domingo, 26 de dezembro de 2010

O sol

Os olhos que não se abrem para o brilho. Ele está, sobre as pálpebras, está. Não cura, ameniza.
Sobre as flores, paira a sabedoria dos poetas e acima do céu, que entre dias é cinza, entre outros, azul, mora o mistério que abre os caminhos ante a escuridão. Não digo mora, mas fica, nasceu e vive reinando por ali.
Mortal e vívido, entre frestas de madeira, no caminho, nada dorme e acorda homens. Chama-os ao cansado fardo de encarar a terra. Os pássaros e o canto dos pássaros acompanham a cor da vida, anunciam o fim da noite, que pode ter sido boa, mas foi negra. A vida plena é amarela. A cor da alegria é amarelo, amarela. O, a.
O dia mais feliz tem sol, e não o sol, mas a obra dele. O homem é venerado por suas obras e com o sol não é diferente. Não que seja um homem, não tem brilho para tal. O sol que se vê daqui é aquele que outro amado vê, ao longe.
O sol que ilumina a frente da casa é o mesmo que ilumina os fundos. Os raios que aquecem são os mesmos que queimam. E todo dia o mestre está lá, do canto, vendo, mirando. Cumprindo sua obra.
Enquanto há estrada, a chuva molha e o sol remonta. O sol é a única proeza da natureza que pode enganar e encantar. Uma clara verdade que não se vê. Um ciclo.
O mesmo dia de agrado, de raios que iluminam os quartos, as ruas e as nuvens, é o mesmo dia que a mãe chora pelo filho, que se perdeu. Neste dia, também há a obra do sol.
Ilumina as lágrimas, traz uma dor de luto e assiste uma criança brincar perante o mar. Aquece o orvalho. É o mesmo, sempre. Elo de amor, luz de tristeza que paira sobre o paraíso. Ilumina as almas, os animais e os bichos de pele preta.
Canta-se ao redor do mundo, em línguas distintas. Vozes de gente sem vida, de corpos magros arrebatados de fé numa mazela física de melancolia. Irmão perdoa irmão, gente mata gente, neve evapora e se torna ar. O sol passa os raios, sua obra, seu caminho de quentura. Escaldante, livre, ameno e sem fim.
O mesmo calor que ajuda na colheita num canto dum mundo, abre horizontes para um homem que procura um grande sentido num dos seus dias, doutro. A obra, amarela de alegria, caminha. Ninguém vê, nem se lembra. Está no canto da memória.
Dias que merecem lembrança e aqueles que não se apagam. Não memoriza se no dia de maior tristeza havia sol, não se lembra se na escolha da alegria havia a obra do sol. Mesmo dia, ou noite, de olhos fechados, ou sem nomes para um, ou, para um que seja outro.
Caminhando solitário, tendo um amor de datas, perdendo ou ganhando, há um sol amarelo.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Crônica de Natal

Lembro-me bem quando após um dia cansativo vi pendurado em frente às duas janelas de casa um desses “pisca-pisca” natalinos. Minha expressão de cansaço mudou quando vi a cena: todo torto, mal colocado e com algumas luzes queimadas. Percebi que fora meu irmão mais novo o autor. Sorri sorrateiramente.
Lembro-me bem quando andava com ele na rua e calados observávamos as casas com resquícios de Natal. Algumas iluminadas no sótão, outras na varanda, outras no quintal. Traziam o imaginário de um bairro notoriamente feliz, pela luz que se expandia. O pequeno ao meu lado vislumbrava-se com as luminárias pensas colocadas par em par no meio das flores de canteiros altos.
- Eu acho bonito as casas com luzinhas! E olhou para mim
Olhei para ele e percebi que esperava uma confirmação.
- Sim, são muito bonitas! Respondi
Tornou a olhar para as casas e suas telhas e andar silencioso ao meu lado.
Lembro-me bem quando meus pais, a ponto de se separarem, mudaram-se para o interior e me deixaram cuidando, daquele casarão descuidado repleto de memórias vivas. Tão vivas que tomavam espaço em meu quarto. Dos dias inteiros com luzes apagadas e quintal repleto de folhagem seca. O pequeno foi junto.
O natal chegara mais cedo este ano e minha família voltou com ele. Não suportaram as infindáveis tardes ensolaradas daquela cidade interiorana. Trouxeram doce de abóbora, coco e brigas na mala. Lembrei-me também das noitadas que meu pai passava na rua e ao voltar embriagado da lua, gritava no portão para que o deixassem entrar, embora estivesse com as chaves no bolso. Das discussões ouvidas do banheiro e das ofensas lançadas aos ventos.
Lembro-me bem do irmão do meio atrasar o relógio do despertador para perder aula e não ter condições de passar de ano. Tudo para chamar a atenção de alguém, talvez do pai. Preocupava a mãe com suas respostas imediatas e seu desempenho na escola. O que menos a preocupava, era o mais velho, esse que vos escreve, a não ser por sua ausência amorosa e complicada, segundo as leis da sociedade. Talvez fosse o que mais a preocupava.
Lembro-me bem, também, de não ouvir o som de vozes ou de qualquer outro ruído qualquer dentro da casa, embora não estivesse silenciosa.
Parado no portão, eu enxergava somente o brilho por trás daquele pisca torto e sem-vergonha. O brilho de uma família que volta a iluminar alguma vida nessa rua tão apagada e suja. De onde veio esse brilho, senão do mais inocente e necessariamente o mais passivo de toda essa relação difícil chamada família. Talvez a mais complicada das permanências, porém a mais gratificante das experiências.
Lembro-me bem quando uma lágrima caiu, ao vê-lo torto, pendurado e inferior ao das outras telhas, mas que ainda fazia algo que merecia atenção: brilhava.

domingo, 7 de novembro de 2010

Coletivo

Viu que faltavam dois para entrar. Não correu e ainda esperou um deles subir. Cansado, depois de um dia inteiro de trabalho, passou a catraca automaticamente, sem perceber e percebeu que não havia lugares para sentar. Apesar de não estar cheio, o coletivo estava com os assentos todos preenchidos e sua cabeça repousou no braço, que antes se pendurou no ferro.
Seus olhos fecharam, seu pensamento não foi muito longe e tudo o que queria era tomar um banho e dormir. Estava com fome, mas o ritmo do dia diminuía conforme o coletivo avançava sobre a cidade.
O carro, este que o deixou na mão, deveria ficar pronto só na semana seguinte e o ônibus grande seria seu meio casa-trabalho durante mais alguns dias. O celular vibrou e ao atender, a ligação caiu. Era a mãe, que deveria perguntar o que queria comer no jantar.
“Qualquer coisa” pensou sem balbuciar e tentou ligar novamente para casa. Desistiu.
Um homem, de baixa estatura, esbarrou em seu sapato. Sapato preto, social, chato. O homem desculpou-se sem encará-lo e ele sem querer percebeu que as unhas do baixinho eram adoentadas, uma bactéria, ou um vírus as tinham deixado pretas. Por um minuto, tentou lembrar a diferença entre bactéria e vírus, mas logo esqueceu a charada e deixou que o homem fosse para perto do cobrador. Era meio velho, tinha entrado pela porta de trás, mas não passava dos cinqüenta e poucos.
Não notou que perto do cobrador, um banco estava vazio e algumas pessoas entravam e logo alguém ocuparia aquele lugar. Quando viu, o coletivo avançou e ele deitou novamente a cabeça no braço.
De longe, semáforos, casas e gente nos bares. Agora, as pessoas já apertavam seu corpo sobre o banco a sua frente. Estava cheio e o calor aumentava.
Novamente o celular. Agora, um amigo. Também desistiu e mandou uma mensagem confirmando um churrasco no domingo. Um resto de alegria o fez sorrir pelo canto da boca. Resolveu ligar para o camarada e ao procurar o nome na lista de telefones, passou pelo nome da sua última namorada. Aline.
Por um minuto, já em outros números, lembrou que, da última vez que seu carro estava com as rodas travadas, voltara nesta mesma linha de coletivo com Aline.
Eram quase sete, horário de verão, ainda tinha sol. Um resto de.
Levantou a cabeça do braço vermelho e arrumou a gola da camisa. O banco perto do homem da unha estava agora ocupado. Uma moça, de traços similares ao de Aline, parecia dormir. Sua cabeça estava muito reclinada a ponto de bater o queixo no peito.
Seu pensamento agora voou e lembrou com doçura de sua ex-namorada. Lembrou de sua boca, de suas mãos quentes e que há um tempo, há pouco tempo, aliás, estavam juntos.
Olhou novamente para a moça sentada, mas apenas viu o cabelo cobrir seu rosto. Pensou novamente ser Aline, mas não. Agora, ela estava somente na agenda de seu celular.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Coletivo

Sentou. Conseguiu sentar e regozijou-se por apertar o passo e dar uns empurrãozinhos enquanto entrava naquele coletivo. Empurrões pequenos, que podia subtender-se que outros a tivessem empurrado antes. Suspirou e soltou pesadamente o ar. Arrumou o cabelo -, mania de mulher, ajeitou a bolsa no colo e jogou os pés entrelaçados para baixo do banco.
Seu olhar descuidado mirou a mão de um homem, que tinha a unha do dedão deveras enferrujada, emputrecida, feia. Voltou o olhar para o chão e novamente apertou a bolsa. Sentiu a garrafa de água, vazia, fazer volume dentro da bolsa. Ficou assim durante alguns minutos e o pensamento voou ao trabalho, que precisa de novas rotinas, um pouso no curso que pensa em fazer, no Dom Casmurro que precisa terminar de ler. Ouvia os murmúrios de conversas desinteressadas, o balançar do ônibus e o reflexo dos ferros repletos de mãos cansadas. As mãos dizem muito de alguém.
Novamente, seu olhar sem cuidados, saiu do vão enternecido de efêmeras memórias e viu, sem querer, um semblante conhecido entre as tantas feições daquela tarde pós trabalho. Era seu amor, ou seu amor do passado, ou que deveria estar e ser do passado, ou que nada de amor, ou... Baixou a cabeça repentinamente enquanto sentiu um frio descer da nuca para a espinha.
O homem da unha enferrujada, emputrecida, feia, mirou seu susto. Ela viu, segurando num desses ferros de reflexos, um dos poucos que amou durante sua vida. O coração acelerou, ficou desajeitada no banco, enquanto sua mente trazia como numa roleta russa, ele beijando-a no parque, ela apenas de calcinha sobre o corpo dele, a cesta de doces, os chinelos nos pés arredondados dele, o curso que fazia na faculdade e que já tinha terminado. Sua boa memória a irritou um pouco.
Estava bonito, apesar do cansaço e da barba, estava bonito. Pelo pouco que conseguiu olhar sem que ele a percebesse ali. Sua nuca inclinou-se tanto a ponto do queixo encostar no peito. Percebeu isso quando o ônibus pulou e a cabeça deu um tranco para cima e depois para baixo. Sentiu dor, mas não sentiu.
A mente agora aterrissou e pousou num campo seco, num deserto onde não havia mais parque nem chinelos. Era como se, um mar de terra a engolisse e ela não pudesse saber onde está. Ao mesmo tempo, neste deserto, tinha flores e flores coloridas, mas com um cheiro insuportável. Os olhos eram agradados pela beleza e o olfato invadido pela sensação de envenenamento.
Estranhou. Ele nunca pegava ônibus, mas imaginou que mais uma vez estava sem carro, visto pela última vez, quando as rodas travaram e isso serviu de pretexto para que os dois viessem abraçados no banco de trás do coletivo. Coletivo este, que agora leva ambos, ele e ela e que assiste o destino sorrir ao ver os dois corações dentro de um mesmo espaço, com outras pessoas sem poderem se amar.
Deixou o cabelo cair sobre o ombro e cobrir parte de seu rosto, para que, este, fosse uma incógnita para aquele que um dia ela amou e sorriu para revelar toda sua beleza.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Imagem é tudo. O cinegrafista, nada.

Para responder rápido (e refletir):

1. "Diretor de Titanic"?
2. "Câmera (cinegrafista) que fez a imagem de Rose e Jack furunfando no calhambeque?"
3. "Apresentador do Altas Horas"?
4. "Câmera que foca o entrevistado quando ele entra pela direita do palco"?


Putz, assim como a palavra 'cinegrafista', até as perguntas são complexas.


Por essa sua cara azeda ao pensar no nome dos fulanos das perguntas 2 e 4 que escrevi este texto.


Imagem é tudo. O cinegrafista, nada. Já parou para pensar que por trás de tudo que vemos na TV tem uma pessoa? Parece idiota, mas há certo sentido imaginar o autor da imagem gravada por trás da tela da televisão. Quase sempre esquecemos que aquelas imagens que entram pelas fechaduras, ultrapassam janelas, saem da boca de leões, foram câmeras que registraram. Tipo: você assiste a uma novela ou a um filme e não imagina que os movimentos, a imagem gravada ali foi feita por um camarada, segurando firme a máquina de gravar, no caso a câmera. E se caso você lembre, não dá muita importância para isso.
Algumas experiências pessoais me confirmam tal fato. Ter uma rotina de gravações com vários temas, vários lugares inclui também gravar várias pessoas e aí se encontra o problema. Para quem não sabe, trabalho com produção audiovisual para dois portais, de grandes veículos de comunicação no Brasil: um deles, o jornal O Estado de S. Paulo (http://tv.estadao.com.br) e o outro, o Portal MSN (http://video.br.msn.com/browse/tvestadao)
Não somos uma emissora de TV e por isso o forte desses veículos são matérias impressas, conteúdo on-line e imagens estáticas. No caso do MSN, há destaque para o serviço de mensagens instantâneas. Embora o vídeo seja um grande e revolucionário passo na construção midiática desses veículos, ainda estamos engatinhando no audiovisual online (mas, não considere que estamos atrasados), porém, quando um vídeo se destaca, grande parte dessa mídia se volta para tal e momentaneamente o audiovisual se torna importante, mas nada supera o impresso, claro, considerando o veículo jornal. Porém, não escrevi esse texto para discutir a importância do vídeo, mas do cinegrafista, no caso: eu. Eu e tantos outros milhares espalhados pelo mundo.
Há créditos para o nome do veículo, para o entrevistado, conteúdo da matéria, diretor, mas para o cinegrafista, o cara que gravou e que conseguiu imagens, entrou na boca do bicho, passou a bala de raspão, para esse não existe.
Breves relatos confirmam isso: Fui gravar o presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles, na sala de seu gabinete na Av. Paulista. Neste dia, eu e mais um companheiro de labuta montamos, iluminamos e preparamos todo o circo. As assessoras (sempre loiras) ofereceram chá, café, água, leite desnatado para os repórteres. Para nós, só depois que acabou, para não falar que esqueceram.
Outro dia, na cobertura das eleições, ao gravar o comentário de Eduardo Suplicy, percebi que ele ficou tão encantado com a repórter que nem sequer notou minha presença, gravando-o em sua frente. Não digo que o motivo foi a repórter, mas o fato de, ele nem sequer notar a câmera preta, luz, microfone e eu. “Essa matéria vai para onde, rádio!?” perguntou. Sim! 'A câmera na verdade é um super gravador que faz com que o ouvinte veja sua imagem através do rádio.' Será que não reconhecem uma câmera?
Outro fato interessante é quando perguntam: “Tá gravando?”
Os méritos pós-publicação vão para o repórter, ou para o apresentador. Atribuem tudo a ele com um único referencial: o “vídeo”. “Parabéns pelo vídeo, fulano!” E esquecem-se do cinegrafista, do editor e de todo trabalho que foi para finalizar o processo e finalmente assistir a produção.
Engraçado também que, quando a pauta é arriscada, como entrar numa jaula com emas ferozes, (para não usar de novo o exemplo dos leões) o medo sempre fica com o repórter. O cinegrafista fica quietinho, não chama a atenção nem das emas.
Essas emas estão por toda a parte. Não percebem o trabalho complexo para fazer um vídeo de qualidade. O que mais irrita são os ‘amadores’ que querem ser profissionais. Não sabem fazer, não sabem gravar e gravam de qualquer jeito, sem enquadramento, luz e eixo. E no final, dizem: “Tá um pouco tremido, mas dá para ver!”
Um cinegrafista jamais assina uma matéria, palpita na pauta ou sugere uma pergunta, mas um jornalista se arrisca nas imagens. Ósseos do ofício que nada, respeitem o moribundo gravador!
Mas, nem tudo são emas: lembro-me quando gravava o candidato à presidência da república, José Serra, aqui no prédio do jornal e ele ao me notar gravando-o dentro do elevador, soltou: “Pode desligar? Não me sinto à vontade...”

domingo, 26 de setembro de 2010

Fachadas

Quem dirá o que acontece na trinta e sete da esquina dois? Atrás da parede amarelada, pintada de azul e depois de verde, mora tanta gente que fica difícil distinguir quem é homem, mulher e criança. Na rua, são juntas, amontoadas, sobradinhos. Casas de pedra, tijolo e forro. Telhado de vime, vidro, madeira do teto ao chão.
São fachadas, onde moram mulheres, meninos e policiais. Onde existem pessoas de bem, de mal e gente de sal. Bem dá para ver a laje da casa dois e mal se nota a janela do banheiro da casa sete, que mais parece um depósito de ferro e guarnição desnecessária.
Há apenas uma casa com três andares, dois ocupados e um que ninguém mora nem limpa. Daria para viver duas pessoas que moram ali perto da viela, onde mal se alojam no cubículo sem número.
Tem um banco, banco simpático de praça no quintal do portão laranja. A mulher mora com o marido, o filho e a lembrança da filha no exterior. O cão late de longe e sabe quem passa na rua. Cão não gosta do homem da casa do lado que mora sozinho e trabalha de madrugada.
Na primeira casa da rua, ninguém tá, ninguém mora, nem mesmo o vento. Só folhas, fantasmas e folhetos. Na casa do lado, mora um sozinho, que sempre tem companhia. Em frente, mora uma velha mulher, rodeada de gente família, sozinha, sedenta em lascívia e enrugada pelo tempo.
São fachadas. São casas.
Pessoas que moram e que ninguém sabe o que acontece dentro de cada morada. Falam de um, falam de outros, imaginam, envergonham e pouco se sabe o que se passa do começo da rua para o fim dela, de cima da calçada para dentro da sala.
Quem dirá o que acontece na parte de dentro das fachadas? Num bairro pequeno, de gente modesta, que pinta a frente de casa para alegrar o dia-a-dia que passa e passa.

domingo, 5 de setembro de 2010

Varanda

Sempre de pisos frescos, de cores claras, pintadinhos no máximo com uma violeta rosada emaranhada com um galho verde musgo. Assim são a maioria das varandas, erguidas dos anos oitenta para cá. As mais sofisticadas perderam a graça, vêm embutida com o quintal e ninguém pisa ali a não ser a moça que lava as roupas. Varanda boa é aquela escondida, atrás da casa, onde os moleques corriam entre as roupas penduradas, com ralinhos no meio do espaço, quase sempre destampado com aquele cheiro de rio, que ao mesmo tempo que fede, agrada.
Sem roupas penduradas não se é uma varanda, assim como também sem varal. O varal desempenha um papel importante, pois por ele se distingue varanda do quintal, porém uma varanda que se preze, sempre tem roupa no varal, secando, esturricando. Enquanto a água da calça pinga rápido, pinga também o sutiã e o tomara-que-caia, uma água limpa e pesada, em espaços mais densos de tempo.
O varal é içado de ponta a ponta, com ganchos de ferro polido e feito com pequenos fios de plástico, em cores verde, azul e amarelo, que sujam as roupas mais claras enquanto o vento seco leva o prendedor de madeira. O prendedor, deve, ser de madeira, daqueles que deixam marca e não sujam, diferente do varal, que borra. Prendedores de plástico, com firulas desnecessárias não servem para nada.
Das pontes que ligam a cidade de São Paulo, dos bairros escondidos por onde passei parte da minha infância, sempre me encantei com elas, as varandas. Quando se entra na varanda, considere-se da família, pois lá está contida a intimidade de quem ali vive, assim como o banheiro, outro espaço que tenho certo labor.
Observava sem entender, como as pessoas mudam enquanto as roupas trocam de lugar no varal. De casa, na infância, avistava uma varanda vizinha, alta, ao lado de um terreno descampado. O varal levantado por tubos maciços de madeira que quando chovia, dava para ver as roupas quase caírem na rua. Sempre torcia para tal.
De onde eu estava, não dava para ver o chão da varanda, mas era legítima. Estava no alto da casa, embaixo era só garagem e eu sempre quis subir e ver o chão, piso ou o rústico daquele espaço de roupas. Queria conferir se o ralo era no canto ou no centro. Assim, dava para escoar a água que caía das calças, moletons, bermudas de pai e claro, da chuva.
Em casa a varanda não era tão interessante, pois sempre aos finais de semana revezavam com os ganchos do varal as pregas da rede de balanço, que mesmo me rendendo boas balangadas me tirava o imaginário de uma varanda com roupas e ralo e cheiro de piso.
As roupas da legitima vizinha eram quase sempre dispostas no mesmo lugar. Do canto, perto do terreno, eram colocados os jeans, sempre duas calças largas com o traseiro mais esbranquiçado que os joelhos, sempre com as costas da calça viradas para minha casa. Logo depois, vinha um moletom grosso, que pingava incessantemente, como se ninguém o tivesse torcido antes de pendurar. Um dia ouvi dizer que é preciso torcer bem antes de ir secar no varal. Depois do moletom quase sempre vinha uma toalha rosada com detalhes bordados perto das pontas. Depois, uma blusa amarela de mulher, e outra peça, também feminina, que até hoje eu não me lembro para poder distinguir. Eu via essas peças, pois elas eram sempre dispostas juntas no varal que era o mais visto da varanda de casa. Os demais ficavam atrás deste e eu pouco pude ver para disseminar o que estava lá pendurado, mas no balançar das roupas, via que tinha coisas dispostas atrás.
A dona da casa quase sempre, sorridente, cumprimentava a vizinhança e antes de anunciar uma trovoada, ela limpava o varal. Algumas peças, antes de irem para o armário de roupas, iam para uma espécie de mini varanda coberta, projetada antes da cozinha. Talvez fosse ali que ela lavasse todas aquelas peças, algumas desbotadas na bunda. Para mim, a única varanda sempre foi aquela que a chuva conseguia molhar.
Certa ocasião, ao voltar ensopado da escola, enquanto ainda chovia muito, vi jorrar água do cano dessa casa. Água que vinha pela calha com força, de lá de cima. Minha curiosidade aumentou em saber onde o ralo era disposto para poder escoar toda aquela água.
As vizinhas comentavam entre si, das roupas na varanda. Percebiam silenciosamente como a dona da casa era cuidadosa ao dispor daquela maneira todas as roupas. Comentavam até quando as calças eram trocadas e colocadas no lugar das que apresentavam algum cansaço. Ouvi pelos cotovelos de outra, que as calças eram as que o marido usava no trabalho e em certo momento até taxavam a dona da casa como relaxada por permitir que o marido fosse ao trabalho com calças quase que rasgadas. Eu não tinha a mesma opinião, pois as minhas eram piores, mas as calças não passavam mais de dois meses no varal e logo depois outras novas e mais resistentes tomavam os mesmos lugares, apesar de terem as mesmas cores e tamanhos.
A varanda dessas vizinhas era pobre, sem interesse, pois nada tinham a não ser uma camisa ou calcinhas dispostas de maneira esculachada. Nunca me interessou. Talvez nem à elas mesmo.
Bem cedo, antes de saírem ao trabalho, as roupas estavam lá, dispostas nos mesmos lugares, com cores e balanços até decorados pelos vizinhos mais próximos. Comentavam das calças, mesmo estando impecavelmente limpas, das toalhas e da peça feminina que eu não sei distinguir. Outras dúvidas imperavam nas mentes mais futriqueiras, como por exemplo, a que horas a mulher lavava as roupas para logo cedo estarem exatamente dispostas no varal e conseguinte na varanda, ou também se eram roupas pouco usadas, pois sempre eram as mesmas, nos mesmos espaços do varal e nos mesmos dias da semana.
Quando chovia fora de hora, as roupas encharcavam e eram deixadas ali por mais tempo. Conheciam pouco o marido, que era do tipo grandalhão com uma barriga enorme, saía cedo e voltava no começo da noite. Sempre com calças jeans, desbotadas na bunda e de barra feita. Pude reparar na barras só no corpo do homem, pois na casa, no varal, na varanda, a barra ficava perto do chão, que eu também queria descobrir.
Um dia, ouvi comentários mais acalorados e não entendi o motivo da euforia. Os olhares das vizinhas de varanda nua lançavam-se para aquela varanda alta e decifravam, como quem decifra cruzadinhas, as novas roupas colocadas no varal.
Não tinham mais calças e nem sequer a toalha rosadinha. No lugar, duas peças femininas mais coloridas e com decotes bem consideráveis. Invés da toalha comprida, um vestido longo com as costas a mostra.
Demorei para perceber que o marido dessa vizinha, há um bom tempo não aparecia na rua e só constatei isso quando no lugar das calças, havia corpetes, saias e calcinhas de renda. Diferentemente de antes, essas roupas jamais ficavam tempo o suficiente para a água da chuva encharcar. Não havia mais roupas de homem e a cada dia as roupas ficavam mais ousadas e coloridas. Balançavam levemente com a brisa e batiam umas nas outras.
Aos poucos, a vizinhança parou de notar a varanda e começou a notar a mulher. Estava mais sorridente, com fisionomia renovada e até deveras com um corpo mais atraente.
Eu, continuava a observar a varanda de longe e também a água que jorrava do cano em dias de chuva. Água que caía no piso, vinha pelo cano e morria na rua, na calçada da rua. Água que vinha de lá de cima, da varanda.