domingo, 12 de fevereiro de 2012

O Padre quer conversar


 "Veja aquele rapaz despudorado ferindo nossa moral cristã" disse um dos freis da tirinha.
  "Você desrespeitou a igreja e o papa" disse-me o pároco da minha comunidade, por telefone.
  Se houver comparações, pode-se afirmar que eu me passei por aquele jovem que feriu a fé por meio de uma tirinha que une crítica e humor ácido à igreja e aos pudores da religião.
Sol tapado com a peneira se formos tentar amenizar os escândalos que acontecem nas sacristias e confessionários ao redor do mundo. Escândalos quando comparados à cegueira de alguns pais da igreja que preferem não ver a que resolver. Em Levítico 22, no livro dos livros, a palavra usada é "abominação" e isso me faz lembrar o Abominável Homem das Neves. Será que essa lenda na verdade não fala de um homem das montanhas de Aspen, que oferecia comida e abrigo aos turistas masculinos em troca de satisfação sexual?
  Há duas semanas o padre da comunidade onde participo me chamou para uma conversa. 'Tem que ser pessoalmente' disse enfadonho do outro lado da linha.
Adiantou-me que queria satisfações de uma tirinha (anexa acima) que eu postei em minha página pessoal na rede social do momento. Uma tira(da) do cartunista Angeli, que mostra dois freis assistindo de suas cúpulas a Parada Gay acontecer nas avenidas defronte à capelinha.
  A tirinha é sutil, chega até ser bonitinha, mas em suas últimas falas, aflora a hipocrisia que a igreja tenta esconder e vez ou outra estoura em noticiários jornalísticos. Dá para tirar várias conclusões do quadrinho: desde a pedofilia, homossexualidade enrustida ou as duas vertentes juntas, fruto de repressão e celibato forçado.
 Aceitei conversar com o padre, embora eu entenda que não tinha de dar satisfações ao pároco que celebra as missas onde minha banda toca aos domingos. Senti-me pressionado no início, lembrei da palavra "Ditadura" várias vezes e de alguns dos personagens que sofreram represálias na época, mas logo lembrei que no ano de meu nascimento, em 85, era o fim da ditadura. Nasci livre desde então.
 Com palpitadas fortes, aceitei a conversa corretiva e sem delongas comecei a digestão dessa intimada santa, que ficou marcada para o domingo antes das dez da manhã.
  Não aguentei. No mesmo dia, ao passar em frente a igreja do Cristo Operário e notar que estava acesa, num salto dentro do ônibus, toquei o sinal e desci para tirar aquela história a limpo de uma vez por todas. Chamei o padre que veio me atender com um sorriso e um aperto franco de mão.
- Não aguentei padre, eu disse. Vim logo porque estou curioso interessado no que o senhor tem para me dizer.
- Sem grilo, ele disse. Só queria conversar, as pessoas estão falando, comentando sabe!?
  Confesso que a pressão dessa conversa das dez me deixara armado, com pedras e foices na mão, mas após o padre esfriar minha espinha, senti que pude raciocinar melhor sobre quais palavras usar quando fosse defender minha livre opinião sobre isso ou aquilo no domingo próximo. Naquele dia, não pode me atender e conversar a panos frios. Ficou para domingo mesmo.
No dia, minha banda estava escalada para tocar na missa das dez e exatamente às nove e vinte da manhã, enquanto arrumávamos os equipamentos da banda, em sua batina branca, o padre passou e me chamou para a sacristia. Deu ordem aos ministros para que ninguém entrasse ou atrapalhasse nossa conversa. A porta do céu estaria fechada, pois os anjos estariam trabalhando. Olhos arregalados dos outros serventes de branco.
  A conversa foi sutil. Há mais de dez anos nós nos conhecemos e temos profundo respeito um pelo outro. Cada um em suas condições. Ele começou falando, dizendo que um terceiro mostrou a tirinha para ele, visto que ele não tem perfil na rede. Disse que como padre, ele tinha o direito de me alertar sobre esse comportamento fora da igreja, pois querendo ou não eu era um agente de pastoral em sua paróquia, ou seja, trabalhava cantando, atuando e editando o jornal paroquial.
  Após minutos em defesa da igreja, de cuidados nas atitudes e formalidades, foi minha vez. Entendi sua posição e entendi que se preocupava com a publicação daquela tirinha por alguém que serve em sua paróquia. Porém, usei o argumento da individualidade. Publiquei isso em minha página pessoal, somente. Não foi uma opinião profissional, em nada que fosse da igreja. Sempre publico textos, vídeos, fotos interessantes e nunca levaram isso a ele, até encontrarem uma brecha para atacar. Este terceiro, oculto, está entre meus 'amigos', um contato que me adicionou e denunciou-me como 'o despudorado'. Usei o termo mesquinho para definir essa tal pessoa que teve o trabalho de printar a página, entrar em contato com o padre e mostrar o que eu publiquei.
- Não vamos julgar a pessoa, ele disse.
Concordei, mas julguei sim, a atitude. Mesquinha. Atitude de quem precisa de um tanque cheio de roupa para lavar ou um mato para carpir. Porém, apesar de tudo, percebi que sobre essas pessoas é que nos fazemos mais fortes e nos entendemos mais humanos. Sem querer, esse abominável-mesquinho-denunciador-de-homossexuais-on-line propiciou uma conversa com o padre que se fosse por mim, nunca iria acontecer.
Um tema desse não é falado pela igreja, não é discutido. É abafado. (Abafa!)
Esse foi um dos pontos altos da conversa. Quando eu citei que a igreja não se pronuncia sobre a homossexualidade, quando não fala qual o caminho que gays, lésbicas e trans devem seguir quando se propõe a seguir determinada religião, também não se pode definir regras apenas baseando-se na Bíblia para atacar, queimar em praça pública ou apedrejar. Porém, o padre, me mostrou toda sua sabedoria quando ao ver esses argumentos, respondeu por si: 'Eu não sei'
Deu um suspiro e assumiu que tal tema não é apenas tabu, mas sim ignorância, no melhor sentido da palavra, de não saber mesmo, não ter argumentos para explicar (se é que tem explicação) a homossexualidade e suas vertentes. Ele podia usar de argumentos do Catecismo, dizer que é um afronte ao Criador e que há um inferno esperando pelos homem que deitam com homens e vice-versa (rs). Mas, não. Ele admitiu que a igreja é ausente nesse sentido. Percebi que estava conversando com um Homem e não com um padre fanático.
Argumentei que, enquanto a comunidade eclesiástica está nessa dúvida, muitos homossexuais estão se suicidando, impedidos de serem aceitos por um Deus, ou pela igreja propriamente dita. Lembrei de uma entrevista que fiz com Marcelo Gil, da ONG ABCD'S, que luta pelos direitos homossexuais na região do ABC Paulista,  no qual ele me contou um caso que me chocou: 'Pai e mãe quebraram as pernas da filha de 16 anos, quando descobriram que ela era lésbica.' Com as pernas quebradas, a adolescente não poderia sair de casa.
...
Sugeri que sem pré-conceitos, para que ele se informasse, para poder falar, ajudar mais e notar que há ministros, padres, bispos, agentes de pastoral homossexuais e que acreditam ser a fuga o melhor dos caminhos para essa doença sexual, que nada tem em patologia.
Lembrei de uma homilia feita por ele, logo após a liberação da União Homoafetiva do Supremo Tribunal de Justiça, no qual ele leu uma carta do Bispo de nossa diocese, direcionada mais aos héteros como um manual para o tratamento de pessoas homossexuais.
A carta, era cheia de dedos, assim como ele, o padre, estava em seu discurso no altar. Minha avaliação, sem julgamentos, era de que ele estava perdido, escolhendo palavras e sem desfecho concreto para encerrar a conversa.
- Não queria ofender ninguém, argumentou.
  Sei que não, mas mais uma vez é provado que, a igreja não sabe o que dizer.
  A conversa chegou num ponto (já faltavam dez minutos para começar a missa) que, as opiniões eram claramente adversas e jamais iríamos chegar num consenso. Ele como padre, eu como eu.
- Não concordo, porém respeito.
"...olha, um arco-íris termina na capela"
Foi o que sugeri como encerramento do papo santo.
O padre não desmistificou sua opinião. Era aquilo e pronto. Eu também.
Com algumas palavras, ele definiu que o tempo cura e responde tudo.
Terminamos a conversa. Saímos da sacristia sob olhos atentos e famintos por informações. Arrumei meu microfone e no decorrer da missa, cantei o Glória e o Entoemos, enquanto ele consagrou a hóstia e proferiu o perdão dos pecados. Na homilia desse domingo, proferiu as seguintes palavras:
- Conversando com um amigo eu disse que o tempo cura e responde perguntas que só Deus tem as respostas.
Meu amigo me cutucou com a perna e notou que ele falava de mim.Identificou-me como 'amigo' e isso já pode ser um grande começo.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Quando algo se quebra

Quando algo se quebra, os cacos vão longe na vida. Pedaços nítidos, farelos de vidro se escondem embaixo da mesa.
Dia desses tive que quebrar o vidro da janela dos fundos para poder entrar em casa. A porta emperrou com um pedaço de chave e tive que abrir o trinco da janelona de trás. O interior era terra de ouro.
O vidro do quadradinho espatifou sobre a pia e forrou o chão de cacos grandes e farelos de vidraça, mínimos, quase invisíveis. Notados somente quando entram no pé e incham o dedo mínimo. Alojam-se inteiros e silenciosos; e precisa de cautela pra tirar, pra não inflamar.
Quando pequeno, quebrava copos e termômetros na pressa do leite. Caquinhos que antes me ajudavam a beber, agora eram amontoados todos num canto perto da porta da cozinha, que há pouco não abria. Nos termômetros, a lenda do mercúrio que fazia morrer rápido se pisasse nos caquinhos mágicos.  Quebrar um desses em casa era penitência de dias sem andar descalço.
Pelos copos, havia impressão de ter cacos no quarto, na cama, no banheiro. Mesmo depois que a mãe varria pro canto do quintal e jogava junto com a sujeira da pia, parecia sentir os farrapos de vidro roçando o casco do pé e o dorso na cama.
Quando algo se quebra, um novo nasce. Em alguns dias de ausência do copo quebrado, logo depois aparecia outro de liquidação, novinho, que não tinha propostas de terminar como o anterior. Vinha com um amontoado de papel dentro, para amortecer a queda do caminhão de transporte que acabava no escorredor.
Quebrar chama a atenção. Faz barulho, som que espalha.
Sempre achei curioso o copo que um dia é copo e depois vira caco. Um dia nos beija e no outro nos corta os lábios.
Tento imaginar como seria beber num copo que já é caco. Não trincado, mas os próprios pedacinhos de lâmina de vidro. Beber e deixar ver escorrer.
Algumas coisas na vida são como os copos. Caem da mesa, se quebram num acidente que não dá para segurar. Derrama algo que tinha dentro, chama a atenção. Faz um barulho que se espalha. Um oco alto primeiro e depois mínimos tons agudos espalhando a dor. Quando se encontra com o chão, alguns cacos são grandes, visíveis cortantes. Esses a gente varre. Com cuidado, cata com a mão e não corta. Os pequenos, pouco notados, cortam depois, quando entram, ficam no pé e nos lembram daquele uno que quebrou e parecia já ter partido sem mais. Inflamam, são pequenos visíveis que brilham se observados com cautela de lince. Nítido que não dá para pegar, nem com cuidado dos grandes. Devem ser varridos com vassoura de pêlo, pois piaçava não pega, não joga pra fora da nossa cozinha.
Depois dos cacos, renovação. Outro copo é colocado no escorredor; mesmo sabendo que um dia possa virar caco, a gente beija, seca e coloca para escorrer.
Quando algo se quebra, os cacos vão longe. E os maiores são os menos perigosos.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Forrest Outback

Fui jantar em um restaurante australiano com um grande amigo. Sucesso por carnes vermelhas e brancas e também milhares de indicações, fomos e sentamos em frente um ao outro compartilhando gracejos e zombaria alheia. Era quarta-feira, meu dia fatídico e cheio de superstições.
Ele havia me convidado um dia antes, dizendo que a cebola era o melhor acompanhamento do mundo. Eu estava um pouco escaldado com promessas gastronômicas, pois uma semana antes comi pela primeira vez comida japonesa e não tive boas surpresas. Algo me dizia que eu nunca iria gostar dos peixes e molhos pretos e percebi que tinha tido uma visão futurista. Não gostei de nada, a não ser do saquê.
No Outback, o restaurante australiano da quarta, combinamos de colocar as fofocas instantâneas na mesa e debruçar sobre uma noite quente de verão em janeiro nossas sei lá o quê. Sentamos na varanda e eu sabia que o amor não estava sorrindo para nenhum de nós dois.  Estava em outro lugar, viajando deveras.
Ele estava e não estava. Eu, não estava há um tempo. E juntos ríamos e contávamos histórias conhecidas para acalentar o coração que esperava o frango Alice-no-País-das-boas-ervilhas.
Agachou sobre nossos joelhos quem iria nos dizer que a noite era branca. A garçonete de sorriso largo e dentes para frente nos disse seu nome e prometeu nos acompanhar na pequena mesa. Björk, Johnny Cash e Fiest embalavam. Corinne apareceu no meio do papo e nós, contávamos nossas (des)ilusões amorosas um ao outro, parando segundos para observar alguém bonito que passava
Ele, meu amigo, está numa fase triste. Dessas que não se sabe se o relacionamento terminou ou se ainda tem alguns pneus. Nas palavras ora tristes, ora esperançosas dele, me lembrei de já ter visto e presenciado essas arestas num tempo passado nem tão distante. Falávamos das músicas, das tristezas que elas nos trazem e das alegrias que uma boa trilha rememora ao embalar nossos dias.
Lembramos dos tempos de faculdade, comíamos a batata meio frita meio crua e dizíamos o quanto é difícil amar e ser maduro naquilo que é tão bonito para ser desperdiçado. Tudo era tão complicado, que nas palavras do meu amigo eu me reconhecia em alguns parâmetros. Sentia que a cada dia me afastava dessa ideia de franquia amorosa. Esse amor mesquinho que pensa em tirar proveito do outro e esquece da doação, da caridade, do dar companhia.
A garçonete, sorria e só uma vez o vi apressada. Não sei se é praxe da casa ou mesmo regra ser educado ao máximo com os que pagam, mas ela foi natural.
Depois do sorvete, ainda pairava sobre a mesa o resto de marshmallow e os resquícios de Amor não resolvido que depositamos sobre a mesa. Do papo que ficou sem terminar.
- Namorar. Estamos falando disso, eu soltei para Nathália, a garçonete.
Ela sorriu e contou-nos sua história. Enquanto eu digitava a senha do cartão e meu amigo riscava com o garfo o resto do creme no prato, Nathália disse que era casada, mas encontrou o seu outro amor na cozinha de um restaurante onde trabalhavam juntos.
Ambos eram casados. E se amaram.
Eu via brilho em seus olhos quando disse que estava reformando o apartamento ‘do nosso jeito’ e quando contou toda a trajetória que teve que percorrer para se separar de seu antigo marido para amar outro que conheceu entre os pratos. Ela se separou. O dos pratos também e agora estão juntos, com expedientes trocados e os corações andando juntos.
Ouvíamos atentamente sua história, até ela encerrar o atrito da noite parecendo ter ouvido toda a nossa conversa desde as nove.
- O amor é simples, disse. E depois sorriu.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Muda


O ano, às vezes, muda antes. Bem antes.
Em tempos que termina-se a universidade ou se encontra um novo amor nessas baladas literárias feitas no fim de novembro, o ano pode ter terminado e a gente nem assim ter percebido.
Era início de dezembro, há dois anos, quando liguei a tevê móvel no trabalho e encontrei uma música, tocando às seis da manhã. Tilintava acordes doces, um lalalá de alegria e uma nova alma oferecida naquele momento.
"quando a chuva caiu, eu me molhei nela"
Duas semanas depois, veio uma ilusão feliz, interessante em alma, que me mostrou que a vida muda previamente sem prescedentes nem avisos; e sem esses fogos barulhentos com mais obrigação que alegria.
Assim como pode mudar antes, pode segurar algumas dores permanentes. Ela é senhora, não nossas ceias.
Confessamos que as festas quase sempre são desesperadas, repletas de anseios de alegria e brigas enrustidas. Isso não nos interessa.
Bem antes do tempo final, caiu uma chuva. Para purificar-nos. Vinha das calhas sujas do telhado, debandava pelas valas, despretensiosa de vaidade. Vinha do céu, para anunciar antes que a vida muda quando bem entende.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Eu posso voar...

...foi o que o menino disse enquanto pintava, dias após começar no segundo ano do primário. De calças ralas, blusa surrada e pés sujos num chinelo de pano, continuava pintando a casa-sapato.
Tia Nininha sorriu ao ouvir estas palavras, que soaram de maneira doce, desse menino que vira há algumas horas brincar lá fora, no pátio. A moça, recém-formada no magistério, lembrou das aulas de psicologia aplicada à educação e sem titubear lançou:
- e como aprendeu?
- A voar? perguntou, quase interrompendo Nininha
- Sim; a voar
- Não disse que sabia
Fingindo esquecer a colocação, desviou o olhar; com um sorriso mais simpático que verdadeiro, pegou na mão do menino e incentivou-o a entreter-se com sua atividade e com outros pensamentos.
- Vai, pinta!
Outro aluno pegou um lápis colorido e retomou sua obra. Antes, ouvia a conversa da professora com o menino.
Do desenho, o cheiro do álcool de mimeógrafo agradava a professora nova. Nininha sentiu os joelhos estalarem. Soltou um 'uff' ao esticar as pernas e levantar. Viu Sandra, linda, de pele parecida com cera, moldada cuidadosamente com a luz do fogo e mãos cautelosas. Segurava três lápis coloridos. Um verde, outro azul bem claro e um rosa. A mão esquerda coloria o sapato em forma de casa, de laranja. Apesar da cor forte, a menina sabia a força a ser aplicada no desenho, fazendo com que a pintura se tornasse suave.
- Lindo, Sandrinha
- É da cor da minha casa, fessorinha
Como as crianças são cheias de atenção, pensou Nininha. Refletia o quanto esses fatos, de trabalhar e perceber os pequenos, a impulsionaram em sua decisão. Talvez, possa ser de forma inconsciente, mas de alguma maneira, que o que já está feito, serve de modelo a ser seguido por quem chega mais tarde.
Ao mesmo tempo, ao pensar nessas protuberâncias, remeteu também toda sua reflexão ao curso de psico-aplicada e a ênfase na educação, que seria completa somente com essas trocas patéticas nas salas de aula. Engrandeceu-se rapidamente e pousou as mãos nos cabelos da Sandra, que retribuiu com um olhar branquinho.
Apesar de ser uma quinta-feira, de inverno, o dia estava quente.
- Terminei professora! Disse Sandra.
Indo até a menina, Nininha perguntou quem mais havia terminado. Ouviu uma negativa em coro. Não apressou-os.
- Quero todos bem bonitões
- O meu está lindo professora. Bonitão, disse a menina prodígio. E realmente estava. A pintura da menina estava demasiadamente enfeitada e com uma coloração em degrade. As cores eram o chamariz da casa, do desenho e nenhum retoque estava faltando.
- professora! Era o menino que sabia voar – terminei!
E entregou o papel com a casa-sapato, pintada em tons de cores ocres.


Segurando com o braço um calhamaço de papeis e abrindo a porta do apartamento com outra mão, Nininha entrou em casa. Nina, por si. Usava o diminutivo apenas com os alunos do primeiro grau e limitava-se a Nina com amigos mais próximos ou com parentes menos conhecidos.
Morava com mais duas amigas, colegas diria. Repartiam o aluguel e algumas angústias. Após despejar as folhas desenhadas sobre a mesa, jogou a bolsa na mesinha de centro de sala e deitou parte do corpo no braço do sofá, coisa que sua mãe odiaria se pudesse vê-la e dar represálias.
Eram tantos desenhos, tantas casas-sapato para olhar e elogiar um a um. Os pequenuchos gostavam de ver a caneta vermelha dando-lhes confiança de um bom trabalho e algumas florzinhas desenhadas junto às letras. Nininha gosta, Nininha quer ver bonito.
A noite estava quente. Olhou pela janela e viu ao longe a torre da Paulista brilhar em cores vivas e cintilar uma a uma, para cima para baixo. Desde que veio de Taubaté, sentia-se importante ao olhar para o centrão e sentir-se parte dele. Embora trabalhasse em região metropolitana, afastada do centro, fazia o mais importante dessa história de superação que era morar ali. Ter uma casa no terceiro andar do Paraíso que permitisse ver a cidade acesa e livre para ela.
Uma de suas conquistas interiores era ter um namorado, coisa que até agora não conseguiu conquistar nesta grande metrópole de galinhas urbanas. Era dessas que inconscientemente acreditava que o homem que a faria feliz viria depois de uma catraca eletrônica e um dia cheio. Sentaria ao teu lado no metrô, roçaria a perna peluda na sua, ambas escondidas em calças jeans. Jamais considerou besteira essas particularidades amorosas que a faziam ensaiar um encontro platônico que talvez nunca conseguisse concretizar.
Durou apenas alguns segundos, o olhar parado para fora; logo Nina virou o dorso cansado e estalou os dedos das mãos inclinando-as para trás. Estafada estava, mas ainda queria sentar e viajar no desenho dos alunos da tarde.
As crianças! Ah, lembrou das crianças e rememorou a inocência contida naqueles aluninhos tão cheios de problemas familiares banais. Crianças da cidade, com tantos compromissos e aulas de inglês, mas que na sala de aula deixavam transparecer um pouco do que realmente ainda são.
Pegou um desenho nas mãos, o primeiro do monte de sulfites. A casa alegre era verde, com plantas pintadas até o céu. Galhos que se uniam aos pássaros traçados com giz de cera preto, enormes, com duas asas. Os pássaros eram asas; o desenho era a visão daquela criança; Henrique era o que estava escrito no verso da folha.
Pegou outro. A casa era preta. Preta e borrada em traços longos feitos com lápis esgarçados pela força do autor. Outra casa, rosa agora, com bordas.
A quinta casa era marrom. O quintal cinza e as nuvens beges. Era do menino. No canto da folha, um pássaro, dando outros horizontes para a casa em forma de bota. O detalhe era que o pássaro estava morto, embora estivesse em pé com um buraco enorme que abria seu peito. As asas, escancaradas, pareciam estar diante de um predador faminto.
O pássaro estava morto,  embora estivesse com as asas abertas e ereto em seu corpo de ave rapina.

continua...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Dia 5

Foi o dia do meu aniversário. Quer dizer, é ainda, sempre será. Pode ser que um dia quando todos os meus amigos e antepassados estiverem ultrapassados, essa data possa ser esquecida quando configurada à mim. Porém, pelo que consta, são minhas bodas anuais individuais enquanto eu exista ou até que alguém, depois de eu ter virado pó, se lembre de mim.
No caso, ontem, vinte e seis largas primaveras; passei um dia corrido, mas com pequenos presentes ocultos. Não teve parabéns, mas teve bolo, de abacaxi. Fui trabalhar e consegui evitar que mil dólares fossem descontados da minha folha de pagamento. Estive fora de casa, por motivos maiores, porém comemorei o dia com pessoas no trem, táxi e numa sala técnica de produtos eletrônicos.
Muita gente me parabenizou, ganhei abraços de gente nova, amigos recentes e pessoas importantes em sentimento. Mensagens escritas pelo celular, telefonemas, presença e colegas que sabem do seu aniversário pela rede social, bombou.
Agrego meu aniversário ao Natal, uma data que eu considero deveras bonita, enfeitada e cheia de reciprocidades gratuitas. É engraçado pois, sempre nessa data, no comecinho de dezembro as ruas estão ainda sendo iluminadas pelas luzinhas pisca e meu aniversário me traz um pouco desse clima que se aloja nas ruas, começando a se iluminar. Eu não me imagino fazendo aniversário no meio do ano, sem ver essas luzes que de alguma maneira anseiam por melhoras. Já me acostumei com aniversário pré-natal.
Quando eu tinha nove, dez, catorze anos, essa já era a data das férias. Sempre aplicado e nerd cdf, saía em férias antes dos outros da sala e viajava para o interior da cidade. Lá ficava até fevereiro e sempre chorava quando tinha que voltar. Na ida eu também chorava, mas depois não queria ver os prédios daqui novamente. Nessa data, de dia meu, sempre me coloco à refletir, me empolgar com novos planos, correr nu nas ruas, ter um novo amor; em contraponto, problemas familiares, conflitos existenciais, retórica não convincente me trazem lembranças nem tão docinhas. Faço uma análise pessoal e vejo que estou perto dos trinta e nem um livro publiquei ainda. Antecipadamente me desespero, mas logo percebo que há tempo para muita coisa ainda. Inclusive para isso.
Sempre olho no espelho. Sempre. Não é um ritual, mas guardo um pouco da minha imagem, de como estou com certa idade. Coisas de homem. No ano passado, tive um aniversário de rei. Participei de um evento que reuniu centenas de jovens e no fim do evento, TODOS cantaram parabéns e gritaram por eu fazer vinte e cinco anos. Porém, o que mais me tocou, foi chegar em casa e ter amigos de anos, de cuecas e banhos me esperando com um bolinho e uma vela micha sobre ele. Chorei.
Nasci às 10h40 da manhã e nesse horário sempre me volto para o sol. Eu gosto de ficar quieto, de bruços sobre essa data minha, só percebendo quem vai lembrar; quem vai dizer que a saga de Sagitário está aberta e lembrar 'Pô o Dani faz aniversário esse mês'. É lindo e gratificante isso. Tenho marcado várias datas de aniversário na minha cabeça. De amigos, família e curiosamente de pessoas que pouco tenho contato, mas que por algum motivo fixou-me a data desse nascimento alheio. Curioso também são as pessoas que fazem aniversário no mesmo dia que eu. Elas sempre lembram e, me lembram, do meu aniversário.
Não sou muito ligado em astrologia, embora eu identifique em outros sagitarianos, pontos de personalidade idênticos aos meus. É comum chover no dia 5 de dezembro. Minha mãe me contou que quando nasci, choveu e posso afirmar que tenho grande sensibilidade com a chuva. Serena, torrencial, firme ou garoa, ela me encanta.
Confesso que essa etapa no dia do aniversário, de atender telefonemas, ler milhares de mensagens de paz, saúde e mimimi me cansam um pouco, porém resgatam que há pessoas, há quem olha, te vê, lembra e tira um pouco do seu tempo para ligar, enviar mensagem e... lembrar de você apenas.

domingo, 4 de dezembro de 2011

A sala de Deus e o Diabo


Deus e o Diabo moram em uma mesma sala. Estreita, pequena, mas que os comporta inteiramente em suas necessidades.
Deus e o Diabo moram em uma mesma sala, compartilhando suas vidas numa convivência fraterna, mesmo distante em imaginários e pragmatismos universais. Gostam dos mesmos livros, com pequenas divergências entre autores; Usam dos mesmos talheres e opinam diariamente sobre a cor da parede da sala, com um tom amarelado fosco, com mesclas azuis bem claras que vão do chão até parte do teto, coberto de escamas. É assim a parede da sala onde mora Deus e o Diabo.
Tudo se tem na sala e tudo se encontra lá; e aí que se dão suas virtudes em serem, ambos, cultuados por toda a humanidade de fé.
De lá, da sala estreita, eles notam os humanos, manipulam os seus dias e ora ou outra, trocam gracejos sobre as peripécias de alguns pouco experientes.
Da janela frontal, próximo ao candelabro de cera, se vê um jardim florido, com crisântemos e margaridas, onde as estações revezam entre os meses. Deus escolhe o inverno e o Diabo anuncia o verão. Na primavera, o Diabo prepara as flores para que Deus possa murchá-las e derrubá-las pelo gramado dando-as outro destino. Vida.
Ambos moram na sala, dormem na sala e comem na sala. Preferem alimentos ricos em fibras e que não ataque o intestino. Evitam gorduras e condimentos.
Diariamente, ajudam um ao outro no trabalho diário e sempre que possível, lavam o chão com água e sabão.
As telas coloridas da sala reportam ao cotidiano dos homens os seus atributos diários. Deus prefere os sinais, os passos e a fala. O Diabo, o sorriso, o olhar e o pensamento. Ambos se completam, trocam repentinamente de nome e gostam de enganar os que se julgam inteligentes. Respeitam os sábios, mas não os ignoram em suas artimanhas.
Deus e o Diabo moram em uma mesma sala. Ambos não têm sobrenome e há de usarem muitos nomes quando se fadigam de seus arautos pessoais. Cada um tem seus amigos e ora ou outra, numa tarde de domingo ou terça, aparecem na sala quase sempre sem muitas expectativas. Tomam uma cerveja, falam de Sócrates, ciência e sexo. Acabam por haver amigos em comum, muito dispersos, de longa data.
Moram no atraso, na janela entreaberta e nos parênteses familiares. Trabalham duro nas intrigas de família, no nascimento da criança e nas salas de aula do ensino médio.
Um não vive sem o outro. Inventaram o amor, o ódio e a saudade. Alguns desses foram tidos como conseqüências rudimentares de ausência, mas vivem a experimentar outros diversos atos intrínsecos da alma.
Deus e o Diabo moram em uma mesma sala. Assistem seriados, invejam os autores e quase nunca saem para se divertir.
Fazem com que os homens que buscam de seus santos refúgios, imaginem entender um pouco da vida de ambos, que moram em um mesmo lugar e se alargam de dar atenção aos que nele se refugiam. Não é de costume misturar trabalho e vida particular.
Seus vizinhos teimam em taxá-los. Em dizer que um é mau e outro bom. Ambos, Deus e o Diabo são amigos e só dão-se a existir quando é lhes dado permissão. Não deixam vir às margens da virtude quem é quem nessa relação.
Por ora aparecem calúnias a respeito de Deus e o Diabo. Assuntos absurdos, de ordem categórica e audaz. Eles não respondem às essas miudezas ignorantes e continuam pagando suas contas.
A casa tem mais cômodos, mas os dois dividem suas diferentes manias numa mesma sala. Uns dizem que Deus mora em cima e o Diabo em baixo. A sala é o lugar onde moram e ainda não há interesse em mudar.