O trem não estava tão lotado quanto aos dias de rotina. Apesar de ser uma quarta-feira, haviam poucas pessoas naquele horário dentro do trem. Eu voltava de viagem e caminhava com as malas grudadas ao corpo. Foi quando ela entrou.
Sorrateira e tímida levava sobre a cabeça um canteiro com flores murchas e alguns ramos de folhas verdes. O cabelo crespo sumido entre mechas loiras era suporte da pequena caixa de madeira.
Entrou, com uma mão sustentando a caixa por seu equilíbrio e a outra na boca, molhando os dedos com a água da inocência. Roupa surrada, olhos atentos e covardia assumida. Era menina, menina do mundo.
Uma mulher perto da porta observava seus gestos rápidos. Um pequeno sorriso aparecia em seus lábios. Via e entendia a vida daquela menina e o canteiro.
Normalmente, enfiou-se entre os vãos dos bancos duros e colocou o canteiro sobre as pernas, tirou do bolso um doce e comia com paciência. A mulher observava.
A menina viu que era observada e retribuiu o olhar com um sorriso. Menina.
A mulher tirou do bolso um biscoito e ofereceu de longe à pirralha. Ela, por sua vez, não hesitou e em um pulo saiu dos vãos e foi até a bolacha, o canteiro veio junto. Olhar de confiança, olhar de suspeita.
Os demais olhavam a cena, assim como eu, admirando não o gesto, mas a vida e as maneiras da menina. Ela comia e ofereceu da mesma bolacha para quem a cedeu. A mulher recusou, agora era dela a comida.
Entendi, ou julguei entender, que o desejo daquela mulher estava calado com a impossibilidade de nada poder fazer para melhorar os dias daquela criança. Tinha vontade, mas sabia que ali a única coisa que poderia fazer era oferecer uma parte de um lanche que foi seu. Agora não é mais.
O pequeno sorriso mostrava uma pena daquela criança que podia estar brincando sobre o asfalto e plantando sonhos que talvez com o tempo houvessem de serem esquecidos.
A menina pendurou-se no ferro maior, mais alto e balançou por um instante. Seus pisantes, sujos pelo asfalto que não brincava, ficaram no chão.
O trem parou. A menina parou o balanço e voltou a ser grande. Notei em seu corpo os sinais de uma mulher, escondidos por uma lã vermelha e suja. Pegou o canteiro, colocou na cabeça e antes de andar olhou à mulher e sorriu. Eu sorri também, mas para eu mesmo. A mulher a seguiu com os olhos até a porta. Outros olhos a seguiam também, não só a menina.
A porta se abriu e a menina saiu sem ao menos olhar para trás. Poderia estar plantando sonhos de criança, mas plantava flores em seu canteiro.
Neste blog, pequenos textos do muito que se vê, se fala e se vive na poesia calcada de suor no cotidiano. Assim como o feminino de 'leão' é 'leã', de 'cão' é 'cã', o diminutivo de texto é "Textículo"
terça-feira, 8 de junho de 2010
domingo, 30 de maio de 2010
Estadão: Trinta dias de Impressões
Exatamente quando postei este texto, completei um mês em um emprego que me deixou muito feliz e me fez bater a cara em diferentes pedras em pouco tempo. Desde o dia três de maio, estou prestando serviços ao Estadão, um dos jornais mais conceituados do país. Tem lá seus concorrentes, mas é muito bem visto pelos brasileiros. Neste tempo, em uma empresa de grande porte, tive algumas experiências que me fizeram refletir sobre a vida, dias e sobre o próprio trabalho em si. Há uns dias, postei um texto sobre a semelhança entre o Amor e o Trabalho (vide abaixo post de 03/05/2010 ‘Amor X Trabalho’) e notei que o trabalho engloba muito mais do que apenas o amor. Ele é a tua vida!
Na primeira semana, tudo novo: pessoas, lugares, chefe, serviços. Sou daqueles que precisa ter um lugar para trabalhar que seja meu, como um computador com um papel de parede super artístico, uma mesa grande onde caibam além do teclado/mouse, canetas, dvd’s e uma foto da mãe ao lado do micro. Aqui não foi possível. Os jornalistas têm suas mesas separadas por pequenas colunas, trabalham um em frente ao outro. Eu e o outro funcionário que entrou comigo, trabalhamos em um mini corredor, frente para o estúdio, seguido daquela redação imensa de jornalistas, inclusive do meu chefe.
O trabalho foi corrido, no primeiro dia, saí uma hora depois do horário, depois de ouvir o estagiário reclamar dos equipamentos e o outro funcionário destrinchar uma lista de quem é ou não é, ali dentro.
No segundo dia, confesso que tive vontade de chorar, de ir embora, me roçar embaixo da saia da mãe e não voltar mais para perto daqueles ‘bobos’! Muita gente, idéias diferentes, o refeitório mais parecia uma cadeia, com bandejas e muito bife. Fiquei triste pelo fato de saber que minha vaga ainda não é efetiva e sim um colaborador, como free-lance. Meu crachá com a foto que eu já tinha tirado, não chegava, nem e-mail interno eu tinha. Estava ali e não me sentia ali. Sem contar o fato de ser super longe de casa, lá na casa do Limão (para não dizer outra coisa) Liguei para uns quatro amigos na hora do almoço para me sentir mais perto deles e, claro, encerrei a maratona de ligações com minha amada mãe.
Lá para o fim da semana, resolvi os aperreis do crachá, e-mail e integração, me conformei com o fato de não fazê-la. Msn nessas horas ajuda muito – ou não – para conversar com amigos que continuam nos mesmos empregos.
Sobre as pessoas que trabalham comigo, um deles estava há pouco mais de quatro meses, outro era estagiário e outro começou comigo. O meio social é um dos mais complexos para eu me adaptar. O estagiário julgava saber e dar a última palavra. Tinha umas manias e um jeito que não me agradavam, porém novatos ainda não falam. Até que, ao começar a segunda semana, ele – o estagiário - teve uma leve discussão com o outro novo funcionário. Isso foi parar na mesa do chefe e resumindo, tivemos uma reunião de cúpula e o estagiário foi desligado depois de faltar quatro dias consecutivos.
O outro novo funcionário é o que chamamos de ‘gente fina’, apesar de eu e ele nos desentendermos em duas ou três palavras, até agora nossa convivência é sadia e bem sadia eu diria, pelo fato de darmos altas risadas em piadas em comum. Mesma idade quase.
O ritmo de trabalho aumentava e ficava intenso, porém gratificante. Gravações ao vivo, respostas do público quase que imediatas, vídeos diferentes postados no site, visitas, saídas para a rua. Esse feedback do público que acompanha soa como uma agradável resposta ao meu trabalho.
No final da segunda semana, fomos até a Livraria Cultura gravar um evento promovido pelo Estadão. Eram debates sobre internet e comunicação on-line que teria a cobertura da TV. Enfim, motoristas levavam, a gente montava o circo (encontrei um amigo da faculdade trabalhando lá) gravava e... o almoço voava. Tenho um certo trauma de ficar sem comer, tudo culpa da faculdade e seus infindáveis estágios. E durante o evento, a tortura de ficar sem comer, dor de cabeça e espera do motorista para buscar, era o que me irritava mais. Tudo isso vale para ficar trabalhando com free-lance? Lembrava quase que imediatamente do salário, que de momento, valia a pena. Outra dorzinha na cabeça, foi a passagem desses vídeos para o site. O trampo era dobrado, pois tinha que editar, colocar legendas, renderizar (quem edita, sabe) Tanto foi, que numa sexta feira pirracenta, fiquei até as quatro e meia da madrugada jogando tudo na internet. Não queria vir no fim de semana. O bom disso foi descobrir que os motoristas do Estadão te levavam até em casa quando seu horário passasse das onze da noite. Santos motoristas!
Depois dessa descoberta, me senti importante e bem. O fato de não pegar trem, metrô e um jegue para chegar em casa, já me fazia trabalhar com mais afinco.
Meu chefe é sossegado. Pergunta o que estamos achando do emprego, não pressiona além da conta e sabe da importância de trabalhar e descansar. Não que eu esperasse um carrancudo, mas posso dizer que até agora sempre tive sorte com chefes, ou líderes. Assim que comecei, ele perguntou meu gosto musical. Não iria suscitar tudo, mas disse do meu gosto por jazz. Ao lembrar disso, alguns dias depois, ele disse que teria um festival bom para o fim do mês e me mandou a programação por e-mail. Sabia que tinha que ir, e fui. Assim como ele, as pessoas mais influentes são simpáticas também. Fiquei com medo daquela história dos super arrogantes. Até agora conheci poucos assim.
Na terceira semana, entrou a última funcionária da saga TV Estadão. Fora as impressões de primeiros contatos, ela demonstrou-se interessada e preocupada até demais em determinadas ocasiões, mas tudo começou a entrar nos eixos quando um precisou contar com o outro e o serviço saiu.
Nessa última semana, meu horário mudou e fiquei sabendo que farei plantão aos domingos por causa do futebol (logo, o futebol!) mas, como curativo, terei de folga as sextas e parte das quartas-feiras. Trabalhar de domingo parece repugnante, mas irei somente gravar um vídeo rápido, colocá-lo na internet e voltar para casa de carro, adesivado com o logo do Estadão, Rádio Eldorado e outros laiás.
Enfim, estou completando um mês de Estadão. Trinta dias cumpridos e compridos. Nesse tempo, vi o que é trabalhar em equipe, embora ainda estejamos nos afinando. Fiz minhas percepções de trabalho, pessoas e dias corridos dentro de uma super redação que move a comunicação impressa do país. A Globo gravou em nosso estúdio, a Cultura e me senti mais perto de tudo aquilo que apenas via na teoria. O fato que me chamou mais a atenção e que não deixa de ser um tabu, é as super faculdades onde estudaram meus companheiros de trabalho hoje. Tem gente da USP, PUC, Cásper, Anhembi e gente que nem fez faculdade, mas estamos todos ali, num barco navegante. Não que eu queira erguer a bandeira da minha faculdade, mas percebi que faculdade é apenas uma etapa. Comprovante de sua capacidade é o seu próprio esforço.
Antes que esse texto pareça mais auto-ajuda, completo que todos os dias, exercito os caminhos as serem tomados para alcançar outros objetivos. Trabalhar em uma grande empresa não demonstra somente obter outros grandes compromissos, mas enxergar outros e novos desafios. Confesso que estou muito feliz com esse novo emprego e como me disse um amigo de faculdade: “É para isso que estudei essa porra!”
Na primeira semana, tudo novo: pessoas, lugares, chefe, serviços. Sou daqueles que precisa ter um lugar para trabalhar que seja meu, como um computador com um papel de parede super artístico, uma mesa grande onde caibam além do teclado/mouse, canetas, dvd’s e uma foto da mãe ao lado do micro. Aqui não foi possível. Os jornalistas têm suas mesas separadas por pequenas colunas, trabalham um em frente ao outro. Eu e o outro funcionário que entrou comigo, trabalhamos em um mini corredor, frente para o estúdio, seguido daquela redação imensa de jornalistas, inclusive do meu chefe.
O trabalho foi corrido, no primeiro dia, saí uma hora depois do horário, depois de ouvir o estagiário reclamar dos equipamentos e o outro funcionário destrinchar uma lista de quem é ou não é, ali dentro.
No segundo dia, confesso que tive vontade de chorar, de ir embora, me roçar embaixo da saia da mãe e não voltar mais para perto daqueles ‘bobos’! Muita gente, idéias diferentes, o refeitório mais parecia uma cadeia, com bandejas e muito bife. Fiquei triste pelo fato de saber que minha vaga ainda não é efetiva e sim um colaborador, como free-lance. Meu crachá com a foto que eu já tinha tirado, não chegava, nem e-mail interno eu tinha. Estava ali e não me sentia ali. Sem contar o fato de ser super longe de casa, lá na casa do Limão (para não dizer outra coisa) Liguei para uns quatro amigos na hora do almoço para me sentir mais perto deles e, claro, encerrei a maratona de ligações com minha amada mãe.
Lá para o fim da semana, resolvi os aperreis do crachá, e-mail e integração, me conformei com o fato de não fazê-la. Msn nessas horas ajuda muito – ou não – para conversar com amigos que continuam nos mesmos empregos.
Sobre as pessoas que trabalham comigo, um deles estava há pouco mais de quatro meses, outro era estagiário e outro começou comigo. O meio social é um dos mais complexos para eu me adaptar. O estagiário julgava saber e dar a última palavra. Tinha umas manias e um jeito que não me agradavam, porém novatos ainda não falam. Até que, ao começar a segunda semana, ele – o estagiário - teve uma leve discussão com o outro novo funcionário. Isso foi parar na mesa do chefe e resumindo, tivemos uma reunião de cúpula e o estagiário foi desligado depois de faltar quatro dias consecutivos.
O outro novo funcionário é o que chamamos de ‘gente fina’, apesar de eu e ele nos desentendermos em duas ou três palavras, até agora nossa convivência é sadia e bem sadia eu diria, pelo fato de darmos altas risadas em piadas em comum. Mesma idade quase.
O ritmo de trabalho aumentava e ficava intenso, porém gratificante. Gravações ao vivo, respostas do público quase que imediatas, vídeos diferentes postados no site, visitas, saídas para a rua. Esse feedback do público que acompanha soa como uma agradável resposta ao meu trabalho.
No final da segunda semana, fomos até a Livraria Cultura gravar um evento promovido pelo Estadão. Eram debates sobre internet e comunicação on-line que teria a cobertura da TV. Enfim, motoristas levavam, a gente montava o circo (encontrei um amigo da faculdade trabalhando lá) gravava e... o almoço voava. Tenho um certo trauma de ficar sem comer, tudo culpa da faculdade e seus infindáveis estágios. E durante o evento, a tortura de ficar sem comer, dor de cabeça e espera do motorista para buscar, era o que me irritava mais. Tudo isso vale para ficar trabalhando com free-lance? Lembrava quase que imediatamente do salário, que de momento, valia a pena. Outra dorzinha na cabeça, foi a passagem desses vídeos para o site. O trampo era dobrado, pois tinha que editar, colocar legendas, renderizar (quem edita, sabe) Tanto foi, que numa sexta feira pirracenta, fiquei até as quatro e meia da madrugada jogando tudo na internet. Não queria vir no fim de semana. O bom disso foi descobrir que os motoristas do Estadão te levavam até em casa quando seu horário passasse das onze da noite. Santos motoristas!
Depois dessa descoberta, me senti importante e bem. O fato de não pegar trem, metrô e um jegue para chegar em casa, já me fazia trabalhar com mais afinco.
Meu chefe é sossegado. Pergunta o que estamos achando do emprego, não pressiona além da conta e sabe da importância de trabalhar e descansar. Não que eu esperasse um carrancudo, mas posso dizer que até agora sempre tive sorte com chefes, ou líderes. Assim que comecei, ele perguntou meu gosto musical. Não iria suscitar tudo, mas disse do meu gosto por jazz. Ao lembrar disso, alguns dias depois, ele disse que teria um festival bom para o fim do mês e me mandou a programação por e-mail. Sabia que tinha que ir, e fui. Assim como ele, as pessoas mais influentes são simpáticas também. Fiquei com medo daquela história dos super arrogantes. Até agora conheci poucos assim.
Na terceira semana, entrou a última funcionária da saga TV Estadão. Fora as impressões de primeiros contatos, ela demonstrou-se interessada e preocupada até demais em determinadas ocasiões, mas tudo começou a entrar nos eixos quando um precisou contar com o outro e o serviço saiu.
Nessa última semana, meu horário mudou e fiquei sabendo que farei plantão aos domingos por causa do futebol (logo, o futebol!) mas, como curativo, terei de folga as sextas e parte das quartas-feiras. Trabalhar de domingo parece repugnante, mas irei somente gravar um vídeo rápido, colocá-lo na internet e voltar para casa de carro, adesivado com o logo do Estadão, Rádio Eldorado e outros laiás.
Enfim, estou completando um mês de Estadão. Trinta dias cumpridos e compridos. Nesse tempo, vi o que é trabalhar em equipe, embora ainda estejamos nos afinando. Fiz minhas percepções de trabalho, pessoas e dias corridos dentro de uma super redação que move a comunicação impressa do país. A Globo gravou em nosso estúdio, a Cultura e me senti mais perto de tudo aquilo que apenas via na teoria. O fato que me chamou mais a atenção e que não deixa de ser um tabu, é as super faculdades onde estudaram meus companheiros de trabalho hoje. Tem gente da USP, PUC, Cásper, Anhembi e gente que nem fez faculdade, mas estamos todos ali, num barco navegante. Não que eu queira erguer a bandeira da minha faculdade, mas percebi que faculdade é apenas uma etapa. Comprovante de sua capacidade é o seu próprio esforço.
Antes que esse texto pareça mais auto-ajuda, completo que todos os dias, exercito os caminhos as serem tomados para alcançar outros objetivos. Trabalhar em uma grande empresa não demonstra somente obter outros grandes compromissos, mas enxergar outros e novos desafios. Confesso que estou muito feliz com esse novo emprego e como me disse um amigo de faculdade: “É para isso que estudei essa porra!”
sábado, 15 de maio de 2010
A Sala
Não estavam todos na sala. Faltava a avó, a tia mais nova e a adotada. Os pratos sujos e lambidos, agora não eram pratos, apenas louça, estorvo. Os mais novos corriam na varanda e irritavam a cadela. A alegria tomava conta do lugar. A família assistia um vídeo de aniversário, embora fora gravado há quase vinte anos.
Estavam juntos após grandes momentos perdidos no trabalho e na escola. Sequer notaram a alegria sendo compartilhada novamente, resguardada durante algum tempo.
Os tios planejavam para o outro dia, uma pescaria e peixes do tamanho de bois. Exagero.
- Sai da frente moleque! Gritava a mãe do menor. Irmã mais velha, que no vídeo era novata na experiência de peito. O mais novo corria sobre o piso desenhado, junto com a prima de mesma idade e o de nove.
A cada cena daquele aniversário, maneiras esquecidas eram despertadas nos parentes da sala. Naquele tempo, a tia segunda cantava letras de músicas infantis, coisa que não ousaria nos dias de hoje, talvez pela falta de tempo ou pela monotonia do casamento.
O tio terceiro apontava o vídeo e dizia os nomes de amigos dos quais não recebia noticias há anos. Seus olhos brilhavam e o sorriso quase não aparecia, escondido pela euforia dos fatos narrados na tela colorida.
As roupas, cabelo, a moda era outra. O que hoje é ridículo era exaltado no aniversário.
Enquanto assistiam, o jovem dotado de sonhos e capacidade de lutar desejou que muitas famílias pudessem reviver momentos de união como o que estavam vivendo naquele momento. Era sonhador.
A massa no prato esfriou e perdeu o gosto. O vídeo ganhara mais sabor.
Era quase madrugada e o frio já não incomodava. A porta de madeira, escancarada, deixava entrar a fumaça do cigarro do tio.
- Olha lá o pai, Sônia! Falou a mais velha em tom sereno.
Todos atentaram ao vídeo. O silêncio tomou conta do lugar. Os sorrisos pararam como gelo. Sem tirar os olhos da imagem, a cunhada ajeitou o vestido e sentou-se melhor no sofá. Os netos, que não conheceram o avô, pararam no minuto que antecedia a emoção da família. Era o avô.
O velho falecido despertou a saudade e fez o filho lembrar da adotada que havia engravidado antes dos dezesseis, pelas bandas interioranas. Para o irmão mais velho, inaceitável. Se o pai estivesse vivo não teria deixado. As lágrimas encheram-no os olhos e o gelo das feições, aqueceu o perdão ressuscitado com o falecido.
O avô era um tipo herói e mesmo não estando entre a família, apareceu com sua parte de vida cumprida.
Na época, ainda não havia a faculdade para a falta de tempo. Tinham metade, senão menos, da renda atual, mas eram realmente felizes.
Começaram a falar dos antepassados e o vídeo foi desfalecendo-se. A louça foi recolhida e a pescaria adiantada. As crianças comiam bolachas e a cadela deitou-se na caixa forrada. Melhor assim.
A fita embolorada foi retirada do aparelho. Entre um momento e outro, mesmo participando da alegria concreta, o jovem, único a permanecer, estudava em silêncio quanto tempo haviam perdido com brigas fúteis. A família ocupou-se com a madrugada.
Sobrara apenas o sonhador na sala. Olhou-a, estava pouco iluminada e vazia. Novamente vazia.
Estavam juntos após grandes momentos perdidos no trabalho e na escola. Sequer notaram a alegria sendo compartilhada novamente, resguardada durante algum tempo.
Os tios planejavam para o outro dia, uma pescaria e peixes do tamanho de bois. Exagero.
- Sai da frente moleque! Gritava a mãe do menor. Irmã mais velha, que no vídeo era novata na experiência de peito. O mais novo corria sobre o piso desenhado, junto com a prima de mesma idade e o de nove.
A cada cena daquele aniversário, maneiras esquecidas eram despertadas nos parentes da sala. Naquele tempo, a tia segunda cantava letras de músicas infantis, coisa que não ousaria nos dias de hoje, talvez pela falta de tempo ou pela monotonia do casamento.
O tio terceiro apontava o vídeo e dizia os nomes de amigos dos quais não recebia noticias há anos. Seus olhos brilhavam e o sorriso quase não aparecia, escondido pela euforia dos fatos narrados na tela colorida.
As roupas, cabelo, a moda era outra. O que hoje é ridículo era exaltado no aniversário.
Enquanto assistiam, o jovem dotado de sonhos e capacidade de lutar desejou que muitas famílias pudessem reviver momentos de união como o que estavam vivendo naquele momento. Era sonhador.
A massa no prato esfriou e perdeu o gosto. O vídeo ganhara mais sabor.
Era quase madrugada e o frio já não incomodava. A porta de madeira, escancarada, deixava entrar a fumaça do cigarro do tio.
- Olha lá o pai, Sônia! Falou a mais velha em tom sereno.
Todos atentaram ao vídeo. O silêncio tomou conta do lugar. Os sorrisos pararam como gelo. Sem tirar os olhos da imagem, a cunhada ajeitou o vestido e sentou-se melhor no sofá. Os netos, que não conheceram o avô, pararam no minuto que antecedia a emoção da família. Era o avô.
O velho falecido despertou a saudade e fez o filho lembrar da adotada que havia engravidado antes dos dezesseis, pelas bandas interioranas. Para o irmão mais velho, inaceitável. Se o pai estivesse vivo não teria deixado. As lágrimas encheram-no os olhos e o gelo das feições, aqueceu o perdão ressuscitado com o falecido.
O avô era um tipo herói e mesmo não estando entre a família, apareceu com sua parte de vida cumprida.
Na época, ainda não havia a faculdade para a falta de tempo. Tinham metade, senão menos, da renda atual, mas eram realmente felizes.
Começaram a falar dos antepassados e o vídeo foi desfalecendo-se. A louça foi recolhida e a pescaria adiantada. As crianças comiam bolachas e a cadela deitou-se na caixa forrada. Melhor assim.
A fita embolorada foi retirada do aparelho. Entre um momento e outro, mesmo participando da alegria concreta, o jovem, único a permanecer, estudava em silêncio quanto tempo haviam perdido com brigas fúteis. A família ocupou-se com a madrugada.
Sobrara apenas o sonhador na sala. Olhou-a, estava pouco iluminada e vazia. Novamente vazia.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Amor X Trabalho
Uma interligação interessante aproxima o trabalho cotidiano com as fabulosas artimanhas de relacionamentos amorosos. O emprego tem uma linha em nó com casos que permeiam os corações entre o afeto do amor que assemelha-se com o ato útil e rotineiro que chamamos de trabalho. Pode parecer um tanto frio ou até mesmo grotesco comparar interesses afetivos do coração com o ato necessário que dignifica o homem, mas há sim, uma verossimilhança curiosa entre amor e trabalho, analisadas em partes sensíveis e remuneradas.
O emprego exige um perfil, dom, diploma. Há dotes que se aprendem na escola e teorias que se fortificam com a prática. Para o pedreiro, a amizade com o cimento; Para o médico o cheiro do sangue; Como para a prostituta, o corpo sem beijos. No amor as exigências são únicas e distintas para cada pessoa. Um gosta das curvas, outra dos olhos e seus mistérios, outro dos seios, outra da inteligência, outros de outros. O perfil, conta tanto no trabalho como no amor. O currículo? Cartas. As músicas, a trilha do rádio ligado ao lado da mesa no escritório.
As melhores e passageiras aproximações do amor ocorrem entre música alta, ou na varanda da noite ou no banheiro da rodoviária. São como os trabalhos free lance, onde se ganha mais, trabalha-se rápido e a ousadia assina o resultado. As transas perigosas e sem sentimento são as mais ardentes e merecidas do gozo contínuo. Nem se lembram nomes e sim da foda. Nem da empresa, mas do produto.
Os empregos fixos são como os namoros ensaio-casamento. Nove, dez, doze anos ensaiando para um dia ser demitido e vagar em busca de um corpo free-lance. Quem casa com a empresa corre o risco de ficar hipertenso, ranzinza e com varizes, mas tem um casamento duradouro, broxante e ao mesmo tempo, invejável por aqueles que apenas trabalham com freelas, sem filhos ou netos correndo pelo quintal.
As indicações também servem no amor, pois a amiga fala mal do ex porque ainda ama e quem ouve sabe que o dito faz bem e pode trabalhar nele daqui para frente. A concorrência esconde a intolerância. As melhores vagas são silenciosas, fora de painéis iluminados. Ninguém ama um sujeito jogado num caderno de emprego, como é raro conhecer alguém que trabalhe numa multinacional depois de ficar anos solteiro, ou melhor, desempregado. Tem aqueles que pagam pouco, não registram em carteira e ainda não fazem sexo oral. Ninguém, estando neste século, trabalha em um emprego sem o tal do sexo oral. É preciso falar, sem tabus.
O divórcio é como o sócio que alimenta amizades com fornecedores e clientes principais da empresa que ainda presta contas, para mais cedo ou mais tarde montar seu próprio negócio, levar as ações e depois ver o parceiro chorar no tribunal, pois os filhos tinham direito ao dinheiro lavado da conta de ambos. Sendo assim, os clientes são os amantes e a empresa o antigo home sweet home.
Tem gente que esquece o crachá da empresa no pescoço quando vai encontrar o amor na estação e se pudesse, teria no sobrenome o nome da multinacional.
Há também as paqueras de trabalho. A velha história do mandar cartas de amor a outras empresas enquanto se trabalha nela. Empregos anteriores servem de referência para um amor atual. Uma coisa que não pode acontecer - no caso do amor - é ligar para pedir referências passadas. Empresas batem de frente na concorrência, no amor é igual.
A sogra, maldita por memória, são os chefes que vêm de brinde num emprego bom. A história do amor ao trabalho e o ódio ao chefe, mas há quem goste dele e troca bolachinhas, mesmo que em alguns casos a sogra seja homem.
A nova casa tem computador, mesa redonda e máquina de café. Lá se dorme, cochila e trabalha. Para as segundas e quartas, stress e às vezes sexo escondido depois do expediente, com a secretária ou com o estagiário. No escritório, os filhos, a TV, o fogão para as mais moderninhas. Os ambientes se misturam em degradê, com a cor da parede. O quarto principal é a sala do encarregado e do subordinado, o Box apertado perto da janela.
O salário vem em duas partes, com descontos em folha do INSS, poupança e do empréstimo para o casamento.
O trabalho e o amor estão separados em lados: um do lado profissional e o outro do lado pessoal, ou seria no lado sentimental? Há de se concordar que um dignifica e o outro destrói. Não há sorte nos dois ao mesmo tempo da vida, ou há? Afinal, são tantos lados que não se sabe se é necessário amar o trabalho ou trabalhar melhor o amor.
O emprego exige um perfil, dom, diploma. Há dotes que se aprendem na escola e teorias que se fortificam com a prática. Para o pedreiro, a amizade com o cimento; Para o médico o cheiro do sangue; Como para a prostituta, o corpo sem beijos. No amor as exigências são únicas e distintas para cada pessoa. Um gosta das curvas, outra dos olhos e seus mistérios, outro dos seios, outra da inteligência, outros de outros. O perfil, conta tanto no trabalho como no amor. O currículo? Cartas. As músicas, a trilha do rádio ligado ao lado da mesa no escritório.
As melhores e passageiras aproximações do amor ocorrem entre música alta, ou na varanda da noite ou no banheiro da rodoviária. São como os trabalhos free lance, onde se ganha mais, trabalha-se rápido e a ousadia assina o resultado. As transas perigosas e sem sentimento são as mais ardentes e merecidas do gozo contínuo. Nem se lembram nomes e sim da foda. Nem da empresa, mas do produto.
Os empregos fixos são como os namoros ensaio-casamento. Nove, dez, doze anos ensaiando para um dia ser demitido e vagar em busca de um corpo free-lance. Quem casa com a empresa corre o risco de ficar hipertenso, ranzinza e com varizes, mas tem um casamento duradouro, broxante e ao mesmo tempo, invejável por aqueles que apenas trabalham com freelas, sem filhos ou netos correndo pelo quintal.
As indicações também servem no amor, pois a amiga fala mal do ex porque ainda ama e quem ouve sabe que o dito faz bem e pode trabalhar nele daqui para frente. A concorrência esconde a intolerância. As melhores vagas são silenciosas, fora de painéis iluminados. Ninguém ama um sujeito jogado num caderno de emprego, como é raro conhecer alguém que trabalhe numa multinacional depois de ficar anos solteiro, ou melhor, desempregado. Tem aqueles que pagam pouco, não registram em carteira e ainda não fazem sexo oral. Ninguém, estando neste século, trabalha em um emprego sem o tal do sexo oral. É preciso falar, sem tabus.
O divórcio é como o sócio que alimenta amizades com fornecedores e clientes principais da empresa que ainda presta contas, para mais cedo ou mais tarde montar seu próprio negócio, levar as ações e depois ver o parceiro chorar no tribunal, pois os filhos tinham direito ao dinheiro lavado da conta de ambos. Sendo assim, os clientes são os amantes e a empresa o antigo home sweet home.
Tem gente que esquece o crachá da empresa no pescoço quando vai encontrar o amor na estação e se pudesse, teria no sobrenome o nome da multinacional.
Há também as paqueras de trabalho. A velha história do mandar cartas de amor a outras empresas enquanto se trabalha nela. Empregos anteriores servem de referência para um amor atual. Uma coisa que não pode acontecer - no caso do amor - é ligar para pedir referências passadas. Empresas batem de frente na concorrência, no amor é igual.
A sogra, maldita por memória, são os chefes que vêm de brinde num emprego bom. A história do amor ao trabalho e o ódio ao chefe, mas há quem goste dele e troca bolachinhas, mesmo que em alguns casos a sogra seja homem.
A nova casa tem computador, mesa redonda e máquina de café. Lá se dorme, cochila e trabalha. Para as segundas e quartas, stress e às vezes sexo escondido depois do expediente, com a secretária ou com o estagiário. No escritório, os filhos, a TV, o fogão para as mais moderninhas. Os ambientes se misturam em degradê, com a cor da parede. O quarto principal é a sala do encarregado e do subordinado, o Box apertado perto da janela.
O salário vem em duas partes, com descontos em folha do INSS, poupança e do empréstimo para o casamento.
O trabalho e o amor estão separados em lados: um do lado profissional e o outro do lado pessoal, ou seria no lado sentimental? Há de se concordar que um dignifica e o outro destrói. Não há sorte nos dois ao mesmo tempo da vida, ou há? Afinal, são tantos lados que não se sabe se é necessário amar o trabalho ou trabalhar melhor o amor.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Era quarta
Era quarta-feira. Dia fatídico cheio de trabalho, chefa, luzes de poste. Chato por si. Saiu do trabalho, entrou no Citroen e seguiu rumo ao litoral. Não avisou a família e sabia que ia ter problemas pelo sumiço instantâneo e não teria como explicar o motivo de descer à baixada no meio de março, depois de um meio de semana repleto de números.
Ouvia as músicas que levava em seu mp3 plugado no som do carro. Ficou feliz por ter adquirido o aparelho há dois anos.
Mantinha uma velocidade branda, avistava as luzes das casas de beira estrada que compunham a via que já havia passado em outros carnavais, natal ou réveillon, mas em março, ainda não. E sozinho, tampouco.
Eram poucos os automóveis que iam no mesmo rumo que o seu, mas havia. O celular acendeu no banco do carro e viu que a operadora havia mandado uma mensagem. Ignorou. Passava pouco das onze e ainda ninguém de casa entrou em contato, pois costumava chegar após os doze minutos das zero.
O túnel abafava o som da noite. Norah cantava baixo num timbre doce. Não negava o motivo de precisar ver o mar, mesmo que de dentro do carro. Seu olhar estava longe, distante do mar para onde ele se aproximava. Exultou-se pela liberdade, emprego, amigos e por ter a mãe por perto, mas era desarmado nas questões que envolvem o amor e suas peripécias.
Os amigos viram um amor antigo num barzinho de samba. Naquele domingo, ficara em casa por ter apenas vinte reais na carteira, mas não se lembra do motivo por realmente não ter ido. Mas foi bom ter ficado no quarto, ou não.
Já tinha ido lá quinze, vinte ou cem vezes, em domingos seguidos até, e nunca havia encontrado nada que fizesse seu coração tremer. Até tinha um certo asco daquele lugar por ter gente feia demais. Tudo mudou quando soube que uma pele morena conhecida e nada de ex-amada andava sobre os muros laranjas daquele espaço.
Sabia que nada mais o importava sobre tudo o que passou, mas por milhares de motivos ainda guardava um sentimento que não era nem amor, nem paixão, nem ódio, nem sabia.
Olhou para o lado e viu a cidade iluminada de Santos abaixo de si. A estrada um pouco molhada e a casa que um dia repartiu de banhos estava lá, no meio daquelas luzes.
Deus o livre de um dia alguém descobrir que desviava seu caminho de quarta para afogar a lembrança de um estranho sentimento. Tinha parentes de amigos na praia, de casas com jardim e piscina de lona. Queria só ver o mar.
Não soou sequer uma palavra dentro do carro e quando calava-se estando sozinho, a situação poderia ser considerada séria. Falava constantemente sozinho, dando broncas em si mesmo e despistando algumas dores com piadinhas sem-graça que duravam segundos.
O farol iluminou um homem que caminhava na beira da estrada. Quis descer, contar, pedir uma opinião, pois talvez o magricela poderia dizer uma palavra que o ajudaria naquele momento. Que pensamento besta! Poderia ser assaltado e seu corpo encontrado depois de alguns dias. O que sua mãe diria? Tinha apenas 26 anos. Sorriu pela primeira vez desde que cruzou o primeiro pedágio, quando riu do... do que mesmo? Esqueceu.
Entrando na cidade, viu uma grande estátua de Nossa Senhora Aparecida, depois um bordel mal iluminado e uma casa pintada com um peixe azul na porta. Sentia o cheiro de estofado, que tinha mandado lavar anteontem, segunda, quando soube que o amor estava por perto, mas ele estava em casa ocupando-se do domingo.
Sentiu uma brisa fria no rosto e piscou com a luz de um ônibus que cruzou com ele na rotatória. Viu uma rua pequena, com casas e alojamentos amontoados, que mais parecia um grande corredor no meio da cidade. Tinha areia na valeta, no canteiro central e alguns bares ainda estavam abertos. Viu que a cidade de praia também é cidade.
Sempre acostumado a vir para se divertir, acostumado com o MASP, a Augusta ou os faróis de longe da avenida Angélica, tinha um olhar menos preocupado nesse tipo de lugar, afinal tinha se tornado tão caipira dentro de uma metrópole que o bairro vizinho era novidade para ele.
Viu uma placa verde, velha, com as palavras: “Turistas, sejam bem vindos.” Não era turista. Era quarta-feira.
Entre alguns minutos esqueceu por que estava ali. Quis apressar-se para voltar e teve segundos de medo. Lembrou-se da mãe, quis chorar, mas não pela lembrança, ou não por essa. Ela – a mãe – simbolizava o mais tenro dos sentimentos, a perda irreparável, a verdade do coração, ao menos do seu e talvez isso fosse o que falta à sua vida bem sucedida de planos encaixotados em maços de papelão.
Virou a rua e fez uma entrada proibida, mas logo contornou para a rua que daria acesso à praia, porém não queria a praia e sim o mar.
Ouviu fora do carro os pneus arrastarem na areia. Viu uma grande montanha em frente ao carro e as casas ainda o impossibilitavam de ver as águas. Chegou mais perto, diminuiu a velocidade e o som das ondas que se quebravam longe, o remetiam às pedras que um dia sentou com o amor do samba de domingo. O oceano era um só.
Algo reluzia em um ponto da montanha e lembrou que não era montanha, mas monte. Este que o olhava, observando-o pequeno e só, em frente ao mar.
As faixas de estacionamento estavam apagadas no chão, em partes pela areia em partes pelo tempo que estavam pintadas ali. Amarelas.
Uma placa de aço, na altura dele, tinha o desenho de um coco com canudo, sorrindo para o nada. Aquele coco estava dormindo, era quase uma da madrugada.
Desligou o som e o motor do carro. Tudo ficou mudo e ele olhou para o mar.
Ouvia as músicas que levava em seu mp3 plugado no som do carro. Ficou feliz por ter adquirido o aparelho há dois anos.
Mantinha uma velocidade branda, avistava as luzes das casas de beira estrada que compunham a via que já havia passado em outros carnavais, natal ou réveillon, mas em março, ainda não. E sozinho, tampouco.
Eram poucos os automóveis que iam no mesmo rumo que o seu, mas havia. O celular acendeu no banco do carro e viu que a operadora havia mandado uma mensagem. Ignorou. Passava pouco das onze e ainda ninguém de casa entrou em contato, pois costumava chegar após os doze minutos das zero.
O túnel abafava o som da noite. Norah cantava baixo num timbre doce. Não negava o motivo de precisar ver o mar, mesmo que de dentro do carro. Seu olhar estava longe, distante do mar para onde ele se aproximava. Exultou-se pela liberdade, emprego, amigos e por ter a mãe por perto, mas era desarmado nas questões que envolvem o amor e suas peripécias.
Os amigos viram um amor antigo num barzinho de samba. Naquele domingo, ficara em casa por ter apenas vinte reais na carteira, mas não se lembra do motivo por realmente não ter ido. Mas foi bom ter ficado no quarto, ou não.
Já tinha ido lá quinze, vinte ou cem vezes, em domingos seguidos até, e nunca havia encontrado nada que fizesse seu coração tremer. Até tinha um certo asco daquele lugar por ter gente feia demais. Tudo mudou quando soube que uma pele morena conhecida e nada de ex-amada andava sobre os muros laranjas daquele espaço.
Sabia que nada mais o importava sobre tudo o que passou, mas por milhares de motivos ainda guardava um sentimento que não era nem amor, nem paixão, nem ódio, nem sabia.
Olhou para o lado e viu a cidade iluminada de Santos abaixo de si. A estrada um pouco molhada e a casa que um dia repartiu de banhos estava lá, no meio daquelas luzes.
Deus o livre de um dia alguém descobrir que desviava seu caminho de quarta para afogar a lembrança de um estranho sentimento. Tinha parentes de amigos na praia, de casas com jardim e piscina de lona. Queria só ver o mar.
Não soou sequer uma palavra dentro do carro e quando calava-se estando sozinho, a situação poderia ser considerada séria. Falava constantemente sozinho, dando broncas em si mesmo e despistando algumas dores com piadinhas sem-graça que duravam segundos.
O farol iluminou um homem que caminhava na beira da estrada. Quis descer, contar, pedir uma opinião, pois talvez o magricela poderia dizer uma palavra que o ajudaria naquele momento. Que pensamento besta! Poderia ser assaltado e seu corpo encontrado depois de alguns dias. O que sua mãe diria? Tinha apenas 26 anos. Sorriu pela primeira vez desde que cruzou o primeiro pedágio, quando riu do... do que mesmo? Esqueceu.
Entrando na cidade, viu uma grande estátua de Nossa Senhora Aparecida, depois um bordel mal iluminado e uma casa pintada com um peixe azul na porta. Sentia o cheiro de estofado, que tinha mandado lavar anteontem, segunda, quando soube que o amor estava por perto, mas ele estava em casa ocupando-se do domingo.
Sentiu uma brisa fria no rosto e piscou com a luz de um ônibus que cruzou com ele na rotatória. Viu uma rua pequena, com casas e alojamentos amontoados, que mais parecia um grande corredor no meio da cidade. Tinha areia na valeta, no canteiro central e alguns bares ainda estavam abertos. Viu que a cidade de praia também é cidade.
Sempre acostumado a vir para se divertir, acostumado com o MASP, a Augusta ou os faróis de longe da avenida Angélica, tinha um olhar menos preocupado nesse tipo de lugar, afinal tinha se tornado tão caipira dentro de uma metrópole que o bairro vizinho era novidade para ele.
Viu uma placa verde, velha, com as palavras: “Turistas, sejam bem vindos.” Não era turista. Era quarta-feira.
Entre alguns minutos esqueceu por que estava ali. Quis apressar-se para voltar e teve segundos de medo. Lembrou-se da mãe, quis chorar, mas não pela lembrança, ou não por essa. Ela – a mãe – simbolizava o mais tenro dos sentimentos, a perda irreparável, a verdade do coração, ao menos do seu e talvez isso fosse o que falta à sua vida bem sucedida de planos encaixotados em maços de papelão.
Virou a rua e fez uma entrada proibida, mas logo contornou para a rua que daria acesso à praia, porém não queria a praia e sim o mar.
Ouviu fora do carro os pneus arrastarem na areia. Viu uma grande montanha em frente ao carro e as casas ainda o impossibilitavam de ver as águas. Chegou mais perto, diminuiu a velocidade e o som das ondas que se quebravam longe, o remetiam às pedras que um dia sentou com o amor do samba de domingo. O oceano era um só.
Algo reluzia em um ponto da montanha e lembrou que não era montanha, mas monte. Este que o olhava, observando-o pequeno e só, em frente ao mar.
As faixas de estacionamento estavam apagadas no chão, em partes pela areia em partes pelo tempo que estavam pintadas ali. Amarelas.
Uma placa de aço, na altura dele, tinha o desenho de um coco com canudo, sorrindo para o nada. Aquele coco estava dormindo, era quase uma da madrugada.
Desligou o som e o motor do carro. Tudo ficou mudo e ele olhou para o mar.
terça-feira, 13 de abril de 2010
O Teto
Hipóteses de pés que pisam no assoalho de vidro e refletem sua própria imagem no solo. Outrora, ouça o ruído que o teto pisado faz e quem é que está sobre as nossas cabeças. Há possibilidades de tocar o teto e ouvir se algum gato vagabundo anda acima e ainda é cedo para julgar se nosso destino é um dia pisar sobre a cabeça dos outros O teto que está sobre nós, revela que mesmo com as ilusões de não haver nada sobre nossas mentes, ainda há um teto, um lugar mais alto. Refleti sobre essa hipótese quando em pé sobre um tablado de cimento, fiquei mais perto do teto que outrora era distante e me causava alegria quando conseguia tocá-lo com meus dedos finos. Seja por algum que me levantou ou por subir em um móvel imóvel e firme. Me fez tocar o teto. Com as andanças da vida, passei a me aproximar do dito postulado e nem sequer me dei conta de que ele se aproximava de mim. Busquei – e ainda busco – sua proximidade íntima e ele se afasta quando mais eu o busco. Assim como a vida, o teto é um fato interessante, concreto de natureza e abstrato em suas conformidades. Podemos ouvir quem nele pisa, mas não saber quem nele está. Mesmo que para o ouvidor, o teto seja o auge, para quem pisa ele é o mínimo e para este também há um teto. Hoje pisamos no teto que serve de sonho para outro homem, abaixo de nós nem que seja só de passagem, amanhã nosso teto pode ser um chão. Quem o vê, nele quer estar, nele quer ser, encostar. O teto como fato inerente demonstrado por pinturas de cores ocres, borra-se com a bota de quem pisa. O teto é um segredo. Conciso em ser sustento e sonho ao mesmo tempo, separados em questões hipotéticas e um mesmo que o relata em ser apenas teto. Ouça enquanto um barulho provido do teto preocupa e um, do chão, incomoda. É mais trágico um teto cair sobre nossas cabeças do que um chão ruir abaixo de nossos pés. Paredes de cima preocupam mais do que as de baixo. Quem ousaria entrar numa casa onde o teto está caindo? Prefiro pisar no solo que se dilata do que bancar o besta em colocar minha cabeça abaixo de um concreto molambo. Infeliz de quem não se dá conta de que pisa num teto, naquilo que um dia foi o seu teto. O chão nada mais é do que teto de alguém e o teto, chão de outro. Batem as vassouras dos edifícios pedindo silêncio, trocam as lâmpadas do andar de baixo e olha-se pelo vão na obra mal acabada. Ainda quero estar no teto que observo com olhares fixos e sugiro que quem for pisar no meu teto, tenha consciência de que eu o deixei bem limpo e varrido. Digno de ser polido e capaz de abrigar um corpo cansado. O chão que um dia foi chão e hoje é teto para alguém, enquanto eu piso no teto que é meu por merecimento.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Dois Ois
Um texto com um pouco de melancolia e ao mesmo tempo simples, de pensamentos sem vozes, entre duas palavras.
- Oi? Disse deste lado da linha.
Havia ensaiado durante meses essa ligação. O número discado foi decorado e percebeu que não havia esquecido, pois não tinha sequer um papel ao lado com algo anotado. O coração aflito o fez lembrar naquele desgastado teclado numérico, quantas vezes tinha discado o mesmo número em anos anteriores e em outros demasiados aparelhos, quando ainda os sentimentos se encontravam em um mesmo almejo. Ligava de um orelhão público, com adesivos prostitutos colados ao pé do ouvido. O aparelho azul não tinha lábios vermelhos, mas dele surtiria a voz do ex companheiro que iria responder seus anseios, mesmo com palavras ocres, o timbre o bastava. Bem próximo do azul que o aproximava da voz longe em outras circunstâncias.
Aquilo que chamavam de relacionamento, de aliança no dedo e oculto dos parentes próximos, terminou logo depois de uma traição boba, que partiu de um dos lados. Estava cansado da falta de tempo e se emaranhou em outros braços, antes mesmo de encerrar o gosto do outro. Braços que eram mais frios do que a causa do término. Lembrou-se rapidamente das canções que embalaram o relacionamento, dos momentos de água salgada e do sexo que faziam enquanto os pais viajavam. Eram adolescentes de coração bobo, mas haviam amado verdadeiramente um ao outro, embora isso tenha acontecido em momentos distintos enquanto estavam juntos. Brigavam, calavam-se e beijavam-se no final. Lembrou também da viagem e do sexo que fizeram ao entrar na casa do destino antes mesmo de desfazer toda a bagagem.
Questionou-se como tudo aquilo podia ter acabado na intensidade do gosto que tinham um pelo outro. Ficou imaginando o que o outro pensava enquanto segurava o telefone ao ouvir seu singelo cumprimento feito de duas vogais. Não se deu conta que o fato de ter novamente ligado, fôra um processo de determinação e uma batalha contra o próprio orgulho. Discou em uma tacada só e entregou aos ventos aquele momento. Tantas outras ligações já tinha feito naquele orelhão para outros amores e para este também, mas não no momento que vivia agora. Viajou também pelo cheiro de saliva seca na pele, de outros sexos que esbarrou pelo caminho, todos para se convencer que era capaz de amar um outro alguém e caso um dia pudesse, contaria todas as aventuras que teve como prova de esquecimento, mas não. O outro estava na linha e havia sentido quem estava novamente o procurando.
Este outro poderia ter ido embora como prometera certa vez ou estar aquecido em outro coração ou se esquecido de tais momentos que o fizeram novamente procurar o passado atrás de uma seqüência numérica. O outro poderia também tê-lo esquecido e jogado todas as lembranças fora, menos uma foto que guardava apenas para se juntar aos demais casos que tivera durante seus dias devaneios. Ou não, podia ter tudo muito bem guardado na esperança de um dia retornar a amar a voz que estava do outro lado da linha. Teve raiva de si mesmo por
dois ou três segundos, pois não deveria ter tirado um tempo de sua vida tão corrida para aparecer em outra que dele correu tão cedo.
Imaginou o motivo daquela ligação, que não hesitou para atender, pois imaginou ser sua mãe perguntando do rodo que esqueceu atrás da porta da cozinha. Mas não, era um amor passado que novamente entrou em sua vida por um momento pequeno. Franziu os pêlos da sobrancelha, tentou transmitir calma e se fazer de desentendido, mas um sorrateiro sorriso surtiu de sua boca e imediatamente ficou feliz por não poder ser visto pelo telefone. Poderia passar pelo tom da voz o sentimento que julgasse necessário. Por ter recebido essa ligação embora também tivesse vontade de saber como o outro estava, tinha o poder sobre aquele momento. Ou não. Talvez por ter sido ele que encerrou a união há dois anos, tinha mais dúvidas sobre si do que aquele que deixou chorando na estação.
Ambos não sabiam o que falar e nem como agir, mesmo que não precisassem se mover. Alguns pensamentos se encontraram ali, as músicas, a chuva e quase instantaneamente puderam ler naquele segundo em silêncio que ainda tinham muito que ser um ao outro. Os dias o afastaram, o trabalho havia mudado e talvez agora pudessem dedicar um pedaço de tempo. Talvez estivessem mais maduros, mais determinados a amarem-se e tudo ficou tão perto. Moravam ainda em suas cidades de início, pois o número discado foi o mesmo. Um deles julgou lembrar-se das brigas para suscitar maturidade e não deixar que aquele minuto se tornasse doce demais e pudesse agir com a razão, como não fizera várias vezes em tempos remotos o que resultou em lágrimas que poderiam muito bem ter sido evitadas. Nem sequer tinham caído em si pelo nervosismo de um ouvir a voz do outro. Voltaram ao aparelho azul e o passado foi ligeiramente esquecido para que pudessem dar continuidade a uma conversa banal e ao mesmo tempo, interessante. Estavam presos ao momento e próximos em suas vozes, em coração, mas não juntos. Podia ser uma ligação qualquer, uma proximidade boba ou um rumo que se retornaria, quem sabe... Ou apenas mais uma das tantas conversas que fizeram durante seus vinte e alguns anos.
- Oi, respondeu o outro.
- Oi? Disse deste lado da linha.
Havia ensaiado durante meses essa ligação. O número discado foi decorado e percebeu que não havia esquecido, pois não tinha sequer um papel ao lado com algo anotado. O coração aflito o fez lembrar naquele desgastado teclado numérico, quantas vezes tinha discado o mesmo número em anos anteriores e em outros demasiados aparelhos, quando ainda os sentimentos se encontravam em um mesmo almejo. Ligava de um orelhão público, com adesivos prostitutos colados ao pé do ouvido. O aparelho azul não tinha lábios vermelhos, mas dele surtiria a voz do ex companheiro que iria responder seus anseios, mesmo com palavras ocres, o timbre o bastava. Bem próximo do azul que o aproximava da voz longe em outras circunstâncias.
Aquilo que chamavam de relacionamento, de aliança no dedo e oculto dos parentes próximos, terminou logo depois de uma traição boba, que partiu de um dos lados. Estava cansado da falta de tempo e se emaranhou em outros braços, antes mesmo de encerrar o gosto do outro. Braços que eram mais frios do que a causa do término. Lembrou-se rapidamente das canções que embalaram o relacionamento, dos momentos de água salgada e do sexo que faziam enquanto os pais viajavam. Eram adolescentes de coração bobo, mas haviam amado verdadeiramente um ao outro, embora isso tenha acontecido em momentos distintos enquanto estavam juntos. Brigavam, calavam-se e beijavam-se no final. Lembrou também da viagem e do sexo que fizeram ao entrar na casa do destino antes mesmo de desfazer toda a bagagem.
Questionou-se como tudo aquilo podia ter acabado na intensidade do gosto que tinham um pelo outro. Ficou imaginando o que o outro pensava enquanto segurava o telefone ao ouvir seu singelo cumprimento feito de duas vogais. Não se deu conta que o fato de ter novamente ligado, fôra um processo de determinação e uma batalha contra o próprio orgulho. Discou em uma tacada só e entregou aos ventos aquele momento. Tantas outras ligações já tinha feito naquele orelhão para outros amores e para este também, mas não no momento que vivia agora. Viajou também pelo cheiro de saliva seca na pele, de outros sexos que esbarrou pelo caminho, todos para se convencer que era capaz de amar um outro alguém e caso um dia pudesse, contaria todas as aventuras que teve como prova de esquecimento, mas não. O outro estava na linha e havia sentido quem estava novamente o procurando.
Este outro poderia ter ido embora como prometera certa vez ou estar aquecido em outro coração ou se esquecido de tais momentos que o fizeram novamente procurar o passado atrás de uma seqüência numérica. O outro poderia também tê-lo esquecido e jogado todas as lembranças fora, menos uma foto que guardava apenas para se juntar aos demais casos que tivera durante seus dias devaneios. Ou não, podia ter tudo muito bem guardado na esperança de um dia retornar a amar a voz que estava do outro lado da linha. Teve raiva de si mesmo por
dois ou três segundos, pois não deveria ter tirado um tempo de sua vida tão corrida para aparecer em outra que dele correu tão cedo.
Imaginou o motivo daquela ligação, que não hesitou para atender, pois imaginou ser sua mãe perguntando do rodo que esqueceu atrás da porta da cozinha. Mas não, era um amor passado que novamente entrou em sua vida por um momento pequeno. Franziu os pêlos da sobrancelha, tentou transmitir calma e se fazer de desentendido, mas um sorrateiro sorriso surtiu de sua boca e imediatamente ficou feliz por não poder ser visto pelo telefone. Poderia passar pelo tom da voz o sentimento que julgasse necessário. Por ter recebido essa ligação embora também tivesse vontade de saber como o outro estava, tinha o poder sobre aquele momento. Ou não. Talvez por ter sido ele que encerrou a união há dois anos, tinha mais dúvidas sobre si do que aquele que deixou chorando na estação.
Ambos não sabiam o que falar e nem como agir, mesmo que não precisassem se mover. Alguns pensamentos se encontraram ali, as músicas, a chuva e quase instantaneamente puderam ler naquele segundo em silêncio que ainda tinham muito que ser um ao outro. Os dias o afastaram, o trabalho havia mudado e talvez agora pudessem dedicar um pedaço de tempo. Talvez estivessem mais maduros, mais determinados a amarem-se e tudo ficou tão perto. Moravam ainda em suas cidades de início, pois o número discado foi o mesmo. Um deles julgou lembrar-se das brigas para suscitar maturidade e não deixar que aquele minuto se tornasse doce demais e pudesse agir com a razão, como não fizera várias vezes em tempos remotos o que resultou em lágrimas que poderiam muito bem ter sido evitadas. Nem sequer tinham caído em si pelo nervosismo de um ouvir a voz do outro. Voltaram ao aparelho azul e o passado foi ligeiramente esquecido para que pudessem dar continuidade a uma conversa banal e ao mesmo tempo, interessante. Estavam presos ao momento e próximos em suas vozes, em coração, mas não juntos. Podia ser uma ligação qualquer, uma proximidade boba ou um rumo que se retornaria, quem sabe... Ou apenas mais uma das tantas conversas que fizeram durante seus vinte e alguns anos.
- Oi, respondeu o outro.
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