendo a Paixão de Cristo que eu encontrei amigos de verdade trabalhando em prol da arte e descobrindo o teatro, o trabalho e a vivência em comum-unidade. A rua ficava lotada, a notícia corria os bairros e toda paixão era tomada de um espírito único de trabalho conjunto.
Certo ano, tivemos uma experiência fascinante durante a encenação. Uma personagem, coadjuvante, começou a chorar e se emocionar muito durante as cenas. Ela começou a esbravejar, pedindo que soltassem Jesus e suas lágrimas foram o ápice. Palavras doces ecoavam de sua boca em uma revolta curiosa. O elenco se assustou e a platéia toda se emocionou. Vi até o iluminador fora do palco, chorando ao vê-la suplicar para soltar Cristo, que ali estava na pele de um amigo.
Saiu de si e se entregou ao personagem. Ouso dizer que o espírito de unidade nos mostrou o resultado de se trabalhar por uma boa causa.
Hoje, vendo essa triste notícia, imagino a dor que o grupo que ensaiou, apresentou e se viu nesse desfecho trágico está sentindo.
A simbologia da morte de Judas vem pelo arrependimento, pela tristeza em ter traído o mestre. E atuando, encenando esse arrependimento, o ator morreu de verdade e acabou com a vida de tantos outros que estiveram com ele no palco.
Lembrei-me de um amigo, o Everton, que representou Judas em uma das paixões e assustou a todos quando a ‘árvore’ cênica quase rompeu quando ele encenou o enforcamento. Depois, rimos do fato e guardamos com carinho essa lembrança. O grupo de Itapeva não. Vão levar para sempre esse trauma, essa dor que não pode romper a vontade de continuar trabalhando em união.
Tiago, foi um dos apóstolos de Jesus. Na época Tiago, hoje Tiago e ambos morreram em missão.
Fico muito triste quando vejo jovens morrerem, como o menino que morreu após levar um golpe na cabeça na Livraria Cultura, ou a Eloá, morta pelo ex-namorado. Agora, Tiago, apenas um ano mais velho que eu.