segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Quando algo se quebra

Quando algo se quebra, os cacos vão longe na vida. Pedaços nítidos, farelos de vidro se escondem embaixo da mesa.
Dia desses tive que quebrar o vidro da janela dos fundos para poder entrar em casa. A porta emperrou com um pedaço de chave e tive que abrir o trinco da janelona de trás. O interior era terra de ouro.
O vidro do quadradinho espatifou sobre a pia e forrou o chão de cacos grandes e farelos de vidraça, mínimos, quase invisíveis. Notados somente quando entram no pé e incham o dedo mínimo. Alojam-se inteiros e silenciosos; e precisa de cautela pra tirar, pra não inflamar.
Quando pequeno, quebrava copos e termômetros na pressa do leite. Caquinhos que antes me ajudavam a beber, agora eram amontoados todos num canto perto da porta da cozinha, que há pouco não abria. Nos termômetros, a lenda do mercúrio que fazia morrer rápido se pisasse nos caquinhos mágicos.  Quebrar um desses em casa era penitência de dias sem andar descalço.
Pelos copos, havia impressão de ter cacos no quarto, na cama, no banheiro. Mesmo depois que a mãe varria pro canto do quintal e jogava junto com a sujeira da pia, parecia sentir os farrapos de vidro roçando o casco do pé e o dorso na cama.
Quando algo se quebra, um novo nasce. Em alguns dias de ausência do copo quebrado, logo depois aparecia outro de liquidação, novinho, que não tinha propostas de terminar como o anterior. Vinha com um amontoado de papel dentro, para amortecer a queda do caminhão de transporte que acabava no escorredor.
Quebrar chama a atenção. Faz barulho, som que espalha.
Sempre achei curioso o copo que um dia é copo e depois vira caco. Um dia nos beija e no outro nos corta os lábios.
Tento imaginar como seria beber num copo que já é caco. Não trincado, mas os próprios pedacinhos de lâmina de vidro. Beber e deixar ver escorrer.
Algumas coisas na vida são como os copos. Caem da mesa, se quebram num acidente que não dá para segurar. Derrama algo que tinha dentro, chama a atenção. Faz um barulho que se espalha. Um oco alto primeiro e depois mínimos tons agudos espalhando a dor. Quando se encontra com o chão, alguns cacos são grandes, visíveis cortantes. Esses a gente varre. Com cuidado, cata com a mão e não corta. Os pequenos, pouco notados, cortam depois, quando entram, ficam no pé e nos lembram daquele uno que quebrou e parecia já ter partido sem mais. Inflamam, são pequenos visíveis que brilham se observados com cautela de lince. Nítido que não dá para pegar, nem com cuidado dos grandes. Devem ser varridos com vassoura de pêlo, pois piaçava não pega, não joga pra fora da nossa cozinha.
Depois dos cacos, renovação. Outro copo é colocado no escorredor; mesmo sabendo que um dia possa virar caco, a gente beija, seca e coloca para escorrer.
Quando algo se quebra, os cacos vão longe. E os maiores são os menos perigosos.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Forrest Outback

Fui jantar em um restaurante australiano com um grande amigo. Sucesso por carnes vermelhas e brancas e também milhares de indicações, fomos e sentamos em frente um ao outro compartilhando gracejos e zombaria alheia. Era quarta-feira, meu dia fatídico e cheio de superstições.
Ele havia me convidado um dia antes, dizendo que a cebola era o melhor acompanhamento do mundo. Eu estava um pouco escaldado com promessas gastronômicas, pois uma semana antes comi pela primeira vez comida japonesa e não tive boas surpresas. Algo me dizia que eu nunca iria gostar dos peixes e molhos pretos e percebi que tinha tido uma visão futurista. Não gostei de nada, a não ser do saquê.
No Outback, o restaurante australiano da quarta, combinamos de colocar as fofocas instantâneas na mesa e debruçar sobre uma noite quente de verão em janeiro nossas sei lá o quê. Sentamos na varanda e eu sabia que o amor não estava sorrindo para nenhum de nós dois.  Estava em outro lugar, viajando deveras.
Ele estava e não estava. Eu, não estava há um tempo. E juntos ríamos e contávamos histórias conhecidas para acalentar o coração que esperava o frango Alice-no-País-das-boas-ervilhas.
Agachou sobre nossos joelhos quem iria nos dizer que a noite era branca. A garçonete de sorriso largo e dentes para frente nos disse seu nome e prometeu nos acompanhar na pequena mesa. Björk, Johnny Cash e Fiest embalavam. Corinne apareceu no meio do papo e nós, contávamos nossas (des)ilusões amorosas um ao outro, parando segundos para observar alguém bonito que passava
Ele, meu amigo, está numa fase triste. Dessas que não se sabe se o relacionamento terminou ou se ainda tem alguns pneus. Nas palavras ora tristes, ora esperançosas dele, me lembrei de já ter visto e presenciado essas arestas num tempo passado nem tão distante. Falávamos das músicas, das tristezas que elas nos trazem e das alegrias que uma boa trilha rememora ao embalar nossos dias.
Lembramos dos tempos de faculdade, comíamos a batata meio frita meio crua e dizíamos o quanto é difícil amar e ser maduro naquilo que é tão bonito para ser desperdiçado. Tudo era tão complicado, que nas palavras do meu amigo eu me reconhecia em alguns parâmetros. Sentia que a cada dia me afastava dessa ideia de franquia amorosa. Esse amor mesquinho que pensa em tirar proveito do outro e esquece da doação, da caridade, do dar companhia.
A garçonete, sorria e só uma vez o vi apressada. Não sei se é praxe da casa ou mesmo regra ser educado ao máximo com os que pagam, mas ela foi natural.
Depois do sorvete, ainda pairava sobre a mesa o resto de marshmallow e os resquícios de Amor não resolvido que depositamos sobre a mesa. Do papo que ficou sem terminar.
- Namorar. Estamos falando disso, eu soltei para Nathália, a garçonete.
Ela sorriu e contou-nos sua história. Enquanto eu digitava a senha do cartão e meu amigo riscava com o garfo o resto do creme no prato, Nathália disse que era casada, mas encontrou o seu outro amor na cozinha de um restaurante onde trabalhavam juntos.
Ambos eram casados. E se amaram.
Eu via brilho em seus olhos quando disse que estava reformando o apartamento ‘do nosso jeito’ e quando contou toda a trajetória que teve que percorrer para se separar de seu antigo marido para amar outro que conheceu entre os pratos. Ela se separou. O dos pratos também e agora estão juntos, com expedientes trocados e os corações andando juntos.
Ouvíamos atentamente sua história, até ela encerrar o atrito da noite parecendo ter ouvido toda a nossa conversa desde as nove.
- O amor é simples, disse. E depois sorriu.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Muda


O ano, às vezes, muda antes. Bem antes.
Em tempos que termina-se a universidade ou se encontra um novo amor nessas baladas literárias feitas no fim de novembro, o ano pode ter terminado e a gente nem assim ter percebido.
Era início de dezembro, há dois anos, quando liguei a tevê móvel no trabalho e encontrei uma música, tocando às seis da manhã. Tilintava acordes doces, um lalalá de alegria e uma nova alma oferecida naquele momento.
"quando a chuva caiu, eu me molhei nela"
Duas semanas depois, veio uma ilusão feliz, interessante em alma, que me mostrou que a vida muda previamente sem prescedentes nem avisos; e sem esses fogos barulhentos com mais obrigação que alegria.
Assim como pode mudar antes, pode segurar algumas dores permanentes. Ela é senhora, não nossas ceias.
Confessamos que as festas quase sempre são desesperadas, repletas de anseios de alegria e brigas enrustidas. Isso não nos interessa.
Bem antes do tempo final, caiu uma chuva. Para purificar-nos. Vinha das calhas sujas do telhado, debandava pelas valas, despretensiosa de vaidade. Vinha do céu, para anunciar antes que a vida muda quando bem entende.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Eu posso voar...

...foi o que o menino disse enquanto pintava, dias após começar no segundo ano do primário. De calças ralas, blusa surrada e pés sujos num chinelo de pano, continuava pintando a casa-sapato.
Tia Nininha sorriu ao ouvir estas palavras, que soaram de maneira doce, desse menino que vira há algumas horas brincar lá fora, no pátio. A moça, recém-formada no magistério, lembrou das aulas de psicologia aplicada à educação e sem titubear lançou:
- e como aprendeu?
- A voar? perguntou, quase interrompendo Nininha
- Sim; a voar
- Não disse que sabia
Fingindo esquecer a colocação, desviou o olhar; com um sorriso mais simpático que verdadeiro, pegou na mão do menino e incentivou-o a entreter-se com sua atividade e com outros pensamentos.
- Vai, pinta!
Outro aluno pegou um lápis colorido e retomou sua obra. Antes, ouvia a conversa da professora com o menino.
Do desenho, o cheiro do álcool de mimeógrafo agradava a professora nova. Nininha sentiu os joelhos estalarem. Soltou um 'uff' ao esticar as pernas e levantar. Viu Sandra, linda, de pele parecida com cera, moldada cuidadosamente com a luz do fogo e mãos cautelosas. Segurava três lápis coloridos. Um verde, outro azul bem claro e um rosa. A mão esquerda coloria o sapato em forma de casa, de laranja. Apesar da cor forte, a menina sabia a força a ser aplicada no desenho, fazendo com que a pintura se tornasse suave.
- Lindo, Sandrinha
- É da cor da minha casa, fessorinha
Como as crianças são cheias de atenção, pensou Nininha. Refletia o quanto esses fatos, de trabalhar e perceber os pequenos, a impulsionaram em sua decisão. Talvez, possa ser de forma inconsciente, mas de alguma maneira, que o que já está feito, serve de modelo a ser seguido por quem chega mais tarde.
Ao mesmo tempo, ao pensar nessas protuberâncias, remeteu também toda sua reflexão ao curso de psico-aplicada e a ênfase na educação, que seria completa somente com essas trocas patéticas nas salas de aula. Engrandeceu-se rapidamente e pousou as mãos nos cabelos da Sandra, que retribuiu com um olhar branquinho.
Apesar de ser uma quinta-feira, de inverno, o dia estava quente.
- Terminei professora! Disse Sandra.
Indo até a menina, Nininha perguntou quem mais havia terminado. Ouviu uma negativa em coro. Não apressou-os.
- Quero todos bem bonitões
- O meu está lindo professora. Bonitão, disse a menina prodígio. E realmente estava. A pintura da menina estava demasiadamente enfeitada e com uma coloração em degrade. As cores eram o chamariz da casa, do desenho e nenhum retoque estava faltando.
- professora! Era o menino que sabia voar – terminei!
E entregou o papel com a casa-sapato, pintada em tons de cores ocres.


Segurando com o braço um calhamaço de papeis e abrindo a porta do apartamento com outra mão, Nininha entrou em casa. Nina, por si. Usava o diminutivo apenas com os alunos do primeiro grau e limitava-se a Nina com amigos mais próximos ou com parentes menos conhecidos.
Morava com mais duas amigas, colegas diria. Repartiam o aluguel e algumas angústias. Após despejar as folhas desenhadas sobre a mesa, jogou a bolsa na mesinha de centro de sala e deitou parte do corpo no braço do sofá, coisa que sua mãe odiaria se pudesse vê-la e dar represálias.
Eram tantos desenhos, tantas casas-sapato para olhar e elogiar um a um. Os pequenuchos gostavam de ver a caneta vermelha dando-lhes confiança de um bom trabalho e algumas florzinhas desenhadas junto às letras. Nininha gosta, Nininha quer ver bonito.
A noite estava quente. Olhou pela janela e viu ao longe a torre da Paulista brilhar em cores vivas e cintilar uma a uma, para cima para baixo. Desde que veio de Taubaté, sentia-se importante ao olhar para o centrão e sentir-se parte dele. Embora trabalhasse em região metropolitana, afastada do centro, fazia o mais importante dessa história de superação que era morar ali. Ter uma casa no terceiro andar do Paraíso que permitisse ver a cidade acesa e livre para ela.
Uma de suas conquistas interiores era ter um namorado, coisa que até agora não conseguiu conquistar nesta grande metrópole de galinhas urbanas. Era dessas que inconscientemente acreditava que o homem que a faria feliz viria depois de uma catraca eletrônica e um dia cheio. Sentaria ao teu lado no metrô, roçaria a perna peluda na sua, ambas escondidas em calças jeans. Jamais considerou besteira essas particularidades amorosas que a faziam ensaiar um encontro platônico que talvez nunca conseguisse concretizar.
Durou apenas alguns segundos, o olhar parado para fora; logo Nina virou o dorso cansado e estalou os dedos das mãos inclinando-as para trás. Estafada estava, mas ainda queria sentar e viajar no desenho dos alunos da tarde.
As crianças! Ah, lembrou das crianças e rememorou a inocência contida naqueles aluninhos tão cheios de problemas familiares banais. Crianças da cidade, com tantos compromissos e aulas de inglês, mas que na sala de aula deixavam transparecer um pouco do que realmente ainda são.
Pegou um desenho nas mãos, o primeiro do monte de sulfites. A casa alegre era verde, com plantas pintadas até o céu. Galhos que se uniam aos pássaros traçados com giz de cera preto, enormes, com duas asas. Os pássaros eram asas; o desenho era a visão daquela criança; Henrique era o que estava escrito no verso da folha.
Pegou outro. A casa era preta. Preta e borrada em traços longos feitos com lápis esgarçados pela força do autor. Outra casa, rosa agora, com bordas.
A quinta casa era marrom. O quintal cinza e as nuvens beges. Era do menino. No canto da folha, um pássaro, dando outros horizontes para a casa em forma de bota. O detalhe era que o pássaro estava morto, embora estivesse em pé com um buraco enorme que abria seu peito. As asas, escancaradas, pareciam estar diante de um predador faminto.
O pássaro estava morto,  embora estivesse com as asas abertas e ereto em seu corpo de ave rapina.

continua...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Dia 5

Foi o dia do meu aniversário. Quer dizer, é ainda, sempre será. Pode ser que um dia quando todos os meus amigos e antepassados estiverem ultrapassados, essa data possa ser esquecida quando configurada à mim. Porém, pelo que consta, são minhas bodas anuais individuais enquanto eu exista ou até que alguém, depois de eu ter virado pó, se lembre de mim.
No caso, ontem, vinte e seis largas primaveras; passei um dia corrido, mas com pequenos presentes ocultos. Não teve parabéns, mas teve bolo, de abacaxi. Fui trabalhar e consegui evitar que mil dólares fossem descontados da minha folha de pagamento. Estive fora de casa, por motivos maiores, porém comemorei o dia com pessoas no trem, táxi e numa sala técnica de produtos eletrônicos.
Muita gente me parabenizou, ganhei abraços de gente nova, amigos recentes e pessoas importantes em sentimento. Mensagens escritas pelo celular, telefonemas, presença e colegas que sabem do seu aniversário pela rede social, bombou.
Agrego meu aniversário ao Natal, uma data que eu considero deveras bonita, enfeitada e cheia de reciprocidades gratuitas. É engraçado pois, sempre nessa data, no comecinho de dezembro as ruas estão ainda sendo iluminadas pelas luzinhas pisca e meu aniversário me traz um pouco desse clima que se aloja nas ruas, começando a se iluminar. Eu não me imagino fazendo aniversário no meio do ano, sem ver essas luzes que de alguma maneira anseiam por melhoras. Já me acostumei com aniversário pré-natal.
Quando eu tinha nove, dez, catorze anos, essa já era a data das férias. Sempre aplicado e nerd cdf, saía em férias antes dos outros da sala e viajava para o interior da cidade. Lá ficava até fevereiro e sempre chorava quando tinha que voltar. Na ida eu também chorava, mas depois não queria ver os prédios daqui novamente. Nessa data, de dia meu, sempre me coloco à refletir, me empolgar com novos planos, correr nu nas ruas, ter um novo amor; em contraponto, problemas familiares, conflitos existenciais, retórica não convincente me trazem lembranças nem tão docinhas. Faço uma análise pessoal e vejo que estou perto dos trinta e nem um livro publiquei ainda. Antecipadamente me desespero, mas logo percebo que há tempo para muita coisa ainda. Inclusive para isso.
Sempre olho no espelho. Sempre. Não é um ritual, mas guardo um pouco da minha imagem, de como estou com certa idade. Coisas de homem. No ano passado, tive um aniversário de rei. Participei de um evento que reuniu centenas de jovens e no fim do evento, TODOS cantaram parabéns e gritaram por eu fazer vinte e cinco anos. Porém, o que mais me tocou, foi chegar em casa e ter amigos de anos, de cuecas e banhos me esperando com um bolinho e uma vela micha sobre ele. Chorei.
Nasci às 10h40 da manhã e nesse horário sempre me volto para o sol. Eu gosto de ficar quieto, de bruços sobre essa data minha, só percebendo quem vai lembrar; quem vai dizer que a saga de Sagitário está aberta e lembrar 'Pô o Dani faz aniversário esse mês'. É lindo e gratificante isso. Tenho marcado várias datas de aniversário na minha cabeça. De amigos, família e curiosamente de pessoas que pouco tenho contato, mas que por algum motivo fixou-me a data desse nascimento alheio. Curioso também são as pessoas que fazem aniversário no mesmo dia que eu. Elas sempre lembram e, me lembram, do meu aniversário.
Não sou muito ligado em astrologia, embora eu identifique em outros sagitarianos, pontos de personalidade idênticos aos meus. É comum chover no dia 5 de dezembro. Minha mãe me contou que quando nasci, choveu e posso afirmar que tenho grande sensibilidade com a chuva. Serena, torrencial, firme ou garoa, ela me encanta.
Confesso que essa etapa no dia do aniversário, de atender telefonemas, ler milhares de mensagens de paz, saúde e mimimi me cansam um pouco, porém resgatam que há pessoas, há quem olha, te vê, lembra e tira um pouco do seu tempo para ligar, enviar mensagem e... lembrar de você apenas.

domingo, 4 de dezembro de 2011

A sala de Deus e o Diabo


Deus e o Diabo moram em uma mesma sala. Estreita, pequena, mas que os comporta inteiramente em suas necessidades.
Deus e o Diabo moram em uma mesma sala, compartilhando suas vidas numa convivência fraterna, mesmo distante em imaginários e pragmatismos universais. Gostam dos mesmos livros, com pequenas divergências entre autores; Usam dos mesmos talheres e opinam diariamente sobre a cor da parede da sala, com um tom amarelado fosco, com mesclas azuis bem claras que vão do chão até parte do teto, coberto de escamas. É assim a parede da sala onde mora Deus e o Diabo.
Tudo se tem na sala e tudo se encontra lá; e aí que se dão suas virtudes em serem, ambos, cultuados por toda a humanidade de fé.
De lá, da sala estreita, eles notam os humanos, manipulam os seus dias e ora ou outra, trocam gracejos sobre as peripécias de alguns pouco experientes.
Da janela frontal, próximo ao candelabro de cera, se vê um jardim florido, com crisântemos e margaridas, onde as estações revezam entre os meses. Deus escolhe o inverno e o Diabo anuncia o verão. Na primavera, o Diabo prepara as flores para que Deus possa murchá-las e derrubá-las pelo gramado dando-as outro destino. Vida.
Ambos moram na sala, dormem na sala e comem na sala. Preferem alimentos ricos em fibras e que não ataque o intestino. Evitam gorduras e condimentos.
Diariamente, ajudam um ao outro no trabalho diário e sempre que possível, lavam o chão com água e sabão.
As telas coloridas da sala reportam ao cotidiano dos homens os seus atributos diários. Deus prefere os sinais, os passos e a fala. O Diabo, o sorriso, o olhar e o pensamento. Ambos se completam, trocam repentinamente de nome e gostam de enganar os que se julgam inteligentes. Respeitam os sábios, mas não os ignoram em suas artimanhas.
Deus e o Diabo moram em uma mesma sala. Ambos não têm sobrenome e há de usarem muitos nomes quando se fadigam de seus arautos pessoais. Cada um tem seus amigos e ora ou outra, numa tarde de domingo ou terça, aparecem na sala quase sempre sem muitas expectativas. Tomam uma cerveja, falam de Sócrates, ciência e sexo. Acabam por haver amigos em comum, muito dispersos, de longa data.
Moram no atraso, na janela entreaberta e nos parênteses familiares. Trabalham duro nas intrigas de família, no nascimento da criança e nas salas de aula do ensino médio.
Um não vive sem o outro. Inventaram o amor, o ódio e a saudade. Alguns desses foram tidos como conseqüências rudimentares de ausência, mas vivem a experimentar outros diversos atos intrínsecos da alma.
Deus e o Diabo moram em uma mesma sala. Assistem seriados, invejam os autores e quase nunca saem para se divertir.
Fazem com que os homens que buscam de seus santos refúgios, imaginem entender um pouco da vida de ambos, que moram em um mesmo lugar e se alargam de dar atenção aos que nele se refugiam. Não é de costume misturar trabalho e vida particular.
Seus vizinhos teimam em taxá-los. Em dizer que um é mau e outro bom. Ambos, Deus e o Diabo são amigos e só dão-se a existir quando é lhes dado permissão. Não deixam vir às margens da virtude quem é quem nessa relação.
Por ora aparecem calúnias a respeito de Deus e o Diabo. Assuntos absurdos, de ordem categórica e audaz. Eles não respondem às essas miudezas ignorantes e continuam pagando suas contas.
A casa tem mais cômodos, mas os dois dividem suas diferentes manias numa mesma sala. Uns dizem que Deus mora em cima e o Diabo em baixo. A sala é o lugar onde moram e ainda não há interesse em mudar.

domingo, 20 de novembro de 2011

Todos querem ser Britney Spears

Era no quintal de casa, na sala, com fitas VHS. A minha adolescência foi forrada de pop americano, de N’Sync, Aguilera, BSB e Britney Spears, mas com essa última tive um caso de amor.
Apesar dos pesares, sempre gostei das lôras: Xuxa, Eliana, Britney. Era difícil assumir que gostava dela. Na escola sofria o que hoje tacham de bullying, mas gostava mesmo dela e não era por modinha. Era mais forte do que eu. O primeiro videoclipe, eu vi em pedaços num programa da Xuxa e depois comecei uma verdadeira saga para encontrá-lo na MTV. Ficava acordado até tarde, gravava programas inteiros e nada de passarem o maldito “Baby... one more time”. Passavam o novo clipe, da praia, mas esse eu não queria, embora essa foi a primeira coreografia que eu me meti a aprender, sozinho. Era estranho, pois até então eu gostava de artistas nacionais (como “É o tchan!”) e dançava nas festinhas de família. E o sinal de estranhamento apitava, nos outros.
Eu tinha quinze anos, não tinha internet, mas tinha a MTV, que era o santo canal que pegava no 32 sintonizado pelo vídeo cassete. Lembro-me de ter aprendido isso na escola que até então eu imaginava que a emetevê era só para quem tinha o luxo das TV’s por assinatura. Ah, tinha um amigo, o Galvano, que compartilhava comigo das aparições de Britney na tevê e no bulliyng supranatural da escola. (Quem mandou gostar de pop!?)
Consegui o clipe, mas metade dele, que eu gravei quando passou no TOP 10 E.U.A, e passava aos finais de semana. Quando vi a apresentadora anunciar o primeiro lugar, tive tempo de pular do sofá, procurar o VHS na pilha de fitas, enfiar no vídeo cassete, encontrar um lugar para gravar, pois tinha outros clipes lá e eu não podia gravar por cima, apertar o REC, que demorava uns infindáveis três segundos para obedecer. O vídeo cassete fazia um barulho, fazia outro da fita rodando e aí aparecia a bolinha vermelha piscando no visor. Gravei da parte que ela sai do corredor da escola e depois dali via essa metade clipe todo dia. Por telefone, já contava para Galvano que consegui o clipe. Trocávamos longos telefonemas quando ela aparecia ou quando anunciavam que a princesinha iria cortar o cabelo ou gravar um novo clipe. Novo clipe? Meu Deus! Quando o anúncio era esse, tudo tinha um novo sentido na vida. Lembro quando estreou “(You drive me) Crazy” e nós comentávamos coreografia, música remixada para o clipe e cabelo. Compramos o CD, que tinha uma rosa estampada nele. Tudo parecia ser para o público feminino e/ou para os afeminados. Ou para os dois.
O fato era: Britney já tinha entrado em casa e dançado comigo na sala de casa. Era minha melhor amiga, aquela que eu achava perfeita e ai de quem falasse algo contra. Os shows que ela apresentava, remixados e com coreografias puta-foda. Os tempos mudaram.
Eu JAMAIS poderia dizer na escola que gostava de Britney. Tinha gente que me olhava com repulsa quando eu dizia que ela era linda, que eu adorava as músicas e que queria dançar igual. O povo ria. Ri até hoje na verdade.
Além do Galvano, tinha o Lopes, que foi outro dos meus amigos que eu conheci quando toquei “Oops!... I did it again” numa festa de quinze anos e o vi correr pro meio do quintal-pista e perguntar: “Nossa, você gosta?” e nasceu uma amizade que durou anos. Um dia subindo a rua de casa, ele me disse que conheceu um pessoal de São Paulo que dançava Britney. Um grupo de Guarulhos, longe pácaralho. E todo sábado a gente ia para lá, quando passamos a dançar no grupo oficial de Sampão. Puta meu! Era uma realização dançar Britney. A gente dançava oops, dançava crazy e fomos sabe onde? Na MTV, dançar num programa que chamava “Em busca da fama”, que tinha o Max Fivelinha e o Levy como apresentandores. Quanta gente, quanta coreografia, quanta bichona. Dançamos num palco móvel, um grupo de oito pessoas num espaço crítico. Esse programa foi visto por T-O-D-A a escola onde eu estudava. E agora eu tive que enfrentar radicalmente xingamentos verbais entre outros insultos. Eu (tentava) me convencer que aquilo não me atingia e tinha que fazer pose para dizer que estava tudo bem. Não estava. Eu gostava mesmo dela e das músicas dela, mas o povo queria era xingar, tirar sarro, bichinhas enrustidas.
Saí do cover antigo e entrei num grupo de dança profissional, que dançavam todo tipo de pop americano e eu ensinei Britney, ‘Me against the music’. O grupo era mais maduro que o passado, porém fiquei pouco tempo nele. Deu para dançar em eventos, em cima de caminhões, em showmícios, no Porteira dos Pampas, mas percebi que era eu quem realmente tinha mudado. Meio Sandy sabe?
Os tempos mudaram, novamente. Britney começou uma série de escândalos raspando a cabeça, tendo filhos e sendo vista sem calcinha. Confesso que isso não me afetou, porém eu já com meus vinte e poucos comecei me interessar por Norah, Yael, Corinne, sem forçar. Aos poucos fui esquecendo Britney. Hoje, suas músicas não têm o mesmo impacto no meu set-list, embora eu ainda ouça as nostálgicas no meu quarto.
Britney também mudou. Hoje não dança mais como antes e como sempre aceitei seus playbacks, dançando era o que importava. Percebo que hoje ela é uma artista cansada, do tipo ‘não quero mais ser famosa’ porém para os Galvanos, Pires e Lopes de hoje ela ta linda, canta muito e ahazza no palco. Esses dias comentando com Galvano na rede social, que faz séculos que não o vejo, ele me disse que ia ao show em São Paulo, pois eu ‘tava ligado’ o quanto ela fez parte de sua adolescência. E eu sei mesmo. Isso é o que importa.
Na época do Rock In Rio, eu ouvi a transmissão ao vivo pela Jovem Pan e gravei em fita cassete. Me dava um frio na barriga saber que eu não estava lá. Minha mãe não deixou. Eu conheço um menino do bairro, que ADORA a Britney e tem seus dezesseis anos. Os amigos dizem que ele sou eu, uma espécie de cria, meu filho. Quando olho para ele, com todo o brilho no olhar por uma artista já meio cansada, percebo que para ele não, ela é a mesma Britney de antes. Ela ta em forma, no auge, linda como sempre. São outros olhos que vêem isso e aí ta o segredo todo.
Fui ao show em São Paulo, claro, mas vi uma loira meio insatisfeita com tudo. Fiz até uma matéria sobre e alguns fãs criticaram e defenderam-a com unhas e purpurina. Lá, no show, vi atrás de mim um menino magrinho, com uma câmera na mão. Chorava e cantava todas, inclusive as de dez anos atrás e meu senso crítico nem ousou condená-lo, pois toda magia que me cercava, o cerca hoje além de outros milhares por aí.
Todos temos que ter um ídolo. Falando hoje, do jeito que falo sobre Britney Spears, parece que nunca gostei, mas antes de muito fã de quinze hoje, eu fui um fã com mais de vinte e cinco.
É engraçado, falar de Britney, adolescência e de hoje. Tudo muda bastante.